A Morte

A Morte
óleo s/tela de Guilherme de Faria 1967

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Ariadne em Naxos (de Alma Welt)

Quantas vezes só em mim mesma me perco
E me vejo em labirintos sem respostas
Prevendo o Minotauro pelo esterco
Quer dizer, francamente: pelas bostas...

Báh! Psique de poeta em quarentena
Frágil como se cortado o esperto fio *
Não fosse eu a Ariadne, tão serena
Abandonada no leito já vazio. *

Esperando a Alegria que vier *
Nem que seja com os truques do improviso
Para aquele vão consolo que se quer, *

Na Naxos sem nexo em que me encontro
Meu herói de mim partiu sem dar aviso, *
E ele mesmo era meu temido monstro...

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05/08/2020

sábado, 5 de outubro de 2019

A eterna rebelião (de Alma Welt)

Vão-se as horas e os dias como folhas
Levadas por imponderável vento,
Tornando inúteis e falsas as escolhas
Ou reduzidas a inerte pensamento.

"Tudo é inútil"... me diz a consciência,
Mas meu coração é posto em brios
Pela vaidade resistente, em calafrios
Sacudindo-me na minha desistência.

Tão desqualificado orgulho humano!
Como se erguem os fracos e vencidos
Para um novo levante ou novo engano...

Senhor, se não queríeis rebelião
Por que nos poupastes, presumidos
E tão vaidosos da Arte e da Razão?

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27/06/2018


Eternal Rebellion (by Alma Welt)
(Free Translation by Lucia Welt)

Gone are the hours and days like leaves
Carried by the weightless breath
Making useless our grieves
Or reduced to an inert Mith


"Everything is useless," says the mind,
But my heart is high to find
For hard vanity, afraid of stagnation
Rocking me in my resignation.


So disqualified the human pride,
How do the weak and the loosers increase
For a new lift or a new tide...

Lord, if You didn't want us a new season
Why did You spare us and not cease
Our so vain human Art and Reason?
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27/06/2018

terça-feira, 22 de maio de 2018

A Imitação da Vida (de Alma Welt)

Desvelar desta vida alguns segredos
Não é missão de nós artistas e poetas,
Nem dos monges, peregrinos e ascetas
Mas amar a Criação, toda, sem medos.

Como? Existe a obrigação de amar?
Para o Amor foi construído um templo?
Não podemos por nada em seu lugar?
A luta por grandeza, por exemplo?

Não! É o Primeiro Mandamento
E só os maus ousam contestá-lo
Tornando esta vida um vão tormento.

Mas fazer Arte é amar mais a Criação
Que o Criador (e julgamos imitá-lo),
A Quem só deve divertir a imitação...

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22/05/2018

sábado, 28 de janeiro de 2017

O fio da intriga (de Alma Welt)

Nossa memória é curta, o Livro é falho,
O quê havia antes do Verbo e sua dor?
Como era afinal o cabeçalho,
Por quê criaste o mundo, meu Senhor?

De nossa origem falta-nos a chave,
Pouco sabemos do que outrora fomos.
Temos do enredo um certo entrave,
Nos falta um ou dois primeiros tomos.

Tudo é um Mistério, e ele persiste
Pois nem ao menos sabemos o sentido
De estar no Livro e se ele existe.

Se a vida é ilusão, e há quem o diga,
A vigília é só sonho invertido,
E perdemos todo dia o fio da intriga...

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28/01/2017

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Última Máscara (de Alma Welt)

                                  A Humana Condição - óleo  de Guilherme de Faria, 1959,
                                  coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

A Última Máscara (de Alma Welt)

Temos todos uma máscara perdida
Que é uma entre as tantas que dispomos.
Essa tal é de feição desconhecida,
Não a vemos no espelho quando a pomos...

É ela, essa máscara, nosso Ego
Que nos é dificilmente perceptível,
Como um camaleão de pele incrível
O nosso próprio olhar tornando cego.

Eis porquê somos espectros duvidosos
Vagando entre os outros invisíveis
Nossos falsos mistérios gloriosos...

E como é trágico o vislumbre mais preciso
De nossas belas aparências discutíveis,
Já que temos o branco e mesmo riso...

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19/10/2016

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

À sombra do vulcão (de Alma Welt)

Imaginária vulcânica (com dupla Alma e seu cão) - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 2015

À sombra do vulcão (de Alma Welt)

À sombra do vulcão eu me encontrava
E o meu cão me seguia fielmente
E não porque fosse forte ou brava
Mas por estar ali, então, somente.

A vida nos põe onde ela quer
E cabe a nós fazer o nosso enredo
Ou tão somente expressar o que vier
Se possível disfarçando o nosso medo.

Então me vi seguindo logo atrás...
Era eu vigiando-me à distância
Para saber quem sou, se sou capaz.

Sempre eu e meu duplo nesta vida,
Já que nos impele a mesma ânsia
De ser uma pela outra merecida...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Embocaduras (de Alma Welt)


Gravura de Gustave Doré ("Me encontrei numa selva escura..." ( Dante Alighieri, Divina Comédia)

Embocaduras (de Alma Welt)

Perdida a mão do sal da tua poesia
É como ter perdido a embocadura *
De tua flauta conhecendo a partitura
Ou sabendo de cor tua sinfonia...

Nada mais podes fazer senão parar
E pausar a pena ou o teclado:
A poesia não é terra de se arar
Nem jardim, menos ouro do Eldorado.

O portal desesperado não esperes *
E o teu cicerone é um tanto rude, *
Talvez lobo e leopardo consideres. *

Podes bem encontrá-lo à revelia,
Foste parar na Terra da Agonia,
Perdida a tua louca juventude...

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Notas

* Perdida a mão do sal da tua poesia
É como ter perdido a embocadura
De tua flauta conhecendo a partitura * - alusão à perda súbita do jeito para a culinária ou o jeito certo de assoprar o bocal ou palhetas num instrumento de sopro, fenômeno imponderável que pode acontecer com os cozinheiros e músicos. Aqui, no caso, será uma comparação com o súbito estancamento do fluxo de inspiração que pode ocorrer ocasionalmente com os poetas...

*O portal desesperado não esperes - O portal do Inferno da Divina Comédia, de Dante, em que estava escrito: "Deixai toda esperança, vós que entrais".

*E o teu cicerone é um tanto rude - na Comédia o cicerone do Poeta era o polido Virgílio, poeta romano da antiguidade. Alma adverte que agora até o guia será adverso...

*Talvez lobo e leopardo consideres... - Alma se refere às duas feras que acuaram o poeta Dante no meio da Selva até diante do portal do Inferno, onde não pode senão adentrar, para não ser devorado. Agora, Alma sugere que, a esta altura, é melhor encará-las pois já não estás na tua louca juventude que preferiu atravessar o sinistro portal...

domingo, 13 de julho de 2014

Meta-linguagem (de Alma Welt)


Procurar com afinco o meu silêncio
Há de exigir de mim outras palavras
Que construam um tal vazio imenso
Como som da semente em minhas lavras.

Mas antes devo a mim mesma esgotar
Confessando tudo e o indizível:
Aquilo que não ousei sequer pensar
Pois pertence à alma noutro nível.

Então estarei nua no universo
Explodindo em supernova o ser disperso
Como uma estrela morta em seu colapso.

E ficará de mim só a memória
Pra quem quiser pegar o fio da estória
Como da pobre língua um mero lapso...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Caverna (de Alma Welt)

 
                               A Caverna de Platão - pintura de Maria Tomaselli (200x160cm) 

A Caverna (de Alma Welt)

"Muitas coisas estão claras, afinal.
Viver não chega a ser finalidade
E por isso esse conflito universal
Entre o coletivo e a unidade... "

A quê mesmo te referes, criatura?
Então não vês que não te cabe nem julgar,
E se a obra humana pouco dura
Logo o golem vai o Oleiro criticar?

Continuas desde sempre às cegas,
Tateando pelo meio da caverna
Só para ver se a tua sombra pegas...

Sê humilde, se puderes, por enquanto.
Báh! evites o conflito e a baderna
E escolhe pra morrer, aí, um canto...

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Notas
* logo o golem vai o Oleiro criticar?- Alma faz referência à célebre lenda judaica do Golen: Um rabino querendo imitar Deus cria uma figura de barro e por artes alquímicas confere-lhe vida, criando uma criatura grotesca viva, mas de barro, um monstro...
Com este verso Alma quer dizer que nós humanos somos o golen de Deus, o Supremo Oleiro, e bonecos imperfeitos ousamos criticá-lo...

* tateando pelo meio da caverna - Alma alude ao famoso Mito da Caverna, de Platão, alegoria da condição humana predileta dos psicanalistas...
 

sábado, 21 de dezembro de 2013

O Olho (de Alma Welt)

                                           O Olho - pintura de Guilherme de Faria, 2013

 
O Olho (de Alma Welt)

Há um olho por aí que tudo vê
E vigia nosso oculto pensamento,

Não importa se nele ninguém crê
Pois não é da fé seu argumento.

Me refiro a um olho atento, agudo,
Real como num sonho de vigília
E que é só o companheiro mudo
Que teremos ao longo desta trilha.

Este olho fatal que não nos guia,
Dizem uns que é nossa consciência
Que nos julga depois, à revelia.

Mas do medo é a sua natureza
Por isso não louvamos sua ciência,
E vogamos ao sabor da correnteza...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Pequena Ode ao Tempo (de Alma Welt)

O Maestro  - desenho de Guilherme de Faria, 1965
 
 
Pequena Ode ao Tempo (de Alma Welt)
 
 
Tenhamos reverência pelo Tempo
Já que ele respeita o nosso passo
Tão desigual em meio a contratempo,
Infortúnio ou só mudança de compasso.

Ele é o Senhor, é o Maestro autoritário
Todavia mesmo às vezes paternal,
Conquanto passível de humor vário
E quase sempre inflexível no final...

Sabei, senhores: o Tempo é mesmo Deus
Que o Verbo conjugou, nos complicando,
Ao criar a Nostalgia e o Adeus.

Mas o Presente é Seu fluxo visível,
O Futuro imprevisível retardando
E tornando o Amor, mesmo, possível...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Escrever (de Alma Welt)

                                                  Poeta pobre - Carl Spitzweg 1835

Escrever (de Alma Welt)

Escrever, razão de vida suficiente
Porquanto esta emana da poesia

Já que nunca foi daquela diferente
E, pois, na ausência dela jaz vazia.

Sim, não me posso sem isto imaginar
Pois o Verbo já estava no princípio
E no final nossa vida vai fechar,
Indiferente sejamos santo ou ímpio...

Veja, Sade foi na certa perdoado
E há quem divino repute este Marquês
Difícil de engolir, pois malpassado.

No final restará sempre a Poesia
Que é como se faz, não o quê fez:
Pois nela cabe o que na vida mal cabia...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Destino (de Alma Welt)


Nossa vida faz patético percurso
Até aquela final nota de ironia, 

Das cartas sempre o último recurso
Pra velar sua vocação que é a poesia.

Tenho medo da leitura da cigana,
Conquanto muitas vezes enganosa,
Quando lendo nossa vida nos engana,
Pensa dar gato e dá poesia pela prosa.

Da resposta não temos o tal código
Como um pai não saberá antes da hora
Se pra casa volta o filho pródigo...

Tudo é mistério: estamos às escuras,
Quem mente para a gente jamais cora,
Também não aquela face que procuras...

domingo, 23 de junho de 2013

O Silêncio das Esferas (de Alma Welt)


Eu quis sempre admirar-me de mim mesma,
Isso foi meu escopo ou minha meta.
Versos por mês: ao menos uma resma...
Talvez menos poetisa que pateta.

A quem? Por quê? Pra quê? Mas quem se importa?
O mundo, sempre o mundo, no meu nome,
Tudo a que a memória se reporta,
E que é pra onde vai a nossa fome...

Mas viemos das estrelas encantadas,
Para onde voltaremos certamente,
E vejam como elas são caladas!

O silêncio surdo das esferas,
Distante do rumor da tua mente
Que indaga, perscruta, e te exasperas...

sexta-feira, 22 de março de 2013

Poiesis (de Alma Welt)

Cercada estou dos meus velhos fantasmas
Que me são gratificantes, eu confesso.
Não são eles que povoam minhas asmas
Mas a minha alma, obra em processo.

Pois com eles me ligo a uma corrente
Dos séculos e dos seus grandes segredos
Que guardo no fundo da minha mente
A fim de descobrir o fim dos medos.

Então eu os vazo nos meus versos
Através de um código discreto
Que evita os conceitos controversos.

A pura poiesis é a mensagem,
Ela é o embrião do próprio feto,
A vida está nela e não à margem...

 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Travessia (de Alma Welt)

                                   O ataque ao moinho de vento - Ilustração de Gustave Doré

                                       

A Travessia (de Alma Welt)
 "O mundo é um moinho... " (Cartola) 

Todos nós temos corda onde agarrar,

A vida nos dá sempre uma saída
Que nos evite o risco de abismar
No medo natural da própria vida.

Por certo cada um pega o que pode:
Um amor, uma paixão ou mesmo um vício;
Um poema, um soneto ou uma ode,
Um portal com a cruz no frontispício,

Ou então, o que é pior, com um convite
Para entrar mas deixando a Esperança, *
Última paz que o mundo nos permite... *

Mas pra saíres vivo do moinho,
Não como Don Quixote e Sancho Pança,
Terás que atravessar a ti sozinho...
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domingo, 6 de janeiro de 2013

Sinopse (de Alma Welt)

Os poentes me devolvem a guria
Reverente e humilde finalmente,

E preciso contemplá-los todo dia
Para ter um parâmetro na mente.

Testemunho de Deus em ato puro
Para nós se agraciados pela fé,
Para outros é o sol atrás do muro
Do horizonte como onda de maré.

Mas para mim é o ciclo eterno,
Ou da vida abreviada trajetória
De sua primavera ao seu inverno:

Se morro todo dia também nasço,
Como uma sinopse da estória
Cujo tema é só o Tempo-Espaço...

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Câmara Escura (de Alma Welt)



A Câmara Escura (de Alma Welt)

Há momentos em que nos despedaçamos
Contra as arestas do nosso próprio ser,
Então a duras penas nós juntamos
Nossos cacos num mosaico de viver.

Na imagem interior restam fissuras
Como fossem cicatrizes das batalhas
Que travamos não com outras criaturas
Mas conosco mesmo e nossas falhas.

“Mas então, onde é que entra o mundo
Nessa tua síntese autofágica,
Se consideras só teu ser profundo?”

Na câmara da alma é o contrário:
O mundo é o ser na caixa mágica
Como reflexo invertido num armário...
 
 

domingo, 4 de novembro de 2012

Dualidade (de Alma Welt)


Que imensa dualidade é a Arte!
Resultado da perfeita sintonia

Com a própria alma em harmonia
Com o Cosmo e o Caos, a contraparte.

Pois tudo o que há no Universo
Tem a sua razão, mas o absurdo
Quando existe cai muito bem em verso,
Como a Nona foi feita por um surdo.

Até o Bem e o Mal se complementam
Na estrutura perfeita de uma obra
Pois que na falta de um, poucos agüentam.

Eis então porque consigo ser artista:
Porque a minha alma não me cobra
Ser boa ou ser malvada, senão mista.

domingo, 7 de outubro de 2012

Meu Trem (de Alma Welt)


Ainda espero o trem que chegará
Pontualmente embora não sei quando
Trazendo alguém do Reino de Acolá
Onde o vento faz a curva e vem cantando

 Buscar-me, ele vem, na plataforma
Que é esta minha varanda centenária
Onde estar sentada é minha norma
Sempre a tecer a minha teia solitária

E a contar em sonetos minha saga
Que é a da individualidade
Do ser cuja chama não se apaga

E resta para sempre e mais um dia
Na estação, como eu em tenra idade
A esperar o próprio trem que me trazia...