Que imensa ilusão é a vida nossa
Mormente com o que fazemos dela,
Tão distante da chama de uma vela
Quão da lua refletida numa poça
Que unos nos faziam e mais inteiros,
Como observar nossa animália
E o belo crescimento dos canteiros,
Ciclo vital que pouco ou jamais falha...
Ah! Ambição e os sonhos de grandeza
E mesmo os de amor eternizado
Em cenário duvidoso de beleza!
Riqueza e glamour, quanta inocência!
Nossos nomes nas bocas e aclamado,
Nosso daimon a serviço da demência...
_______________________________________________________________
Nota
* Daimon - Segundo o escritor Nelson Rego o daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna. É a potência para perseguir o que faz falta. Ao mesmo tempo interno e externo, ele é o indivíduo e algo além do indivíduo. Em princípio, nem bom, nem mau – mas, com certeza, forte –, o daimon pode ser a correnteza que leva para qualquer direção. O indivíduo pode ter êxito com esse algo que está além e o habita. E pode também ser esmagado pela força tremenda que ele traz.
Este blog é reservado àquela parcela dos sonetos de Alma Welt que contém suas indagações (e também suas certezas) sobre a Vida, a Morte e o mistério do existir.
A Morte
óleo s/tela de Guilherme de Faria 1967
quinta-feira, 5 de abril de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Teatro de Sombras (de Alma Welt)

Teatro de Sombras (de Alma Welt)
Vou tentando descobrir o teu segredo,
Ó Morte, com as chaves que mal conto:
Razão e raciocínio... engano ledo;
Memória e intuição, avanço um ponto.
No coração, lá seja o que isto for,
Hei de descobrir o que é isso,
Para livrar-me a mim de tanto horror
E aceitar o Nada mesmo, se preciso...
Pois não é provável tanto escuro
Sem luz clara projetada na parede
Em que as sombras distorçam um futuro.
E se ao homem não é dado se saber,
Renego minha carne e minha sede
E já prefiro só na alma me caber...
Nota
...Pois não é provável tanto escuro
Sem luz clara projetada na parede
Em que as sombras distorçam um futuro.
Percebe-se neste terceto uma alusão ao Mito da Caverna, de Platão...
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
O Corpo Imaginário (de Alma Welt)
Sim, nosso corpo é imaginário,
Efêmero ele passa e se dilui
No fluxo contínuo sem horário,
No espaço em que pouco denso flui.
Derretemos como vela em devoção
Sem permanência sequer de boas obras
Nem dos pensamentos a intenção
Ou de nossa astúcia as vis manobras.
Mas a alma, essa sim, tem consistência
Pelo menos duradoura, não fugaz
Do corpo que é só pura aparência.
E assim, em nossa alma confiemos
Pois nela um universo se compraz,
E cabe todo no sonho que vivemos...
Efêmero ele passa e se dilui
No fluxo contínuo sem horário,
No espaço em que pouco denso flui.
Derretemos como vela em devoção
Sem permanência sequer de boas obras
Nem dos pensamentos a intenção
Ou de nossa astúcia as vis manobras.
Mas a alma, essa sim, tem consistência
Pelo menos duradoura, não fugaz
Do corpo que é só pura aparência.
E assim, em nossa alma confiemos
Pois nela um universo se compraz,
E cabe todo no sonho que vivemos...
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Empíreo (de Alma Welt)
A morte é o Mal, eis a verdade,
O próprio Demônio sobre o Mundo;
A ele Deus deixou uma metade
Do seu reino e justo o lado imundo.
Senão, reparem, vejam: treme
A natureza diante da ameaça...
Ao menor perigo grita e geme
E todo dia e só dia de caça.
Por isso entre os gregos só havia
O Hades para todos os mortais,
Embora para poucos outra via:
O Empíreo ou Ilhas Bem-Aventuradas
A que alguns chegavam sem os ais,
Que dos heróis as almas são aladas...
O próprio Demônio sobre o Mundo;
A ele Deus deixou uma metade
Do seu reino e justo o lado imundo.
Senão, reparem, vejam: treme
A natureza diante da ameaça...
Ao menor perigo grita e geme
E todo dia e só dia de caça.
Por isso entre os gregos só havia
O Hades para todos os mortais,
Embora para poucos outra via:
O Empíreo ou Ilhas Bem-Aventuradas
A que alguns chegavam sem os ais,
Que dos heróis as almas são aladas...
domingo, 7 de agosto de 2011

O Eterno Cavaleiro- Lito de grande formato, de Guilherme de Faria, 1975, 47x69cm (versão em sangüíneo)
O Eterno Cavaleiro (Alma Welt)
(sobre uma lito do Guilherme de Faria)
Sob um certo e negro timbre da visão
Se pode ver o Eterno Cavaleiro
Sobre o campo entulhado em confusão
De corpos ceifados, sem celeiro,
Lançados sobre a face do planeta
Em terrível multidão de destroçados
Nem sequer semeados em valeta
Sem a cruz ou crescentes inclinados.
É o Triunfo daquele “miglior fabro” *
Que Deus deixou por conta do terror,
Pelo amor que tem pelo macabro
Que O fez caprichar na estrutura:
Branca ossada risonha ao seu dispor
Por mais tempo do que nossa carne dura...
Nota
* Il miglior fabro" - como Dante Alighieri se referiu ao poeta Guido Cavalcanti, preconizando o Poeta como o Melhor Fazedor ( ou fabricante, de imagens). Quem teorizou sobre isso foi o grande poeta e ensaista de poesia, Ezra Pound.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Soneto do Fim e do Medo (de Alma Welt)
Quando chegar o fim, que sei e espero,
Não me assalte o desamparo e medo,
Mas seja grande encontro com o vero
Que deixa o moribundo mudo e quedo.
Tenho medo do medo, é o que tenho.
O desespero é a grande ameaça,
Que na hora do fogo sob o lenho
Até santo bendizer faz à fumaça.
O Medo e a Dor são quase unos,
Nascidos com minutos de distância
Entre os seus partos importunos.
E esses gêmeos tristes e inquietos
Convivem com a Vida e sua ânsia
De alegria sob o céu e sob os tetos...
08/01/2007
Não me assalte o desamparo e medo,
Mas seja grande encontro com o vero
Que deixa o moribundo mudo e quedo.
Tenho medo do medo, é o que tenho.
O desespero é a grande ameaça,
Que na hora do fogo sob o lenho
Até santo bendizer faz à fumaça.
O Medo e a Dor são quase unos,
Nascidos com minutos de distância
Entre os seus partos importunos.
E esses gêmeos tristes e inquietos
Convivem com a Vida e sua ânsia
De alegria sob o céu e sob os tetos...
08/01/2007
domingo, 12 de junho de 2011
A Assombrada (de Alma Welt)
Alma viva assombrada pela morte,
Com ela tive grande intimidade
Que mudou-me o tom da realidade
E fez a minha vida bem mais forte.
Alto preço a pagar pela Poesia,
Acordar na alta noite em pleno frio
A apertar o peito em agonia
De onde brotam versos como um rio...
Ou então correr para o espelho
Para reintegrar-me em minha imagem
Que quer dissolver-se no vermelho
Do sangue desta vida, ou cabeleira
Que coroa a forma branca de miragem
Que anseia já perder-se na poeira...
Com ela tive grande intimidade
Que mudou-me o tom da realidade
E fez a minha vida bem mais forte.
Alto preço a pagar pela Poesia,
Acordar na alta noite em pleno frio
A apertar o peito em agonia
De onde brotam versos como um rio...
Ou então correr para o espelho
Para reintegrar-me em minha imagem
Que quer dissolver-se no vermelho
Do sangue desta vida, ou cabeleira
Que coroa a forma branca de miragem
Que anseia já perder-se na poeira...
domingo, 15 de maio de 2011
Para entreter as horas ( Alma Welt)
Não arrastei a vida, andei na frente
Com o cabelo e o rosto ao vento
Desbravando viva e bravamente
As horas em seu próximo momento.
Aventura maior do que estar viva
Não há, como estar ao próprio ritmo
Do primeiro e último conviva,
Nosso coração e rei legítimo.
Se me pus a rechear o entremeio
De poemas e sonetos bem rimados,
Para entreter as horas foi um meio
De nublar-me a certeza de morrer
Unindo o prazer aos meus cuidados
De em mim mesma restar, permanecer...
Com o cabelo e o rosto ao vento
Desbravando viva e bravamente
As horas em seu próximo momento.
Aventura maior do que estar viva
Não há, como estar ao próprio ritmo
Do primeiro e último conviva,
Nosso coração e rei legítimo.
Se me pus a rechear o entremeio
De poemas e sonetos bem rimados,
Para entreter as horas foi um meio
De nublar-me a certeza de morrer
Unindo o prazer aos meus cuidados
De em mim mesma restar, permanecer...
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Testamento ( de Alma Welt)
Ao vento não lancei os meus desejos,
Mas em versos ritmados no papel
Para em rimas plasmar os meus ensejos
E os caprichos, tantos, em tropel
Formando com eles as milícias
Dos meus sonhos loucos de poeta,
Não só os dos gozos de delícias
Mas também os místicos, de asceta.
Talvez só seja ingênua aspiração
De restar ao menos no papel
Por mais de uma futura geração...
Para quê? me perguntam amiúde
Os que apostam da matéria a finitude
E descrentes acreditam só no céu...
15/01/2007
Mas em versos ritmados no papel
Para em rimas plasmar os meus ensejos
E os caprichos, tantos, em tropel
Formando com eles as milícias
Dos meus sonhos loucos de poeta,
Não só os dos gozos de delícias
Mas também os místicos, de asceta.
Talvez só seja ingênua aspiração
De restar ao menos no papel
Por mais de uma futura geração...
Para quê? me perguntam amiúde
Os que apostam da matéria a finitude
E descrentes acreditam só no céu...
15/01/2007
sexta-feira, 18 de março de 2011
O fantasma dos sonetos (de Alma Welt)
Permanecer viva em meu escrito...
Eis a esperança que ainda guardo,
E sendo isso o derradeiro Mito
Que me mantém acesa, com que ardo.
Um soneto mais, que insensatez!
Não posso parar, devo ir em frente.
Acabar é dar o sim ao pretendente
Que hospedado espera a sua vez.
Toda a minha vida entretecida,
Concentrada afinal em tipos pretos
A me fazer mais íntegra e assumida!
Já mal existo fora de um poema,
E sou mais e mais nestes tercetos,
Eu, fantasma vivo, que ainda teima...
Eis a esperança que ainda guardo,
E sendo isso o derradeiro Mito
Que me mantém acesa, com que ardo.
Um soneto mais, que insensatez!
Não posso parar, devo ir em frente.
Acabar é dar o sim ao pretendente
Que hospedado espera a sua vez.
Toda a minha vida entretecida,
Concentrada afinal em tipos pretos
A me fazer mais íntegra e assumida!
Já mal existo fora de um poema,
E sou mais e mais nestes tercetos,
Eu, fantasma vivo, que ainda teima...
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Sonetos como um pássaro (de Alma Welt)
Sonetos como um pássaro (de Alma Welt)
Criar sonetos como um pássaro
Que canta por cantar e abrir o bico
Ou porque tendo já descido ao tártaro
Subiste e sem culpa nem um tico.
E então ao leitor lembrar Camões
Sem poderem dizer que o imitas
Pela forma pouco lusa que compões
Ou pelos dois olhos com que fitas
A tua realidade que é só tua
Sendo outrossim de toda gente
Que persegue a palavra que flutua
Ao léu, por aí, no espelho astral
Onde o mundo então seja diferente
Mas nunca invertidos bem e mal...
(sem data)
Criar sonetos como um pássaro
Que canta por cantar e abrir o bico
Ou porque tendo já descido ao tártaro
Subiste e sem culpa nem um tico.
E então ao leitor lembrar Camões
Sem poderem dizer que o imitas
Pela forma pouco lusa que compões
Ou pelos dois olhos com que fitas
A tua realidade que é só tua
Sendo outrossim de toda gente
Que persegue a palavra que flutua
Ao léu, por aí, no espelho astral
Onde o mundo então seja diferente
Mas nunca invertidos bem e mal...
(sem data)
sábado, 8 de janeiro de 2011
Cosmogonia (de Alma Welt)
A força e lei maior que tudo une
É a da Gravitação Universal.
Ela é Deus e o Amor que nos reúne
E também cria o habitat natural
Onde prosseguimos procurando
O que está em nós, o mesmo Amor,
Que ao buscar fora de nós criamos dor
Que também vai se aglutinando
Num anti-universo que é o Horror
Que gera anti-matéria, que é o Mal,
Se insistirmos em juízo de valor.
Mas para entender esse imbróglio,
Caminhando sob o grande Festival,
Minhas estrelas simplesmente olho...
É a da Gravitação Universal.
Ela é Deus e o Amor que nos reúne
E também cria o habitat natural
Onde prosseguimos procurando
O que está em nós, o mesmo Amor,
Que ao buscar fora de nós criamos dor
Que também vai se aglutinando
Num anti-universo que é o Horror
Que gera anti-matéria, que é o Mal,
Se insistirmos em juízo de valor.
Mas para entender esse imbróglio,
Caminhando sob o grande Festival,
Minhas estrelas simplesmente olho...
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Titã (de Alma Welt)
Creio o homem ser maravilhoso
Em seu funcionamento tão complexo.
Nem me refiro só ao amor e o sexo
Mas ao nosso cérebro espantoso.
Não me venha então com a coisa vã
De visões negativas, derrisórias;
O homem em si mesmo é um Titã,
Só civilizações são provisórias.
Afinal somos feitos das estrelas,
A ciência o provou e é verdade,
E até nos caberá também fazê-las.
E me espanta que o Bardo já sabia
Quando o colocou na Tempestade,
Como no próprio cerne da Poesia...
Em seu funcionamento tão complexo.
Nem me refiro só ao amor e o sexo
Mas ao nosso cérebro espantoso.
Não me venha então com a coisa vã
De visões negativas, derrisórias;
O homem em si mesmo é um Titã,
Só civilizações são provisórias.
Afinal somos feitos das estrelas,
A ciência o provou e é verdade,
E até nos caberá também fazê-las.
E me espanta que o Bardo já sabia
Quando o colocou na Tempestade,
Como no próprio cerne da Poesia...
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Veronica’s Veil (de Alma Welt)
Plasmar-me vero ícone em poesia
Foi pra mim verdade e confissão,
Pois jamais em falsidade conseguia
Resistir ao linguajar do coração.
Não há como mentir ou falsear
Tua verdadeira face ao mundo
Se tiveres alma e palma que rimar
E chegar do coração ao poço fundo.
Pois se fores falso nem atinges
O que se denomina de poema,
O lenço que com más tinturas tinges...
Quais cabelos as raízes mostrarão
A cor de uma velhice que se tema:
As mais feias rugas de expressão...
(sem data)
Foi pra mim verdade e confissão,
Pois jamais em falsidade conseguia
Resistir ao linguajar do coração.
Não há como mentir ou falsear
Tua verdadeira face ao mundo
Se tiveres alma e palma que rimar
E chegar do coração ao poço fundo.
Pois se fores falso nem atinges
O que se denomina de poema,
O lenço que com más tinturas tinges...
Quais cabelos as raízes mostrarão
A cor de uma velhice que se tema:
As mais feias rugas de expressão...
(sem data)
sábado, 1 de janeiro de 2011
Balanço dos sonetos (de Alma Welt)
Só sei que em vão na vida não passei,
Deixando a minha alma por aí...
Que em milhares de sonetos registrei
Cada forte ou vão momento que vivi.
Pensando bem, não foram vãos momentos,
E não por serem fortes de lembrar
Mas pelo aval do olhar, não sentimentos,
Que estes mesmos só costumam enganar.
Sentimentos jamais, não, nem pensar!
Os bons versos não são sentimentos,
Mas deverei pagar a conta de rimar,
Já que esse entre os vícios de poeta
Deu aos meus versos ao menos linha reta
Antes de se dispersarem pelos ventos...
(sem data)
Deixando a minha alma por aí...
Que em milhares de sonetos registrei
Cada forte ou vão momento que vivi.
Pensando bem, não foram vãos momentos,
E não por serem fortes de lembrar
Mas pelo aval do olhar, não sentimentos,
Que estes mesmos só costumam enganar.
Sentimentos jamais, não, nem pensar!
Os bons versos não são sentimentos,
Mas deverei pagar a conta de rimar,
Já que esse entre os vícios de poeta
Deu aos meus versos ao menos linha reta
Antes de se dispersarem pelos ventos...
(sem data)
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
A Jornada ( de Alma Welt)
A quem agradecer tanta beleza?
A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura,
Ou ao Tempo que a todos nos matura
Pra ceifar-nos logo, com crueza?
Acabamos de aprender alguma cousa,
E depois de tantos erros e erratas
Estamos aptos a escrever na lousa,
Que afinal será um nome e duas datas.
Mas se a vida foi bem desfrutada
E co’a sabedoria estamos quites
Pelo menos já fruímos a jornada
Que terá sido tão bela de se ver...
E a verdade é a beleza, disse Keats, *
Era tudo o que havia pra saber.
06/11/2006
A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura,
Ou ao Tempo que a todos nos matura
Pra ceifar-nos logo, com crueza?
Acabamos de aprender alguma cousa,
E depois de tantos erros e erratas
Estamos aptos a escrever na lousa,
Que afinal será um nome e duas datas.
Mas se a vida foi bem desfrutada
E co’a sabedoria estamos quites
Pelo menos já fruímos a jornada
Que terá sido tão bela de se ver...
E a verdade é a beleza, disse Keats, *
Era tudo o que havia pra saber.
06/11/2006
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
O Armário (de Alma Welt)
Tanta poesia no mundo a nos cercar!
Quem ousará dizer que tudo é mau?
Haja alma para tanto assimilar
E haja coração pra tanto sal
Da Vida, da Poesia, da Beleza
Que mesmo o próprio homem recriou
Além da que restou por gentileza
De Deus quando ralhando nos deixou
E se retirou pro firmamento
Onde permanece até o momento
De vir suspender nosso castigo
Que é da alma o armário escuro e fero
Onde eu com minha letra mal consigo
Escrever o meu poema enquanto espero...
(sem data)
Quem ousará dizer que tudo é mau?
Haja alma para tanto assimilar
E haja coração pra tanto sal
Da Vida, da Poesia, da Beleza
Que mesmo o próprio homem recriou
Além da que restou por gentileza
De Deus quando ralhando nos deixou
E se retirou pro firmamento
Onde permanece até o momento
De vir suspender nosso castigo
Que é da alma o armário escuro e fero
Onde eu com minha letra mal consigo
Escrever o meu poema enquanto espero...
(sem data)
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Quem sou, de onde vim... ( de Alma Welt)
Quão perto estou de entender tudo!
Quem sou, de onde vim, vou para onde...
Acreditem-me, eu creio e não me iludo,
É algo que ao olhar se nos esconde
Mas que mora dentro de nós mesmos;
Algo que está conosco sob um teto,
Que a Poesia co’ele lida em outros termos
Como um culto iniciático e secreto
Em que remexe as vísceras de um bode
Como outrora os gregos e romanos
(que o ser humano procura como pode)...
Bah! Falando em vão de tudo isso,
Chego a conclusão que há muitos anos
Habito um caos secreto e insubmisso...
(sem data)
Quem sou, de onde vim, vou para onde...
Acreditem-me, eu creio e não me iludo,
É algo que ao olhar se nos esconde
Mas que mora dentro de nós mesmos;
Algo que está conosco sob um teto,
Que a Poesia co’ele lida em outros termos
Como um culto iniciático e secreto
Em que remexe as vísceras de um bode
Como outrora os gregos e romanos
(que o ser humano procura como pode)...
Bah! Falando em vão de tudo isso,
Chego a conclusão que há muitos anos
Habito um caos secreto e insubmisso...
(sem data)
sábado, 18 de dezembro de 2010
Metamor (de Alma Welt)
Não mais me importar com ser amada...
Quem me dera chegar a tal momento
E viver em plenitude e alheamento
O Ser do ser, e amar sem sentir nada!
Sim, como se Amor o corpo fosse
No gesto simples de doar e de colher
Como as flores se dão ao nosso ser,
Só muda fragrância, seca ou doce...
Nada de palavras, nem poemas
E muito menos os dúbios sentimentos
Tão cheios de equívocos, esquemas...
Sem coração que quer reter, capturar,
A aura intangível dos momentos
Inefáveis, que podemos só lembrar...
18/09/2006
Quem me dera chegar a tal momento
E viver em plenitude e alheamento
O Ser do ser, e amar sem sentir nada!
Sim, como se Amor o corpo fosse
No gesto simples de doar e de colher
Como as flores se dão ao nosso ser,
Só muda fragrância, seca ou doce...
Nada de palavras, nem poemas
E muito menos os dúbios sentimentos
Tão cheios de equívocos, esquemas...
Sem coração que quer reter, capturar,
A aura intangível dos momentos
Inefáveis, que podemos só lembrar...
18/09/2006
sábado, 27 de novembro de 2010
Canção do Amor Louco (Alma Welt)
Também hei de cantar o louco amor,
E desde logo consultei o coração
Para saber se atingi um tal teor
Que me mereça cantar sua canção.
Que não ouse aquele que amou pouco
Ou fez do amor barganha ou possessão
Tentar ser porta voz de um amor louco
E alheio a meios tons e à concessão.
Amor move as estrelas disse Dante
Que sabia do amor em sua fonte,
Embora nem amado e nem amante,
Mas amou tanto que chegou até a luz
Que é da Divindade a própria ponte
Que leva ao louco Amor que nos conduz...
(sem data)
E desde logo consultei o coração
Para saber se atingi um tal teor
Que me mereça cantar sua canção.
Que não ouse aquele que amou pouco
Ou fez do amor barganha ou possessão
Tentar ser porta voz de um amor louco
E alheio a meios tons e à concessão.
Amor move as estrelas disse Dante
Que sabia do amor em sua fonte,
Embora nem amado e nem amante,
Mas amou tanto que chegou até a luz
Que é da Divindade a própria ponte
Que leva ao louco Amor que nos conduz...
(sem data)
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O interdito (de Alma Welt)
Este senso de beleza que ganhamos
De Deus, em nossa própria natureza,
É o melhor de nós, que desfrutamos
Do paraíso, não perdido, com certeza,
Se jaz em nossa alma assimilado
E posso recompô-lo a cada passo
Quando estou a vagar pelo meu prado,
Diária romaria que ainda faço...
E vejo que está completa a vida,
Não perdemos nada, isso me intriga,
A expulsão nos foi só advertida
Como falsa reprimenda, só um pito
Diante do mistério do interdito
Contra o qual Deus mesmo nos instiga...
(sem data)
De Deus, em nossa própria natureza,
É o melhor de nós, que desfrutamos
Do paraíso, não perdido, com certeza,
Se jaz em nossa alma assimilado
E posso recompô-lo a cada passo
Quando estou a vagar pelo meu prado,
Diária romaria que ainda faço...
E vejo que está completa a vida,
Não perdemos nada, isso me intriga,
A expulsão nos foi só advertida
Como falsa reprimenda, só um pito
Diante do mistério do interdito
Contra o qual Deus mesmo nos instiga...
(sem data)
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
O Eterno Retorno (VI) (de Alma Welt)
Às vezes ser mais simples eu quisera,
E viver sem questionar o tempo e o ser,
A razão de se viver e essa quimera
Que nos exige trabalhar para viver,
E buscar ser feliz a todo custo,
Mesmo contra a nossa própria mente
A recordar a dor, o medo e o susto
De ver tudo perdido de repente...
Mas perdido o quê, além da vida,
Que pelo que se espera lá no fim
Infelizmente já é coisa resolvida?
Talvez viver seja somente procurar
Voltar ao par que fomos no jardim,
Bem antes deste mundo começar...
(sem data)
E viver sem questionar o tempo e o ser,
A razão de se viver e essa quimera
Que nos exige trabalhar para viver,
E buscar ser feliz a todo custo,
Mesmo contra a nossa própria mente
A recordar a dor, o medo e o susto
De ver tudo perdido de repente...
Mas perdido o quê, além da vida,
Que pelo que se espera lá no fim
Infelizmente já é coisa resolvida?
Talvez viver seja somente procurar
Voltar ao par que fomos no jardim,
Bem antes deste mundo começar...
(sem data)
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Il Carnevale (de Alma Welt)

Il Carnevale (de Alma Welt)
A vida é sofrimento, a morte é mais.
Prazer e dor, o resto é veleidade...
Vivemos nossos sonhos mais reais
Entre um e outro sonho de verdade,
Que são os que vêem de outro plano
Que de tão vasto e ignoto me consola
Por saber que esta vida é um engano
E o Sonho é maior, e não esmola
Pelos tormentos da vida neste vale
De sombras que bailam delirantes
Já que isto é mesmo “il Carnevale”
De uma louca Veneza atemporal
De gestos estudados e arrogantes,
Sob as neutras máscaras de cal...
(sem data)
sábado, 2 de outubro de 2010
A Alma do poema (de Alma Welt)
Já tudo é só poesia para mim,
E o poema não é algo destacado
Do viver, do ser, ou algo assim,
O justo sentido experimentado...
Mal posso conceber que uns não vejam
O mundo revelado como vejo,
E as coisas veladas mesmo estejam
Para alguns olhos eivados de desejo,
Que deveria ser motivo suficiente
Assim como o amor, para a poesia
Apresentar-se assim a toda gente.
Mas percebo afinal, e meio triste,
Que a alma do poema renuncia
A preencher um vazio que resiste...
(sem data)
E o poema não é algo destacado
Do viver, do ser, ou algo assim,
O justo sentido experimentado...
Mal posso conceber que uns não vejam
O mundo revelado como vejo,
E as coisas veladas mesmo estejam
Para alguns olhos eivados de desejo,
Que deveria ser motivo suficiente
Assim como o amor, para a poesia
Apresentar-se assim a toda gente.
Mas percebo afinal, e meio triste,
Que a alma do poema renuncia
A preencher um vazio que resiste...
(sem data)
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
A linguagem das coisas (de Alma Welt)
As coisas todas falam de algum modo
A linguagem do indizível e inaudito
Dentro do silêncio com que rodo
Os olhos ao redor ou com que fito
Para encontrar o elo que as liga
Nesse imenso discurso natural
Livre da malícia e da intriga,
Do tal pecado isenta e do mal
Ausente do espaço entre os astros
Que mal podemos conceber em anos-luz
Pois que temos contados nossos passos
Com nossa pequenez esbravejante
E toda essa empáfia que a conduz
A carregar o mundo qual atlante...
A linguagem do indizível e inaudito
Dentro do silêncio com que rodo
Os olhos ao redor ou com que fito
Para encontrar o elo que as liga
Nesse imenso discurso natural
Livre da malícia e da intriga,
Do tal pecado isenta e do mal
Ausente do espaço entre os astros
Que mal podemos conceber em anos-luz
Pois que temos contados nossos passos
Com nossa pequenez esbravejante
E toda essa empáfia que a conduz
A carregar o mundo qual atlante...
O pó e a luz (de Alma Welt)
O pó tem sua essência revelada
Quando dança na luz filtrada em frestas.
Para o grego era a alma figurada
Que nos cobre o mundo e as arestas.
É um consolo saber que tudo vive,
O mistério preenche-lhe o vazio,
E o nada, pavor que sempre tive,
Seria a razão mesma do que crio...
Pois saber quão pouco conhecemos
Nos dá esperança de sentido
Nesta vida às cegas que vivemos.
Assim, é bem possível vida eterna
E até um paraíso prometido
Na pequenina luz de uma lanterna...
04/12/2005
Quando dança na luz filtrada em frestas.
Para o grego era a alma figurada
Que nos cobre o mundo e as arestas.
É um consolo saber que tudo vive,
O mistério preenche-lhe o vazio,
E o nada, pavor que sempre tive,
Seria a razão mesma do que crio...
Pois saber quão pouco conhecemos
Nos dá esperança de sentido
Nesta vida às cegas que vivemos.
Assim, é bem possível vida eterna
E até um paraíso prometido
Na pequenina luz de uma lanterna...
04/12/2005
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A Lição de Hesse (de Alma Welt)
Viver no mundo, como nele não estar;
Respeitar a lei e os costumes
Conquanto bem acima se alçar
E ter só nos artistas os meus numes...
Foi isso que aprendi com Hermann Hesse,
Mas não só os escritores o ensinam.
Também, é preciso que eu confesse,
Os que uma má pintura não assinam.
Assim, criar acima do viver,
Mas não esquecendo que o humor
É a suprema criação do humano ser,
Que o artista tem quando é fecundo,
Uma concessão feita de amor,
E consiste num fingir estar no mundo...
(sem data)
Respeitar a lei e os costumes
Conquanto bem acima se alçar
E ter só nos artistas os meus numes...
Foi isso que aprendi com Hermann Hesse,
Mas não só os escritores o ensinam.
Também, é preciso que eu confesse,
Os que uma má pintura não assinam.
Assim, criar acima do viver,
Mas não esquecendo que o humor
É a suprema criação do humano ser,
Que o artista tem quando é fecundo,
Uma concessão feita de amor,
E consiste num fingir estar no mundo...
(sem data)
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O cristal do poema (de Alma Welt)
Sabemos que o poeta não tem fim
E fica vicejando eternamente,
Não porque não morra ou coisa assim,
Mas porque o que lança é a semente.
Pois o poema em si morre e se refaz
No pensamento vivo que o defronta,
Como uma alma que não tendo paz
Volta porque ainda não está pronta.
Assombrados então pelo poema
Convivemos com mundos perdidos
De palavras e seu pródigo sistema
De trazer-nos o espelho das idades
Pra que possamos ver-nos refletidos
No cristal terrível das verdades...
(sem data)
E fica vicejando eternamente,
Não porque não morra ou coisa assim,
Mas porque o que lança é a semente.
Pois o poema em si morre e se refaz
No pensamento vivo que o defronta,
Como uma alma que não tendo paz
Volta porque ainda não está pronta.
Assombrados então pelo poema
Convivemos com mundos perdidos
De palavras e seu pródigo sistema
De trazer-nos o espelho das idades
Pra que possamos ver-nos refletidos
No cristal terrível das verdades...
(sem data)
terça-feira, 7 de setembro de 2010
O Propósito (de Alma Welt)
Meu propósito não é senão poesia
E nada mais desejo senão isso:
Tornar-me o que cedo eu antevia,
A palavra e seu grande compromisso
Através de uma vida de labor,
Polindo em filigrana o verso fino
Para corresponder em forma e cor
A um alto modelo mais divino.
Passar a caravana enquanto latem
Ou mesmo dedicar-me às firulas
Enquanto os mil aflitos se debatem
Não é bem o que faço, com certeza.
Se assim pensas que vivo, tu me anulas,
Creio buscar, senão a luz, uma clareza...
(sem data)
E nada mais desejo senão isso:
Tornar-me o que cedo eu antevia,
A palavra e seu grande compromisso
Através de uma vida de labor,
Polindo em filigrana o verso fino
Para corresponder em forma e cor
A um alto modelo mais divino.
Passar a caravana enquanto latem
Ou mesmo dedicar-me às firulas
Enquanto os mil aflitos se debatem
Não é bem o que faço, com certeza.
Se assim pensas que vivo, tu me anulas,
Creio buscar, senão a luz, uma clareza...
(sem data)
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
A Linguagem de Deus (Alma Welt)
Estar com o poema, em sintonia,
Que existe palpitando sob tudo,
Que tudo é matéria de Poesia,
Que nada é opaco, inerte ou mudo...
Aos olhos do Poeta sob o céu
As coisas falam ainda, e o coração,
A linguagem primeva de Babel,
Aquela mesma anterior à confusão.
Eis a nossa sedução de filhos pródigos
Que buscam o pai malgrado os danos
Causados às terras e aos códigos!..
Nos recompomos na língua verdadeira,
(que Deus deixou um rabo da primeira)
Pr’ Ele mesmo entender o que falamos.
10/01/2007
Que existe palpitando sob tudo,
Que tudo é matéria de Poesia,
Que nada é opaco, inerte ou mudo...
Aos olhos do Poeta sob o céu
As coisas falam ainda, e o coração,
A linguagem primeva de Babel,
Aquela mesma anterior à confusão.
Eis a nossa sedução de filhos pródigos
Que buscam o pai malgrado os danos
Causados às terras e aos códigos!..
Nos recompomos na língua verdadeira,
(que Deus deixou um rabo da primeira)
Pr’ Ele mesmo entender o que falamos.
10/01/2007
sábado, 4 de setembro de 2010
A Poetisa (de Alma Welt)
Então vede como a Poetisa nasce!
Seu estro do Nada não brotou,
Mergulhada que tem a sua face
Na Alma do Mundo que espelhou.
Ela sou eu, tu és e somos nós...
Sua alma está em nós disseminada,
Tanto mais que paga o preço atroz
De ter a sua existência duvidada.
Mas ao debruçar-se sobre o verso
Nas horas de prazer ou de agonia
Descobriu seu consolo no adverso...
Pois se muito sofre quem amou,
Mais beleza planta quem a cria
E torna-se ela própria o que criou...
(sem data)
Seu estro do Nada não brotou,
Mergulhada que tem a sua face
Na Alma do Mundo que espelhou.
Ela sou eu, tu és e somos nós...
Sua alma está em nós disseminada,
Tanto mais que paga o preço atroz
De ter a sua existência duvidada.
Mas ao debruçar-se sobre o verso
Nas horas de prazer ou de agonia
Descobriu seu consolo no adverso...
Pois se muito sofre quem amou,
Mais beleza planta quem a cria
E torna-se ela própria o que criou...
(sem data)
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Testemunho (de Alma Welt)
Dar o testemunho meu de vida,
A mim mesma parecia pretensão
Conquanto já estivesse resolvida
A registrar cada passo neste chão.
E cada pensamento ou devaneio
Deveria fixar como sagrado
E nada me seria então alheio
E eu seria tudo o que é pensado.
Pois ser é infinito, sem limite
Se podemos o todo em tudo ver
E o inefável apresenta seu convite...
A beleza de tudo é coisa séria
Quando libertamos nosso ser
Do próprio desprezo da matéria...
A mim mesma parecia pretensão
Conquanto já estivesse resolvida
A registrar cada passo neste chão.
E cada pensamento ou devaneio
Deveria fixar como sagrado
E nada me seria então alheio
E eu seria tudo o que é pensado.
Pois ser é infinito, sem limite
Se podemos o todo em tudo ver
E o inefável apresenta seu convite...
A beleza de tudo é coisa séria
Quando libertamos nosso ser
Do próprio desprezo da matéria...
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
A Recriação de Lilith (de Alma Welt)
Consta que um mago da Judéia,
Que era um alquimista disfarçado,
Conseguiu recriar ante a platéia
O Ser Primeiro, belo e rejeitado,
A primordial mulher do pobre Adão,
Lilith, que por ter sopro divino
Entrava com o macho em colisão,
Mas já com a sedução do feminino.
E Adão que já era um bom covarde
Queixou-se ao senhor, de sua consorte,
Que afinal o acudiu um pouco tarde
Pois o homem ainda tenta recriá-la
Pois seu fascínio Eva não iguala
Mesmo que seja Vida, e ela... a Morte.
E mais este:
Que era um alquimista disfarçado,
Conseguiu recriar ante a platéia
O Ser Primeiro, belo e rejeitado,
A primordial mulher do pobre Adão,
Lilith, que por ter sopro divino
Entrava com o macho em colisão,
Mas já com a sedução do feminino.
E Adão que já era um bom covarde
Queixou-se ao senhor, de sua consorte,
Que afinal o acudiu um pouco tarde
Pois o homem ainda tenta recriá-la
Pois seu fascínio Eva não iguala
Mesmo que seja Vida, e ela... a Morte.
E mais este:
Confusão (de Alma Welt)
De muito longe no tempo vem minh’alma,
Assim como as mais puras dentre vós
Que recordamos a raiz do nosso trauma
Co’a confusão lingüística da voz...
Mas Deus alternativa oferecia
Além do aprendizado desses códigos:
O dom maior da Música e Poesia
E da boa acolhida aos filhos pródigos.
Desculpai-me a confusão, por minha vez,
Que muitos acham só insensatez
Eu assim misturar temas e conceitos.
Mas creio estar tudo interligado,
E o Retorno ao Paraíso, programado,
A charrua abandonando e nossos eitos.
(sem data)
Assim como as mais puras dentre vós
Que recordamos a raiz do nosso trauma
Co’a confusão lingüística da voz...
Mas Deus alternativa oferecia
Além do aprendizado desses códigos:
O dom maior da Música e Poesia
E da boa acolhida aos filhos pródigos.
Desculpai-me a confusão, por minha vez,
Que muitos acham só insensatez
Eu assim misturar temas e conceitos.
Mas creio estar tudo interligado,
E o Retorno ao Paraíso, programado,
A charrua abandonando e nossos eitos.
(sem data)
terça-feira, 13 de julho de 2010
Ainda o Poeta (de Alma Welt)
Observo as crianças nos seus jogos,
Lindas, a correr pelo jardim,
A brincar como o poeta com o Logos,
Qual se fora correto e sábio fim.
Tudo é infantil, e o esquecemos...
Levamo-nos a sério, a ferro e fogo;
Nos esfalfamos tanto e queremos
Com esforços ou só com prece e rogo.
Mas ao poeta cabe ser só o vigia
No farol, desarmado sentinela,
Ou curioso que tão somente espia.
E se tiver que tomar parte na loucura
Que seja para pôr mel e canela
Nesse confuso caldo de amargura...
(sem data)
Lindas, a correr pelo jardim,
A brincar como o poeta com o Logos,
Qual se fora correto e sábio fim.
Tudo é infantil, e o esquecemos...
Levamo-nos a sério, a ferro e fogo;
Nos esfalfamos tanto e queremos
Com esforços ou só com prece e rogo.
Mas ao poeta cabe ser só o vigia
No farol, desarmado sentinela,
Ou curioso que tão somente espia.
E se tiver que tomar parte na loucura
Que seja para pôr mel e canela
Nesse confuso caldo de amargura...
(sem data)
sexta-feira, 9 de julho de 2010
O Eterno Retorno (IV) (de Alma Welt)
Construo a cada dia minha jornada
De sonhos e verdades para mim,
Mas como a mais urgente empreitada
De quem sabe que a vida tem um fim,
Mas também finalidade: crescimento
E construção de um berço de acalanto
Pra de mim mesma o próximo rebento
Que levará a tocha do meu canto...
Pois Alma sou, do Mundo, e já sabia
Que a mim devo sempre recordar
Que ao humano cabe ser luz e Poesia.
E assim voltar poeta neste mundo,
O mesmo, mas um pouco mais profundo,
Para, um dia, ao Lar Primeiro regressar...
(sem data)
De sonhos e verdades para mim,
Mas como a mais urgente empreitada
De quem sabe que a vida tem um fim,
Mas também finalidade: crescimento
E construção de um berço de acalanto
Pra de mim mesma o próximo rebento
Que levará a tocha do meu canto...
Pois Alma sou, do Mundo, e já sabia
Que a mim devo sempre recordar
Que ao humano cabe ser luz e Poesia.
E assim voltar poeta neste mundo,
O mesmo, mas um pouco mais profundo,
Para, um dia, ao Lar Primeiro regressar...
(sem data)
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Reflexão (de Alma Welt)
Quão dúbia é a nossa humanidade,
Mormente no que tange à alegria
Que tanto almeja a eternidade
Quanto dessa rota nos desvia!
Perdida nos meandros do nadir,
Às voltas com um rol de ninharia,
Em nome de hipotético porvir
Como se fim e morte não havia...
O passado, rico em seu resíduo,
E a memória, sua vocação eterna,
São o lastro-ouro do indivíduo,
Mas só a Poesia ainda elucida
O teatro de sombras da caverna
Cujo elenco tememos na saída...
(sem data)
Mormente no que tange à alegria
Que tanto almeja a eternidade
Quanto dessa rota nos desvia!
Perdida nos meandros do nadir,
Às voltas com um rol de ninharia,
Em nome de hipotético porvir
Como se fim e morte não havia...
O passado, rico em seu resíduo,
E a memória, sua vocação eterna,
São o lastro-ouro do indivíduo,
Mas só a Poesia ainda elucida
O teatro de sombras da caverna
Cujo elenco tememos na saída...
(sem data)
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Alma Frankenstein (de Alma Welt)
Que posso eu, vã poeta deste Pampa
Fazer em relação ao triste Mundo,
Que é o lado sombrio que destampa
A caixa de Pandora que é, no fundo?
O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,
Num tempo que perdemos por maldade;
O abismo que cavamos, mal juízo
Que fizemos de nossa deidade...
Querer mais... da humanidade a maldição,
Fagulha a nós legada por aquele
Prometeu, de quem somos a metade.
Qual Frankenstein, somos filhos da Razão
Que nos deu a solidão, a mesma dele,
Desterrado de toda sociedade...
16/12/2006
Fazer em relação ao triste Mundo,
Que é o lado sombrio que destampa
A caixa de Pandora que é, no fundo?
O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,
Num tempo que perdemos por maldade;
O abismo que cavamos, mal juízo
Que fizemos de nossa deidade...
Querer mais... da humanidade a maldição,
Fagulha a nós legada por aquele
Prometeu, de quem somos a metade.
Qual Frankenstein, somos filhos da Razão
Que nos deu a solidão, a mesma dele,
Desterrado de toda sociedade...
16/12/2006
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Nichos e fronteiras (De Alma Welt)
Escrever para um leitor imaginário,
Reverente, disponível, apaixonado,
É a ilusão do poeta em seu contrário:
O ser nele socialmente motivado...
Pois o campo do poeta é a solidão,
Espaço de angústias indizíveis,
De um vago vagar na vastidão
Eivada de sombras e desníveis,
Espectros a se esgueirar furtivos
Que fazem sinais pra que os sigamos
Aos nichos profundos do que amamos,
E a uma outra fronteira perigosa
Onde cessa sua poesia e sua prosa,
Limite da razão e dos motivos...
(sem data)
Reverente, disponível, apaixonado,
É a ilusão do poeta em seu contrário:
O ser nele socialmente motivado...
Pois o campo do poeta é a solidão,
Espaço de angústias indizíveis,
De um vago vagar na vastidão
Eivada de sombras e desníveis,
Espectros a se esgueirar furtivos
Que fazem sinais pra que os sigamos
Aos nichos profundos do que amamos,
E a uma outra fronteira perigosa
Onde cessa sua poesia e sua prosa,
Limite da razão e dos motivos...
(sem data)
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Revelando tudo (de Alma Welt)
Revelando tudo aos meus leitores
Construo o meu mistério humano,
Pois aquilo que se esconde não tem cores
Pelo menos nesta vida ou neste plano
Como os gatos na noite, todos pardos,
Que são furtivas sombras de delírios
De mente mais afeita aos duros cardos,
E à alvura avessa, como aos lírios...
Não que eu rejeite névoas, meios-tons,
E a sutil mensagem de entrelinhas
Que é prerrogativa de alguns bons...
Mas se foste firme, com inteireza,
Quem ousará cobrar mais do que tinhas
Se desnuda ofereceste tua beleza ?
15/07/2006
Construo o meu mistério humano,
Pois aquilo que se esconde não tem cores
Pelo menos nesta vida ou neste plano
Como os gatos na noite, todos pardos,
Que são furtivas sombras de delírios
De mente mais afeita aos duros cardos,
E à alvura avessa, como aos lírios...
Não que eu rejeite névoas, meios-tons,
E a sutil mensagem de entrelinhas
Que é prerrogativa de alguns bons...
Mas se foste firme, com inteireza,
Quem ousará cobrar mais do que tinhas
Se desnuda ofereceste tua beleza ?
15/07/2006
sábado, 8 de maio de 2010
Alef (de Alma Welt)
E me vi num espaço de alforria
Onde antes corria aquele vento
Ou rio do meu próprio pensamento,
Que há tempos a Morte perseguia.
E eis que o Tempo cessa por encanto
E me sinto de repente em plenitude
No cenário da minha juventude,
E dessa memória guardo o espanto.
Quão belo é o hiato que me acalma
E faz ver o equilíbrio delicado
A que o homem precisa dar a palma!
Essa zona de silêncio em meio ao prado
É um Alef sublime, e tudo é uno:
A alma e seu amor, o fogo e o fumo...
(sem data)
Onde antes corria aquele vento
Ou rio do meu próprio pensamento,
Que há tempos a Morte perseguia.
E eis que o Tempo cessa por encanto
E me sinto de repente em plenitude
No cenário da minha juventude,
E dessa memória guardo o espanto.
Quão belo é o hiato que me acalma
E faz ver o equilíbrio delicado
A que o homem precisa dar a palma!
Essa zona de silêncio em meio ao prado
É um Alef sublime, e tudo é uno:
A alma e seu amor, o fogo e o fumo...
(sem data)
sexta-feira, 23 de abril de 2010
A Chave (de Alma Welt)
Prenda igual às outras nunca fui,
Pois a Arte foi minha prioridade
Desde que, ao piano, em tenra idade,
Ouvi meu pai num tema que evolui
Em seqüência ou num moto perpétuo,
E vendo que aquilo era um inseto
Besouro ou abelha, tal e qual
Eu ouvia na coxilha ou no quintal.
E pareceu-me a chave do viver
Verter em melodia os sons da vida,
Que a palavra também podia ter.
Desde então eu persigo a tradução
De tudo ao meu redor com a intenção
De ver no mundo minha face refletida.
(sem data)
Pois a Arte foi minha prioridade
Desde que, ao piano, em tenra idade,
Ouvi meu pai num tema que evolui
Em seqüência ou num moto perpétuo,
E vendo que aquilo era um inseto
Besouro ou abelha, tal e qual
Eu ouvia na coxilha ou no quintal.
E pareceu-me a chave do viver
Verter em melodia os sons da vida,
Que a palavra também podia ter.
Desde então eu persigo a tradução
De tudo ao meu redor com a intenção
De ver no mundo minha face refletida.
(sem data)
domingo, 18 de abril de 2010
Perto do coração da Vida (de Alma Welt)
No soneto de estro inesgotável
Persigo o próprio coração da vida.
E ele me há de revelar a impalpável
E real face do ser, quase perdida.
O significado da existência,
Estou persuadida: está oculto,
Desafiando o homem e sua ciência,
E alheio a toda fé e todo culto,
A um palmo, um dedo, um quase nada,
Misturado nos afetos e no laço
Que une um ser ao outro na jornada,
No garimpo do poema, na bateia,
Numa pedra, talvez de brilho baço,
A Verdade... sem aplauso e sem platéia.
(sem data)
Persigo o próprio coração da vida.
E ele me há de revelar a impalpável
E real face do ser, quase perdida.
O significado da existência,
Estou persuadida: está oculto,
Desafiando o homem e sua ciência,
E alheio a toda fé e todo culto,
A um palmo, um dedo, um quase nada,
Misturado nos afetos e no laço
Que une um ser ao outro na jornada,
No garimpo do poema, na bateia,
Numa pedra, talvez de brilho baço,
A Verdade... sem aplauso e sem platéia.
(sem data)
segunda-feira, 29 de março de 2010
O Ser e a Morte (de Alma Welt)
A Morte sempre envia seus sinais,
Mas o faz em código sutil,
Nem sempre com os signos fatais
Mas como um vocábulo entre mil
Mensagens que o dia nos transmite
E nos tiram da possível sintonia
Com aquele pavio de dinamite
Que, visto, faz da vida uma agonia.
Não podemos pensar, este é o jogo
Proposto ao Homem racional,
Propenso a questionar o seu malogro.
Pois se a pedra dura, e o diamante,
Por quê é o Ser, assim, alvo do mal
Que torna todo esforço irrelevante?
09/07/02006
Mas o faz em código sutil,
Nem sempre com os signos fatais
Mas como um vocábulo entre mil
Mensagens que o dia nos transmite
E nos tiram da possível sintonia
Com aquele pavio de dinamite
Que, visto, faz da vida uma agonia.
Não podemos pensar, este é o jogo
Proposto ao Homem racional,
Propenso a questionar o seu malogro.
Pois se a pedra dura, e o diamante,
Por quê é o Ser, assim, alvo do mal
Que torna todo esforço irrelevante?
09/07/02006
quarta-feira, 24 de março de 2010
O plano da Vida (de Alma Welt)
Qualquer coisa vista em minha vida,
Incluindo a que existe só na mente,
Será no meu poema revivida
Para eu ser em mim mais claramente.
Que presunção! És louca, hás de convir...
Dirão aqueles que lançados na corrente
Crêem que basta estar para existir,
E que a vida a si mesma se contente.
Mas, vê: todos lançam sua semente
Porque uma vida é pouco e nos desmente,
Sejamos animal ou simples planta,
Se após tanto penar e tanta lida
Seja o plano de Deus, pra nossa Vida,
Morrer, dormir, sonhar... depois da janta.
(sem data)
Incluindo a que existe só na mente,
Será no meu poema revivida
Para eu ser em mim mais claramente.
Que presunção! És louca, hás de convir...
Dirão aqueles que lançados na corrente
Crêem que basta estar para existir,
E que a vida a si mesma se contente.
Mas, vê: todos lançam sua semente
Porque uma vida é pouco e nos desmente,
Sejamos animal ou simples planta,
Se após tanto penar e tanta lida
Seja o plano de Deus, pra nossa Vida,
Morrer, dormir, sonhar... depois da janta.
(sem data)
terça-feira, 23 de março de 2010
Édipo (de Alma Welt)
Saber nosso lugar aqui na terra
Não é tão óbvio, simples e direto.
Alguns nascem no seu pé-de-serra
A maioria vem apenas sob um teto,
Inesquecível, sim, como cenário
Das visões primeiras, encantadas
Como aquela mancha no armário,
Um duende sorrindo para as fadas.
Mas depois começa o nosso exílio
E toda uma vida de procura
Para encontrar de novo o domicílio
Onde ocorreu em nós a ruptura.
E frente ao velho casarão estacionar,
Dizendo: Foi aqui. Cheguei, posso parar...
28/09/2006
Não é tão óbvio, simples e direto.
Alguns nascem no seu pé-de-serra
A maioria vem apenas sob um teto,
Inesquecível, sim, como cenário
Das visões primeiras, encantadas
Como aquela mancha no armário,
Um duende sorrindo para as fadas.
Mas depois começa o nosso exílio
E toda uma vida de procura
Para encontrar de novo o domicílio
Onde ocorreu em nós a ruptura.
E frente ao velho casarão estacionar,
Dizendo: Foi aqui. Cheguei, posso parar...
28/09/2006
terça-feira, 2 de março de 2010
Postfácio (de Alma Welt)
Saberei parar um dia e emudecer,
E conformar meu passo ao coração?
Olhar as profundezas do meu ser
E estar bem, ali, c’os pés no chão?
A dor se tornou arte, isso foi bom...
O poeta irá tornar-se o cisne negro
Num longamente acalentado som,
Seu solo patético e mais íntegro.
Cantei por não saber calar a vida
Neste coração que se entusiasma
Pelo belo, o puro, e mesmo a lida.
Quanto à dor, também a vejo assim:
Como um último e íntimo fantasma
A dizer: “Viva, viva, viva” até o fim...
15/01/2007
E conformar meu passo ao coração?
Olhar as profundezas do meu ser
E estar bem, ali, c’os pés no chão?
A dor se tornou arte, isso foi bom...
O poeta irá tornar-se o cisne negro
Num longamente acalentado som,
Seu solo patético e mais íntegro.
Cantei por não saber calar a vida
Neste coração que se entusiasma
Pelo belo, o puro, e mesmo a lida.
Quanto à dor, também a vejo assim:
Como um último e íntimo fantasma
A dizer: “Viva, viva, viva” até o fim...
15/01/2007
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O Cenário (de Alma Welt)
Passamos a vida a construir
Um cenário coerente, quero crer,
Para podermos simplesmente ser,
Despojados da idéia do porvir,
Que é a maldição da consciência,
O rubro fruto amargo da Razão,
Que nos trouxe angústia e aflição,
Por nos ser da Morte a vã vivência.
Mas, pensando bem, nosso animal
Resta-nos no âmbito do instinto
E dele vem o tal terror fatal...
E sofro, hesito e me debato
Ante o Nada que será o entreato,
Ou a tela em branco que não pinto...
(sem data)
Um cenário coerente, quero crer,
Para podermos simplesmente ser,
Despojados da idéia do porvir,
Que é a maldição da consciência,
O rubro fruto amargo da Razão,
Que nos trouxe angústia e aflição,
Por nos ser da Morte a vã vivência.
Mas, pensando bem, nosso animal
Resta-nos no âmbito do instinto
E dele vem o tal terror fatal...
E sofro, hesito e me debato
Ante o Nada que será o entreato,
Ou a tela em branco que não pinto...
(sem data)
O Retorno II (de Alma Welt)
A Aurora do Homem está por vir
Quando sem o medo que o atrasa,
Andará, sem choro ou mesmo rir,
Sobre a Terra que será a sua casa.
Já o vemos: é uma luz na multidão
Que se espalha e abre uma cortina
No antigo e endurecido coração
Que treme pois ainda a raiva o mina
Contra a dura maldição do Criador
Que nos lançou também contra a mãe Gea
Numa fúria de revanche e de rancor.
E voltaremos às terras e às águas,
Como bem antes daquela má idéia
Que nos deu menos prazeres do que mágoas...
23/07/2006
Quando sem o medo que o atrasa,
Andará, sem choro ou mesmo rir,
Sobre a Terra que será a sua casa.
Já o vemos: é uma luz na multidão
Que se espalha e abre uma cortina
No antigo e endurecido coração
Que treme pois ainda a raiva o mina
Contra a dura maldição do Criador
Que nos lançou também contra a mãe Gea
Numa fúria de revanche e de rancor.
E voltaremos às terras e às águas,
Como bem antes daquela má idéia
Que nos deu menos prazeres do que mágoas...
23/07/2006
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
A Solidão do Poeta (de Alma Welt)
Não espero ser bem compreendida
Pelos anos em que vivo ou logo após,
Mas se a Arte é solidão atroz,
É abraço também na despedida...
É consolo, pranto em ombro quente,
Pois que tudo é matéria de poesia,
É um olhar incólume entre a gente,
Mas que tudo colhe e se apropria.
E se à vezes me sinto assim tão só,
A ponto de gritar contra as paredes
Ou sair rolando nua pelo pó,
Eu me envergonho logo da fraqueza,
Ante vós, outros poetas que me ledes,
E volto a assumir minha riqueza...
21/07/2006
Pelos anos em que vivo ou logo após,
Mas se a Arte é solidão atroz,
É abraço também na despedida...
É consolo, pranto em ombro quente,
Pois que tudo é matéria de poesia,
É um olhar incólume entre a gente,
Mas que tudo colhe e se apropria.
E se à vezes me sinto assim tão só,
A ponto de gritar contra as paredes
Ou sair rolando nua pelo pó,
Eu me envergonho logo da fraqueza,
Ante vós, outros poetas que me ledes,
E volto a assumir minha riqueza...
21/07/2006
O Poeta e o levante (de Alma Welt)
Através dos milênios à porfia,
Carrega o poeta a sua tocha,
E o tão sagrado fogo da Poesia
Pesado vai ficando, como rocha.
A solidão aumenta a cada século,
Que, nós, milênios dentro carregamos,
Que ser poeta é ser como um espéculo
Da espécie que o saber e dor herdamos.
Que importa se o tempo nos compreende!
A missão é passar o fogo adiante,
Um poeta com outro só se entende
Desde o nadir do ser, de trás pra diante,
Como esgarçada malha que se estende,
A esperar de nós nosso levante...
(sem data)
Carrega o poeta a sua tocha,
E o tão sagrado fogo da Poesia
Pesado vai ficando, como rocha.
A solidão aumenta a cada século,
Que, nós, milênios dentro carregamos,
Que ser poeta é ser como um espéculo
Da espécie que o saber e dor herdamos.
Que importa se o tempo nos compreende!
A missão é passar o fogo adiante,
Um poeta com outro só se entende
Desde o nadir do ser, de trás pra diante,
Como esgarçada malha que se estende,
A esperar de nós nosso levante...
(sem data)
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Ode à Alegria (de Alma Welt)
A dor do mundo vem do coração,
De nossa angústia, peso e compunção;
Mas a alegria, ah! essa é profunda,
Que de água meus olhos quase inunda.
É a tal celebração na despedida,
E o abraço ardente na chegada;
É quando mais a gente fica unida
E mais se sente amar e ser amada.
Mas se só amamos quem amamos,
Perdemos o valor de sermos homens
Em meio a tantas lutas e desordens.
Alegria congrega e unifica,
Traz de volta a inocência e reivindica
O Éden que era em nós, e o deixamos...
(sem data)
De nossa angústia, peso e compunção;
Mas a alegria, ah! essa é profunda,
Que de água meus olhos quase inunda.
É a tal celebração na despedida,
E o abraço ardente na chegada;
É quando mais a gente fica unida
E mais se sente amar e ser amada.
Mas se só amamos quem amamos,
Perdemos o valor de sermos homens
Em meio a tantas lutas e desordens.
Alegria congrega e unifica,
Traz de volta a inocência e reivindica
O Éden que era em nós, e o deixamos...
(sem data)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
A Nau, ou O Mistério de Viver (de Alma Welt)
É tão fina a sintonia do real
Que podemos perdê-la por descuido.
O menor toque errado no dial
E teremos só estática, ruído,
Além dos tais fantasmas do passado,
Aqueles que geramos todo dia
Formando, paralelo, um outro fado,
Que da rota verdadeira nos desvia.
Mas, o mistério de ser e estar na vida
É que sendo tão frágil o equilíbrio
Como nau na procela enraivecida
Que quer ver capitão vencido e morto,
Singramos e empenhamos nosso brio
Qual se nos aguardasse um belo porto...
28/09/2006
Que podemos perdê-la por descuido.
O menor toque errado no dial
E teremos só estática, ruído,
Além dos tais fantasmas do passado,
Aqueles que geramos todo dia
Formando, paralelo, um outro fado,
Que da rota verdadeira nos desvia.
Mas, o mistério de ser e estar na vida
É que sendo tão frágil o equilíbrio
Como nau na procela enraivecida
Que quer ver capitão vencido e morto,
Singramos e empenhamos nosso brio
Qual se nos aguardasse um belo porto...
28/09/2006
Funhouse (de Alma Welt)
Quantos mundos existirão no mundo?
Infinitos, responderei com espanto.
E entre tantos, só já não confundo
O que demônio é... e o que é santo.
Vejo reflexos, ouço ressonâncias,
Fragmentos que formam um mosaico,
Fazendo do real e suas instâncias
Um jogo de montar um tanto arcaico.
Assim, nada é mesmo o que parece,
E é preciso cada fato interpretar
Para entender a teia que se tece.
Mas não pode apostar em seu juízo
Quem, por viver, como eu crê habitar
Uma casa de espelhos e de riso...
14/05/2005
Infinitos, responderei com espanto.
E entre tantos, só já não confundo
O que demônio é... e o que é santo.
Vejo reflexos, ouço ressonâncias,
Fragmentos que formam um mosaico,
Fazendo do real e suas instâncias
Um jogo de montar um tanto arcaico.
Assim, nada é mesmo o que parece,
E é preciso cada fato interpretar
Para entender a teia que se tece.
Mas não pode apostar em seu juízo
Quem, por viver, como eu crê habitar
Uma casa de espelhos e de riso...
14/05/2005
O ser e o nada (de Alma Welt)
Não podemos entender o que é Morte
Tampouco sabemos o que é Vida
A cultura quer trazer algum aporte,
A coisa é o que lhe é atribuída.
Mas se nossos hábitos deixamos
E esquecemos um pouco das lições,
Nada refaz o senso que emprestamos,
Cai o mistério sobre as mínimas ações.
Vede como é fútil o dia a dia,
A passagem das horas é atroz,
Nos debatemos a falar algaravia,
Um código de sons balbuciados,
Mero jogo de crianças nos gramados
Enquanto avança a sombra sobre nós...
(sem data)
Tampouco sabemos o que é Vida
A cultura quer trazer algum aporte,
A coisa é o que lhe é atribuída.
Mas se nossos hábitos deixamos
E esquecemos um pouco das lições,
Nada refaz o senso que emprestamos,
Cai o mistério sobre as mínimas ações.
Vede como é fútil o dia a dia,
A passagem das horas é atroz,
Nos debatemos a falar algaravia,
Um código de sons balbuciados,
Mero jogo de crianças nos gramados
Enquanto avança a sombra sobre nós...
(sem data)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Cada homem é uma Ilha, ou Os sonhos da Razão (de Alma Welt)
Poderemos conhecer um ser humano?
Nossas mentes poderão sintonizar
E as palavras e os sentidos conformar
Sem incorrer no velho ledo engano?
Cada um de nós é só uma ilha
Perdida na imensidão do pélago,
Ou então com espaços de uma milha
Formamos infinito arquipélago.
Os continentes?... são inflados egos,
Contrariando a proposta do poeta
Que estava a escrever para uma neta
Ou para alunos jovens bem bisonhos
E tratava de mantê-los todos cegos,
Que da Razão os sonhos são medonhos...
(sem data)
Nota
Como alguns leitores já perceberam, minha irmã, a grande Poetisa Alma Welt, não tinha compromisso com pensamentos bem comportados, ou com o politicamente correto. Nada de pontificantes sentenças morais e caminhos a seguir. Ela tinha o elevado pessimismo dos verdadeiros idealistas. Seu questionamento do ser e do sentido insondável da vida, era rebelde e só não desesperado por conta de seu gosto inabalável pela beleza trágica da vida. Neste soneto ela faz uma paráfase antitética dos versos de John Donne: " Nenhum homem é uma ilha"..... "todos somos parte do continente". E uma alusão ao dístico de uma gravura de Goya : "El sueño de la Razón produces monstruos".
(Lucia Welt)
Nossas mentes poderão sintonizar
E as palavras e os sentidos conformar
Sem incorrer no velho ledo engano?
Cada um de nós é só uma ilha
Perdida na imensidão do pélago,
Ou então com espaços de uma milha
Formamos infinito arquipélago.
Os continentes?... são inflados egos,
Contrariando a proposta do poeta
Que estava a escrever para uma neta
Ou para alunos jovens bem bisonhos
E tratava de mantê-los todos cegos,
Que da Razão os sonhos são medonhos...
(sem data)
Nota
Como alguns leitores já perceberam, minha irmã, a grande Poetisa Alma Welt, não tinha compromisso com pensamentos bem comportados, ou com o politicamente correto. Nada de pontificantes sentenças morais e caminhos a seguir. Ela tinha o elevado pessimismo dos verdadeiros idealistas. Seu questionamento do ser e do sentido insondável da vida, era rebelde e só não desesperado por conta de seu gosto inabalável pela beleza trágica da vida. Neste soneto ela faz uma paráfase antitética dos versos de John Donne: " Nenhum homem é uma ilha"..... "todos somos parte do continente". E uma alusão ao dístico de uma gravura de Goya : "El sueño de la Razón produces monstruos".
(Lucia Welt)
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Metafísica, ou O vôo do mosquito (de Alma Welt)
Às três ou quatro conhecidas dimensões
Que podemos constatar ou só inferir,
Se juntará a mais sutil das ilações,
Que é a nossa dimensão de Existir.
Entretanto dela não sabemos nada,
Nem o sentido, quanto mais definição.
Todavia persistimos na jornada
Como se isso fosse mesmo conclusão.
Mas o simples mistério da Existência
Descortina para nós o Infinito
Que por certo disso tudo é a essência.
Mas o que é a Essência não sabemos,
Pois ainda nem sabemos do que vemos
Além do simples vôo de um mosquito.
(sem data)
Que podemos constatar ou só inferir,
Se juntará a mais sutil das ilações,
Que é a nossa dimensão de Existir.
Entretanto dela não sabemos nada,
Nem o sentido, quanto mais definição.
Todavia persistimos na jornada
Como se isso fosse mesmo conclusão.
Mas o simples mistério da Existência
Descortina para nós o Infinito
Que por certo disso tudo é a essência.
Mas o que é a Essência não sabemos,
Pois ainda nem sabemos do que vemos
Além do simples vôo de um mosquito.
(sem data)
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
A pedra e a rosa (de Alma Welt)
O ser humano tem a ânsia da fusão,
Do misturar-se ao outro docemente
Pra estar além da inata solidão
Em que o corpo é cárcere da mente.
Mas quantos vãos rodeios sedutores
A alma pra se unir deve fazer,
Tão próxima do outro, seus pendores,
E tendência a tão só permanecer
E de restar no meio do caminho
Por medo do silêncio que ali medra
Depois de todo o imenso burburinho.
Pois a procura é antiga e duvidosa
Como a filosofal e rara pedra
Que cria ouro, em vez de pura rosa...
19/01/2005
Do misturar-se ao outro docemente
Pra estar além da inata solidão
Em que o corpo é cárcere da mente.
Mas quantos vãos rodeios sedutores
A alma pra se unir deve fazer,
Tão próxima do outro, seus pendores,
E tendência a tão só permanecer
E de restar no meio do caminho
Por medo do silêncio que ali medra
Depois de todo o imenso burburinho.
Pois a procura é antiga e duvidosa
Como a filosofal e rara pedra
Que cria ouro, em vez de pura rosa...
19/01/2005
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
A canção do bem-te-vi (de Alma Welt)
A canção do bem-te-vi está nos genes
E a maneira de um vestir o paletó
Assim como outras coisas mais perenes
É sempre algo que retornará do pó.
Nisto consiste da memória o tal milagre
Que morando nas pequeninas células
Faz que um gesto ou canto se consagre,
Mal-me-quer a renovar as suas pétalas...
Assim, o amor também já vem de longe
E tudo é reencontro ou só memória,
Ninguém foge da sina, nem o monge.
E se o barquinho persiste na procela
Eis nosso afinal consolo e glória:
Temos mesmo do divino uma parcela!
14//08/2007
E a maneira de um vestir o paletó
Assim como outras coisas mais perenes
É sempre algo que retornará do pó.
Nisto consiste da memória o tal milagre
Que morando nas pequeninas células
Faz que um gesto ou canto se consagre,
Mal-me-quer a renovar as suas pétalas...
Assim, o amor também já vem de longe
E tudo é reencontro ou só memória,
Ninguém foge da sina, nem o monge.
E se o barquinho persiste na procela
Eis nosso afinal consolo e glória:
Temos mesmo do divino uma parcela!
14//08/2007
domingo, 27 de dezembro de 2009
Os viajantes do Nada (de Alma Welt)
O que poucos viajantes nos contaram
Da Morte não merecem o neles crer,
E foram muito raros os que voltaram:
Orfeu, Hercules, Dante, e o armênio Er.
E talvez uns poucos mais discretos
Que preferiram na volta se calar
Pois os lances e ritos mais secretos
Não quiseram certamente alardear.
Cristo foi um deles: por seguro
Não deixou que o tocasse a Madalena
Alegando ainda não estar puro...
Só sei que o mal dito em forma plena
Só nos aumenta o medo desse escuro
E ao Nada novamente nos condena.
Da Morte não merecem o neles crer,
E foram muito raros os que voltaram:
Orfeu, Hercules, Dante, e o armênio Er.
E talvez uns poucos mais discretos
Que preferiram na volta se calar
Pois os lances e ritos mais secretos
Não quiseram certamente alardear.
Cristo foi um deles: por seguro
Não deixou que o tocasse a Madalena
Alegando ainda não estar puro...
Só sei que o mal dito em forma plena
Só nos aumenta o medo desse escuro
E ao Nada novamente nos condena.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Quando cessam as palavras (de Alma Welt)
Tendo vivido pela força da palavra
Só temo o tal momento de afazia
Final, quando a mente a língua trava
Pois nada mais restou para a Poesia,
Quando não mais se tem o que dizer
E tudo se resume num suspiro
Ou numa dor tão grande de morrer
E deixar o mundo em seu respiro,
Que afinal era tão belo como era
Com as mágoas e a feiúra sem sentido
Pois nele havia infância ou houvera.
E numa espécie muda de “aqui vamos”,
Talvez como um sonho indefinido
Alcançamos a paz que não sonhamos.
(sem data)
Só temo o tal momento de afazia
Final, quando a mente a língua trava
Pois nada mais restou para a Poesia,
Quando não mais se tem o que dizer
E tudo se resume num suspiro
Ou numa dor tão grande de morrer
E deixar o mundo em seu respiro,
Que afinal era tão belo como era
Com as mágoas e a feiúra sem sentido
Pois nele havia infância ou houvera.
E numa espécie muda de “aqui vamos”,
Talvez como um sonho indefinido
Alcançamos a paz que não sonhamos.
(sem data)
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
As horas voam (de Alma Welt)
As horas voam, é o que elas fazem,
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.
São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,
A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.
E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...
09/12/2006
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.
São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,
A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.
E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...
09/12/2006
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
O rio ( de Alma Welt)
Atirados na corrente sempre fomos
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,
E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,
E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,
Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...
08/07/2006
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,
E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,
E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,
Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...
08/07/2006
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
La vida es sueño (de Alma Welt)
Penso logo existo, diz Descartes,
E eu de mim começo a duvidar.
Serei eu uma alma a me pensar
Ou o fruto final da minha arte?
Se olho para trás minha bagagem
Constato que ela é bem mais real,
Em peso, densidade e coragem,
Do que esta pele branca de areal.
Somos sonho de um deus desconhecido,
Não sabemos o seu nome para orar
E tememos mais ainda o acordar...
Pois no despertar tudo é perdido,
E dói, ah! como dói ver desfiar
Um sonho noutro sonho entretecido...
(sem data)
E eu de mim começo a duvidar.
Serei eu uma alma a me pensar
Ou o fruto final da minha arte?
Se olho para trás minha bagagem
Constato que ela é bem mais real,
Em peso, densidade e coragem,
Do que esta pele branca de areal.
Somos sonho de um deus desconhecido,
Não sabemos o seu nome para orar
E tememos mais ainda o acordar...
Pois no despertar tudo é perdido,
E dói, ah! como dói ver desfiar
Um sonho noutro sonho entretecido...
(sem data)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
A Pergunta (de Alma Welt)
Saberei morrer, chegada a hora?
Eis a pergunta que nunca quer calar.
Somos para morte aqui e agora,
Nunca prontos e sempre a adiar.
Não estou muito certa de que a vida
Seja mesmo um projeto que deu certo
Uma vez que é menos bela que sofrida
E o final se passa sempre no deserto.
Ou então, triste, solitária e dolorida
É a nossa chegada àquele porto
Onde não há festa e sim um morto,
Que somos nós, esticados, macilentos,
Expostos como nunca nem em vida
Num falso carnaval de gestos lentos.
(sem data)
Eis a pergunta que nunca quer calar.
Somos para morte aqui e agora,
Nunca prontos e sempre a adiar.
Não estou muito certa de que a vida
Seja mesmo um projeto que deu certo
Uma vez que é menos bela que sofrida
E o final se passa sempre no deserto.
Ou então, triste, solitária e dolorida
É a nossa chegada àquele porto
Onde não há festa e sim um morto,
Que somos nós, esticados, macilentos,
Expostos como nunca nem em vida
Num falso carnaval de gestos lentos.
(sem data)
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
A vida (de Alma Welt)
A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.
Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.
Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça
Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto inédito na Arca da Alma, que muito me fez rir, e que vou imediatamente postar no blog específico dessa vertente da Poetisa: o dos Sonetos Humorísticos da Alma. (Lucia Welt)
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.
Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.
Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça
Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto inédito na Arca da Alma, que muito me fez rir, e que vou imediatamente postar no blog específico dessa vertente da Poetisa: o dos Sonetos Humorísticos da Alma. (Lucia Welt)
Ariadne em Náxos (de Alma Welt)

Ariadne em Náxos- pintura de John William Waterhouse (escola inglesa do século XIX)
Não temos planta baixa desta vida,
Suas câmaras, alcovas, confusão.
Uma aposta errada ou indevida
Põe tudo a perder e sem perdão.
Alguma lógica a nós perceptível
É a do encadear de circunstâncias
Que vemos perscrutando o fio sensível
Que atravessa nosso dédalo de ânsias,
Como aquele da Ariane sem dedal,
Alinhavados como ela ao ser amado,
Pasmo herói confuso e... enrolado,
Pois encontrar a completude original
Numa Náxos aberta e sem volutas,
Eis o nexo, afinal, das nossas lutas.
06/04/2005
Nota
Acabo de encontrar neste domingo, na Arca da Alma, este notável soneto inédito, um tanto filosófico, e a que não falta um toque do humorismo peculiar da Poetisa, cheia de referências, ilações e até trocadilhos. (Lucia Welt)
Por curiosidade republico aqui um outro soneto de mesmo título pertencente ao ciclo Sonetos Mitológicos da Alma, em que a Poetisa aborda o tema de maneira bem diferente, mas igualmente humorística:
Ariadne em Náxos (de Alma Welt)
( Dionisos )
3
Nesta Náxos, perdida, abandonada
Fui por Teseu logo esquecida,
Ou então foi a vela, assim, quadrada,
Que não pode interromper sua partida.
Por isso, ou razões da deusa Ananke
Fiquei a Zeus dará, meio perdida,
Com o fluir do meu destino assim estanque,
A ver crescer meu ventre, embevecida.
Até que o deus alegre, brincalhão,
Aportou nesta Náxos sem nexo
Trazendo um grande falo, como sexo
De madeira, polido, ornamentado,
Com correias preso, pendurado,
E pediu-me que o servisse... esse bufão!
Mariposas (de Alma Welt)
Eu costumava olhar as mariposas
Efeméridas* fugazes no seu cio,
Dançando a doce dança das esposas
Enquanto eu meditava no que crio,
Se vale mesmo a pena de criar
Tanto verso e tanto sonho em vão,
Já que a vida é um breve despertar
No meio da infinita escuridão.
Ou, se poeta, estou fora do mundo
Pois os seres vêm só para amar
E dar à luz um outro mais fecundo.
E se na festa dessa roda de Sansara,
O artista é só o flash que dispara,
Capturando sem jamais participar...
16/08/2005
Nota
Efeméridas- uma espécie de mariposas cujo ciclo completo de vida: nascimento, crescimento, vôo nupcial, procriação e morte, dura apenas um dia.
Efeméridas* fugazes no seu cio,
Dançando a doce dança das esposas
Enquanto eu meditava no que crio,
Se vale mesmo a pena de criar
Tanto verso e tanto sonho em vão,
Já que a vida é um breve despertar
No meio da infinita escuridão.
Ou, se poeta, estou fora do mundo
Pois os seres vêm só para amar
E dar à luz um outro mais fecundo.
E se na festa dessa roda de Sansara,
O artista é só o flash que dispara,
Capturando sem jamais participar...
16/08/2005
Nota
Efeméridas- uma espécie de mariposas cujo ciclo completo de vida: nascimento, crescimento, vôo nupcial, procriação e morte, dura apenas um dia.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
O canal (de Alma Welt)
Trago a suspeita em que me encano,
De que a vida sempre foi desconfortável
Para o desamparado ser humano
Pois a morte permanece indecifrável.
Ser feliz só é possível ao bobo-alegre
E também ao de baixa consciência
Ou que de além-mundos tenha a febre
Para mascarar tanta impotência.
Pois tal fobia é visível na Natura
Desde que o animal exibe o medo
Na vã corrida, queda, e captura.
E ninguém quer morrer, nem no final,
Com um pé sobre o outro no penedo
Enquanto sobe a maré deste canal...
De que a vida sempre foi desconfortável
Para o desamparado ser humano
Pois a morte permanece indecifrável.
Ser feliz só é possível ao bobo-alegre
E também ao de baixa consciência
Ou que de além-mundos tenha a febre
Para mascarar tanta impotência.
Pois tal fobia é visível na Natura
Desde que o animal exibe o medo
Na vã corrida, queda, e captura.
E ninguém quer morrer, nem no final,
Com um pé sobre o outro no penedo
Enquanto sobe a maré deste canal...
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Ritual (de Alma Welt)
Para a minha Musa eu merecer
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.
O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.
Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.
Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...
(sem data)
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.
O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.
Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.
Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...
(sem data)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
O Labirinto de Dioniso (de Alma Welt)
É possível um ser o outro conhecer?
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?
Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...
E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,
Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano, suficiente...
(21/08/2005)
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?
Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...
E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,
Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano, suficiente...
(21/08/2005)
sábado, 24 de outubro de 2009
O Ser e a Poesia (de Alma Welt)
Pensar o Ser, tarefa inconclusiva
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.
"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.
Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.
Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...
29/12/2005
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.
"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.
Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.
Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...
29/12/2005
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Meta-física (de Alma Welt)
Concentro meu olhar numa cadeira,
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.
O pó, a relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.
No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.
E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...
(sem data)
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.
O pó, a relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.
No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.
E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...
(sem data)
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)
Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida
Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,
Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade
Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...
08/01/2007
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida
Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,
Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade
Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...
08/01/2007
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Após a queda (de Alma Welt)
Após a queda, retorno ao casarão,
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.
De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
De Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...
A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,
Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.
De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
De Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...
A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,
Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
A Frota de Naufrágios (de Alma Welt)
Reconstruo a cada dia o arcabouço
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados
Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho
Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...
Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!
21/11/2005
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados
Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho
Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...
Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!
21/11/2005
O poeta (de Alma Welt)
O poeta não nasce em qualquer um
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.
Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos
Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua
Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...
(sem data)
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.
Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos
Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua
Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...
(sem data)
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Amor e Arte (de Alma Welt)
Muitos são os nomes do divino
Mas por certo o Amor é o primeiro,
Com a Arte, sua face e violino,
O poético real e verdadeiro.
Passar por esta vida como um canto,
Um poema, um quadro ou um desenho
Que tenham do amor o mesmo encanto
E se queira buscar com mesmo empenho
É milenar nota do artista, distintiva,
Que há de pagar por ela um alto preço,
É dom que traz de Deus a marca viva.
Então a alma canta, os traços vibram
A palavra recobra o seu apreço,
E pronto: vida e morte se equilibram.
(sem data)
Mas por certo o Amor é o primeiro,
Com a Arte, sua face e violino,
O poético real e verdadeiro.
Passar por esta vida como um canto,
Um poema, um quadro ou um desenho
Que tenham do amor o mesmo encanto
E se queira buscar com mesmo empenho
É milenar nota do artista, distintiva,
Que há de pagar por ela um alto preço,
É dom que traz de Deus a marca viva.
Então a alma canta, os traços vibram
A palavra recobra o seu apreço,
E pronto: vida e morte se equilibram.
(sem data)
Antípodas (de Alma Welt)
Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
domingo, 11 de outubro de 2009
A Verdade (de Alma Welt)
A Verdade a todos nos liberta,
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?
Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.
A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.
A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...
(sem data)
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?
Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.
A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.
A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...
(sem data)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Revelações (de Alma Welt)
O poeta em mim fixa no olhar
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.
A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.
Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino
Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.
(sem data)
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.
A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.
Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino
Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.
(sem data)
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Cabra-Cega (de Alma Welt)
A poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira
Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Do tatear e o reencontro, comovida.
Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,
Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto... e o reconheço.
(sem data)
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira
Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Do tatear e o reencontro, comovida.
Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,
Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto... e o reconheço.
(sem data)
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Big Bang, ou a Fúria do Logos (de Alma Welt)
Medito sobre a verve do poeta
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras
Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme
Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)
Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...
(sem data)
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras
Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme
Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)
Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...
(sem data)
Ulisses (de Alma Welt)
Viver o mundo, esperança e agonia
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência
De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,
Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.
Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...
05/01/2007
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência
De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,
Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.
Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...
05/01/2007
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Vida em verso (de Alma Welt)
Constato que possuo dupla vida
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.
E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado
E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.
Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...
(sem data)
Nota
Mais um um notável soneto recém-encontrado na Arca da poetisa. Alma reafirma mais uma vez, com a bela metáfora do mito de Narciso e da ninfa Eco, a sua fé na realidade da Poesia, na consistência de uma vivência em dimensão poética, como propunha Novalis.(Lucia Welt)
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.
E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado
E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.
Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...
(sem data)
Nota
Mais um um notável soneto recém-encontrado na Arca da poetisa. Alma reafirma mais uma vez, com a bela metáfora do mito de Narciso e da ninfa Eco, a sua fé na realidade da Poesia, na consistência de uma vivência em dimensão poética, como propunha Novalis.(Lucia Welt)
domingo, 23 de agosto de 2009
As perguntas... (de Alma Welt)
Longas vigílias, sofridas, da razão,
Em que a mente luta contra o fado,
O triste destino em comunhão
Do homem como ser desamparado.
Somos para a morte e por certo
É esse o grande laço que nos une
E talvez o segredo do deserto
Com que às vezes o coração nos pune.
No fatal desenlace somos unos
Ou, ao contrário, é a suprema solidão?
Quais os signos e momentos oportunos
Onde a revelação está, se nos escapa?
A resposta é uma cruz, uma canção,
Ou se encontra em nós sob uma capa?
(sem data)
Em que a mente luta contra o fado,
O triste destino em comunhão
Do homem como ser desamparado.
Somos para a morte e por certo
É esse o grande laço que nos une
E talvez o segredo do deserto
Com que às vezes o coração nos pune.
No fatal desenlace somos unos
Ou, ao contrário, é a suprema solidão?
Quais os signos e momentos oportunos
Onde a revelação está, se nos escapa?
A resposta é uma cruz, uma canção,
Ou se encontra em nós sob uma capa?
(sem data)
domingo, 16 de agosto de 2009
Reminicências (de Alma Welt)
Outrora eu ia nua até a fonte
Buscar água e ervas milagrosas
Que aprendia com mestre Quironte
O mago das quatro patas grossas.
Nos sagrados bosques de Elêusis
Fui discípula daquele sábio nume,
E por colegas tive semideuses
Cultuando do mestre o claro lume.
E ninfa eu mesma fui ou me tornei,
Perdoem-me vocês a bizarria
Aparente do que agora me lembrei,
Pois o que fluente a mente aborda,
Reparem, não é nenhuma algaravia
Mas aquilo que a alma ainda recorda...
(sem data)
Buscar água e ervas milagrosas
Que aprendia com mestre Quironte
O mago das quatro patas grossas.
Nos sagrados bosques de Elêusis
Fui discípula daquele sábio nume,
E por colegas tive semideuses
Cultuando do mestre o claro lume.
E ninfa eu mesma fui ou me tornei,
Perdoem-me vocês a bizarria
Aparente do que agora me lembrei,
Pois o que fluente a mente aborda,
Reparem, não é nenhuma algaravia
Mas aquilo que a alma ainda recorda...
(sem data)
Zen (de Alma Welt)
Para poder conhecer e revelar
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar
O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.
O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso
Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...
(sem data
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar
O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.
O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso
Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...
(sem data
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Para chegar à casa (de Alma Welt)
Para chegar à casa de meu pai
Também tive fortes descaminhos
Daqueles que erraram no Sinai
E outros talvez mais comezinhos.
O bezerro de ouro não havia
Entretanto fui tentada no deserto,
Melhor dizendo: em plena pradaria*,
Por quem não contava tão por perto.
E agora sob a noite enluarada
E o imenso dossel do meu destino
Eu agradeço estar na minha morada
Pertencente e por fim apaziguada,
Sendo parte integrante “del camino”
E a traduzir em versos a jornada...
(sem data)
*Nota
"Entretanto fui tentada no deserto,
Melhor dizendo: em plena pradaria"
- Por curiosidade, republico aqui o soneto que se refere à tentação que a Alma sofreu na pradaria, por parte de Mefistófeles, uma das configurações de Lúcifer, que já havia tentado Fausto. Tenho motivos para crer que se trata de epísódio real da vida da Poetisa do Pampa:
A Tentação da Alma (de Alma Welt)
(152)
Uma vez estando eu a passear
Pela minha dourada pradaria,
Como de hábito imersa num cismar
Que me levava além da alegoria,
Onde coisas, numes, deuses, tudo junto
Cercava-me e querendo-me com eles,
Eu encontrei um tal Mefistofeles
Que não fazia parte do conjunto,
E este rogou-me desnudar-me
Que queria que queria admirar-me
Prometendo-me tesouro todo à parte.
E eu que não me faço de rogada
Fiquei nuínha, e sim, sem querer nada,
Disse: "Eu mesma sou o Ouro e a Arte!
03/12/2006
Também tive fortes descaminhos
Daqueles que erraram no Sinai
E outros talvez mais comezinhos.
O bezerro de ouro não havia
Entretanto fui tentada no deserto,
Melhor dizendo: em plena pradaria*,
Por quem não contava tão por perto.
E agora sob a noite enluarada
E o imenso dossel do meu destino
Eu agradeço estar na minha morada
Pertencente e por fim apaziguada,
Sendo parte integrante “del camino”
E a traduzir em versos a jornada...
(sem data)
*Nota
"Entretanto fui tentada no deserto,
Melhor dizendo: em plena pradaria"
- Por curiosidade, republico aqui o soneto que se refere à tentação que a Alma sofreu na pradaria, por parte de Mefistófeles, uma das configurações de Lúcifer, que já havia tentado Fausto. Tenho motivos para crer que se trata de epísódio real da vida da Poetisa do Pampa:
A Tentação da Alma (de Alma Welt)
(152)
Uma vez estando eu a passear
Pela minha dourada pradaria,
Como de hábito imersa num cismar
Que me levava além da alegoria,
Onde coisas, numes, deuses, tudo junto
Cercava-me e querendo-me com eles,
Eu encontrei um tal Mefistofeles
Que não fazia parte do conjunto,
E este rogou-me desnudar-me
Que queria que queria admirar-me
Prometendo-me tesouro todo à parte.
E eu que não me faço de rogada
Fiquei nuínha, e sim, sem querer nada,
Disse: "Eu mesma sou o Ouro e a Arte!
03/12/2006
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Bugigangas (de Alma Welt)
Quando chego de viagem ao casarão
Trazendo na bagagem novo texto,
Que das bugigangas, só pretexto,
Trago poucas, pois lhes tenho aversão,
Sou mal compreendida por Matilde
E mais pela Solange e meu cunhado
Que vêem logo em mim algo de errado,
Qual seja: alienada ou falsa humilde.
Mas não é o que penso que lhes devo,
Frutos estéreis do vão mercantilismo,
Pois que herdei do meu Vati o idealismo...
É que a mim só interessam sentimentos
E as lembranças gratas dos momentos
De pura emoção, memória e enlevo.
15/12/1999
Trazendo na bagagem novo texto,
Que das bugigangas, só pretexto,
Trago poucas, pois lhes tenho aversão,
Sou mal compreendida por Matilde
E mais pela Solange e meu cunhado
Que vêem logo em mim algo de errado,
Qual seja: alienada ou falsa humilde.
Mas não é o que penso que lhes devo,
Frutos estéreis do vão mercantilismo,
Pois que herdei do meu Vati o idealismo...
É que a mim só interessam sentimentos
E as lembranças gratas dos momentos
De pura emoção, memória e enlevo.
15/12/1999
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O dia e a noite (de Alma Welt)
Os últimos albores na planície
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.
Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.
E assim o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.
Agora, em suas sombras e estigmas,
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...
(sem data)
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.
Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.
E assim o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.
Agora, em suas sombras e estigmas,
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...
(sem data)
domingo, 3 de maio de 2009
Vida e Integração (de Alma Welt)
Ao olhar a natureza circundante
Eu vejo que sou fruto e parte dela.
Nada do que há me é distante,
A flor, o inseto e minha cadela.
Tudo, o prado, o vinho e o vinhedo,
As peonas que as uvas vão colhendo,
Seus piás e mesmo seu brinquedo,
E no alto aquela nuvem se movendo.
Mas afirmo que tudo isso me forma,
Devo-lhes corpo e mente, é o que digo,
Ao Universo estou ligada pelo umbigo.
Por isso ao despertar sou nascitura,
E de noite a filha pródiga retorna
Ao velho ventre da grande mãe Natura.
(sem data)
Eu vejo que sou fruto e parte dela.
Nada do que há me é distante,
A flor, o inseto e minha cadela.
Tudo, o prado, o vinho e o vinhedo,
As peonas que as uvas vão colhendo,
Seus piás e mesmo seu brinquedo,
E no alto aquela nuvem se movendo.
Mas afirmo que tudo isso me forma,
Devo-lhes corpo e mente, é o que digo,
Ao Universo estou ligada pelo umbigo.
Por isso ao despertar sou nascitura,
E de noite a filha pródiga retorna
Ao velho ventre da grande mãe Natura.
(sem data)
segunda-feira, 30 de março de 2009
O que é a Verdade? (de Alma Welt)
“...a Verdade é a Beleza, a Beleza é a Verdade,
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)
Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro
De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade
Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação
Pois o Mestre calou-se sabiamente
E legou aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente...
(sem data)
Nota
Vale lembrar aqui a confirmação desse conceito metafísico da Verdade, que Alma adotava, nas palavras célebres de outro grande poeta-filósofo, mas do Romantismo Alemão, Novalis:
"A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro".
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)
Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro
De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade
Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação
Pois o Mestre calou-se sabiamente
E legou aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente...
(sem data)
Nota
Vale lembrar aqui a confirmação desse conceito metafísico da Verdade, que Alma adotava, nas palavras célebres de outro grande poeta-filósofo, mas do Romantismo Alemão, Novalis:
"A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro".
sábado, 14 de março de 2009
Soneto e ruptura (Alma Welt)
Lançar um soneto no papel
É como “deitar sortes à ventura”*
Na expressão antiga do cordel
Que incorre numa certa ruptura.
Sim, pois que há o antes e o após
Do soneto último e durável
Por fração do gozo e do inefável
Desfrute produzido assim a sós.
Serei eu o que fui antes do verso
Que me transfigurou o pensamento
Fechando ciclo agora controverso?
Lançada em novo impulso para o mundo
Sou doravante o fruto do momento
Que ofertou não sua face, mas o fundo...
(sem data)
Nota
Neste soneto (recém-encontrado na arca da Alma) de implicação metafísica, Alma expressa a modificação (ou renovação) que o poeta sente durante e mesmo após a criação de um novo poema. Ela quer dizer que o momento da criação não pode ser avaliado em sua superfíicie, e que a Poesia revela esse "momento" (a instantaneidade do presente) em sua profundidade iniciática que só os poetas inspirados costumam perceber.
"...deitam sortes à ventura"- Essa expressão lusa arcaica, que pode ser entendida como um jogo qualquer de tirar a sorte para escolher alguém, é citada do poema narrativo português, precursor do cordel brasileiro, "Romance da Nau Catarineta", que no Sul ganhou melodia e era cantado no "fandango" até o final do século XIX.
(Lucia Welt)
É como “deitar sortes à ventura”*
Na expressão antiga do cordel
Que incorre numa certa ruptura.
Sim, pois que há o antes e o após
Do soneto último e durável
Por fração do gozo e do inefável
Desfrute produzido assim a sós.
Serei eu o que fui antes do verso
Que me transfigurou o pensamento
Fechando ciclo agora controverso?
Lançada em novo impulso para o mundo
Sou doravante o fruto do momento
Que ofertou não sua face, mas o fundo...
(sem data)
Nota
Neste soneto (recém-encontrado na arca da Alma) de implicação metafísica, Alma expressa a modificação (ou renovação) que o poeta sente durante e mesmo após a criação de um novo poema. Ela quer dizer que o momento da criação não pode ser avaliado em sua superfíicie, e que a Poesia revela esse "momento" (a instantaneidade do presente) em sua profundidade iniciática que só os poetas inspirados costumam perceber.
"...deitam sortes à ventura"- Essa expressão lusa arcaica, que pode ser entendida como um jogo qualquer de tirar a sorte para escolher alguém, é citada do poema narrativo português, precursor do cordel brasileiro, "Romance da Nau Catarineta", que no Sul ganhou melodia e era cantado no "fandango" até o final do século XIX.
(Lucia Welt)
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Leda e o Cisne (de Alma Welt )

Leda e o Cisne, de Paul Prosper Tillier, 1860
Decidi experimentar volúpia nova
E encarnar princesas mitológicas
Acolhendo as entidades pouco lógicas
Em que Zeus transfigurado punha à prova
A doce e embevecida prontidão
Em tê-lo entre as coxas bem no meio
Ou como chuva de ouro no meu seio
Mesmo que ensopasse meu colchão.
Assim comecei pelo meu cisne
Que ganhara de meu pai, enternecida
Por sua beleza branca enaltecida
Em que senti das plumas como seda
Emergir rubro arpão sem que me tisne
As pétalas e encantos, como Leda...
(sem data)
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Das tentações (de Alma Welt)
"Deitam sortes à ventura qual se havia de matar.
Logo foi cair a sorte no capitão general."
(Romance da Nau Catarineta)
A superfície do papel em branco
Sempre me convida à aventura
Não numa espécie de colóquio franco
Já que nela “deito sortes à ventura”
Como diziam os antigos navegantes,
Aqueles da Nau Catarineta,
Que viram a tentação um pouco antes
Do capitão saltar essa mureta.
Pois entre o espírito e o papel
Há todo um oceano de tensões
Antes das palavras em tropel.
No perigoso mar desta brancura
Assim também sofro as tentações,
Quando a mente namora sua loucura...
11/08/2006
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na arca da Alma, a meu ver digno de figurar nas melhores antologias do soneto universal, principalmente entre os de teor metafísico, ou os que abordam a própria arte de escrever poesia. (Lucia Welt)
Logo foi cair a sorte no capitão general."
(Romance da Nau Catarineta)
A superfície do papel em branco
Sempre me convida à aventura
Não numa espécie de colóquio franco
Já que nela “deito sortes à ventura”
Como diziam os antigos navegantes,
Aqueles da Nau Catarineta,
Que viram a tentação um pouco antes
Do capitão saltar essa mureta.
Pois entre o espírito e o papel
Há todo um oceano de tensões
Antes das palavras em tropel.
No perigoso mar desta brancura
Assim também sofro as tentações,
Quando a mente namora sua loucura...
11/08/2006
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na arca da Alma, a meu ver digno de figurar nas melhores antologias do soneto universal, principalmente entre os de teor metafísico, ou os que abordam a própria arte de escrever poesia. (Lucia Welt)
domingo, 25 de janeiro de 2009
Cassandra (de Alma Welt)
Meu sonho de guria era real:
Eis-me aqui, poeta em plenitude.
Mas ao vivê-lo, eu vejo quão fatal
É ter um sonho chegado à completude!
Posso enxergar em mim, o dom das Parcas,
Meu Presente, Passado, e meu Futuro,
E neste, pouco além, meu próprio Muro,
Que dos três na palma tenho as marcas.
Mas, bah! por justamente tudo ver,
Muito embora por todos sendo amada,
É que é maior a dor de se viver...
Pois meu dom é ironia do Destino:
No cerne do meu ser (que desatino!)
Cassandra de mim mesma... ignorada.
08/12/2006
Eis-me aqui, poeta em plenitude.
Mas ao vivê-lo, eu vejo quão fatal
É ter um sonho chegado à completude!
Posso enxergar em mim, o dom das Parcas,
Meu Presente, Passado, e meu Futuro,
E neste, pouco além, meu próprio Muro,
Que dos três na palma tenho as marcas.
Mas, bah! por justamente tudo ver,
Muito embora por todos sendo amada,
É que é maior a dor de se viver...
Pois meu dom é ironia do Destino:
No cerne do meu ser (que desatino!)
Cassandra de mim mesma... ignorada.
08/12/2006
domingo, 18 de janeiro de 2009
Abadia na floresta de carvalhos, de Caspar David Friedrich ( de Alma Welt)

Abadia na floresta de carvalhos, de Caspar David Friedrich 1774-1840
Aqui estive eu, nesta abadia
Em ruínas em meio aos desgalhados
E retorcidos carvalhos de agonia
Entre túmulos esparsos, semeados.
Andei com estes monges no seu frio,
E conheço a solidão destas paragens,
Tão longe dos sonhos que ainda crio,
Tão próxima da Morte em sua imagem.
De nós mesmos, da terra e do ar
(não há o que dizer, o que cantar),
Aqui o silêncio vem de dentro.
Eu vi o portal que ainda me espera
E por onde passarei à outra esfera
Para atingir do Mistério o pleno centro...
Alma Welt
(sem data)
A Ilha dos Mortos de Boecklin (de Alma Welt)

A Ilha dos Mortos- pintura célebre de Arnold Boecklin 1827-1901, uma das cinco versões que o pintor fez desse tema.
A Ilha dos Mortos de Boecklin (de Alma Welt)
Não pare de remar, ó meu barqueiro!
Faça jus à soma que lhe pago,
Não hesite perante o nevoeiro
Que já desce saudando o que aqui trago.
Ajude-me também co’este caixão
Pois sozinha não poderei plantá-lo
Num nicho desta ilha em solidão
Com somente minha dor a acompanhá-lo.
Ilha Fatal, eis que sou tripla refém,
De pé na proa, como tu a me alçar
Das águas que ousei atravessar
Desse Letes obscuro em que vogamos,
Com meu próprio caixão que me contém,
Nós três: um só, no barco que remamos...
18/01/2007
Nota
Acabo de descobrir este soneto na arca da Alma e que pela data foi escrito na antevéspera da morte da Poetisa. De profundo teor alegórico-metafísico, Alma parece ter interpretado o famoso quadro do Boecklin, que lhe inspirou o soneto, com o barqueiro, a figura de pé na proa e mais o morto dentro do caixão como sendo três faces do mesmo ser: o morto que chega por seus próprios meios à Ilha da Solidão. (Lucia Welt)
domingo, 7 de setembro de 2008
O sentido da vida (de Alma Welt)
Quantas vezes em silêncio me pergunto
O sentido de estarmos neste mundo
Embora tal pergunta seja assunto
Dos filósofos em seu labor profundo...
Que por sinal não chegaram a um acordo
Já que tudo permanece misterioso:
A vida, a morte, a dor, o riso e o gozo,
A cotovia e o rouxinol... e ainda o tordo.
Mas, ai de mim, de nós, da humanidade!
Como cegos tateamos sob o céu
E, laboriosos, erigimos a cidade
Como outrora a grande torre de Babel
(da qual perpetuamos arremedos),
Orgulhoso monumento aos nossos medos.
12/04/2006
Notas
*...A cotovia e o rouxinol... - este curioso verso é uma graciosa alusão ao famoso diálogo de Romeu e Julieta ao despertar de sua noite de núpcias, lá como aqui exemplo das dúvidas que o amor suscita como ingênua artimanha para perpetuar-se. Quanto ao adendo "e ainda o tordo", além de boa rima trata-se de uma maneira hábil poeticamente de sugerir que tudo, toda a natureza, é um mistério.
*Orgulhoso monumento aos nossos medos- A torre de Babel, considerada um símbolo universal do orgulho humano, é aqui associada ao Medo, o que me parece bastante sutil.(Lucia Welt)
O sentido de estarmos neste mundo
Embora tal pergunta seja assunto
Dos filósofos em seu labor profundo...
Que por sinal não chegaram a um acordo
Já que tudo permanece misterioso:
A vida, a morte, a dor, o riso e o gozo,
A cotovia e o rouxinol... e ainda o tordo.
Mas, ai de mim, de nós, da humanidade!
Como cegos tateamos sob o céu
E, laboriosos, erigimos a cidade
Como outrora a grande torre de Babel
(da qual perpetuamos arremedos),
Orgulhoso monumento aos nossos medos.
12/04/2006
Notas
*...A cotovia e o rouxinol... - este curioso verso é uma graciosa alusão ao famoso diálogo de Romeu e Julieta ao despertar de sua noite de núpcias, lá como aqui exemplo das dúvidas que o amor suscita como ingênua artimanha para perpetuar-se. Quanto ao adendo "e ainda o tordo", além de boa rima trata-se de uma maneira hábil poeticamente de sugerir que tudo, toda a natureza, é um mistério.
*Orgulhoso monumento aos nossos medos- A torre de Babel, considerada um símbolo universal do orgulho humano, é aqui associada ao Medo, o que me parece bastante sutil.(Lucia Welt)
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
O espelho do ser (de Alma Welt)
Hoje olhei no espelho e vi meu ser,
Quero dizer, a face minha oculta,
Aquela que costuma se esconder
E que não pertence à vida culta:
O ser primevo, o mito primitivo,
Eco primal do grito, não vagido,
Que o homem lançou e foi ouvido
Pela Natura num recuo intuitivo.
Eis o animal de Deus marcado
C’o sinal de distinção no fundo olhar,
Na fronte ereta onde repousa o fado!
E ao mirar assim meus belos olhos
Na profunda superfície dos abrolhos,
Tive medo de mim como de um mar...
(sem data)
Quero dizer, a face minha oculta,
Aquela que costuma se esconder
E que não pertence à vida culta:
O ser primevo, o mito primitivo,
Eco primal do grito, não vagido,
Que o homem lançou e foi ouvido
Pela Natura num recuo intuitivo.
Eis o animal de Deus marcado
C’o sinal de distinção no fundo olhar,
Na fronte ereta onde repousa o fado!
E ao mirar assim meus belos olhos
Na profunda superfície dos abrolhos,
Tive medo de mim como de um mar...
(sem data)
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Não cantarei de amor... (de Alma Welt)
Não cantarei de amor mais do que o faço
Ao contar a saga do meu ego
E as estrepolias com que traço
Meu rumo e o sonho a que me entrego
Ao simplesmente viver a minha vida
Com toda a intensidade da alegria
E a louca intimidade compartida
Com tantos (que jamais me encolheria).
Assim, cantando-me a mim mesma,
Ouvi alhures: “Ah! Ególatra sublime...”
Como se isso fora um abantesma...
Até (pasmem!) compreender que ao fazê-lo
Meus versos pertenciam a certo time
Que tem em Wordsworth seu modelo...
06/02/2004
Ao contar a saga do meu ego
E as estrepolias com que traço
Meu rumo e o sonho a que me entrego
Ao simplesmente viver a minha vida
Com toda a intensidade da alegria
E a louca intimidade compartida
Com tantos (que jamais me encolheria).
Assim, cantando-me a mim mesma,
Ouvi alhures: “Ah! Ególatra sublime...”
Como se isso fora um abantesma...
Até (pasmem!) compreender que ao fazê-lo
Meus versos pertenciam a certo time
Que tem em Wordsworth seu modelo...
06/02/2004
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Odisseu (de Alma Welt)
"Somos para a Morte", disse alguém,
E desde então eu me pus a meditar,
Coisa inusitada para quem
Todas as dádivas vieram se somar.
A beleza é vã, efêmera, fugaz,
Diz Matilde, o que a Mutti já dizia,
E eu desconfio que apesar de pertinaz,
Tal pensamento deriva da apatia.
Ah! Odisseu, meu grego predileto,
Que disseste (e por isso foste honrado)
O quê é o homem? Cabal, doido completo
Que se acaba com um simples resfriado
E que no entanto, aqui como em Elêusis,
É capaz de afrontar os próprios deuses!
09/07/2006
E desde então eu me pus a meditar,
Coisa inusitada para quem
Todas as dádivas vieram se somar.
A beleza é vã, efêmera, fugaz,
Diz Matilde, o que a Mutti já dizia,
E eu desconfio que apesar de pertinaz,
Tal pensamento deriva da apatia.
Ah! Odisseu, meu grego predileto,
Que disseste (e por isso foste honrado)
O quê é o homem? Cabal, doido completo
Que se acaba com um simples resfriado
E que no entanto, aqui como em Elêusis,
É capaz de afrontar os próprios deuses!
09/07/2006
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Poetas! meus irmãos... (de Alma Welt)
Poetas! meus irmãos, lhes agradeço
A existência imensa que transbordam
Para esta Alma aqui em seu começo
De mundo, e da obra que me acordam
Pois que, poeta ergui-me, por quê não?
Me deram seu tesouro ainda pequena
Com sua magia que logo me fez plena
De riquezas, malgrado a solidão.
E agora, ombreando, lado a lado,
Não contenho meu orgulho como par
Deste reino de prazer puro e alado
Mas também de dor pungente e inaudita
Cuja volúpia está em se cantar
A beleza do homem em sua desdita...
29/11/2006
A existência imensa que transbordam
Para esta Alma aqui em seu começo
De mundo, e da obra que me acordam
Pois que, poeta ergui-me, por quê não?
Me deram seu tesouro ainda pequena
Com sua magia que logo me fez plena
De riquezas, malgrado a solidão.
E agora, ombreando, lado a lado,
Não contenho meu orgulho como par
Deste reino de prazer puro e alado
Mas também de dor pungente e inaudita
Cuja volúpia está em se cantar
A beleza do homem em sua desdita...
29/11/2006
domingo, 27 de julho de 2008
Dúbios domingos (de Alma Welt)
Tenho com os domingos dúbia liga
Pois embora ensolarados em essência
Me fazem ver do Tempo a vã carência
E a tal fugacidade, ó minha amiga.
A contagem domingueira se revela
Ultimamente regressiva e voraz
Embora eu seja jovem, viva e bela,
Já me vejo saudosa a olhar pra trás.
Eis que me sinto assim contemplativa,
Que nunca fui alguém que muito chore,
E me ponho a vagar como uma diva
A colher florzitas como a Core
No seio claro desta natureza viva
Antes que o escuro solo me devore.
28/11/2006
Pois embora ensolarados em essência
Me fazem ver do Tempo a vã carência
E a tal fugacidade, ó minha amiga.
A contagem domingueira se revela
Ultimamente regressiva e voraz
Embora eu seja jovem, viva e bela,
Já me vejo saudosa a olhar pra trás.
Eis que me sinto assim contemplativa,
Que nunca fui alguém que muito chore,
E me ponho a vagar como uma diva
A colher florzitas como a Core
No seio claro desta natureza viva
Antes que o escuro solo me devore.
28/11/2006
quinta-feira, 26 de junho de 2008
O recurso Münchhausen (de Alma Welt)

Ilustração de Gustave Doré para As Aventuras do Barão de Münchhausen.
Como viver depois de ter vivido
Não o amor mas horror do coração
Após golpe, desonra, humilhação
Ou violação da carne sem sentido?
Como viver com o sonho desfeito
Do que era a própria imagem do viver?
Cair das nuvens ou mesmo desse leito
Onde se foi feliz, e não morrer?
Bah! Há que puxar-se por cabelos
Da alma como o lance do barão
Que afundava só e sem apelos
No poço de uma movediça lama,
E com o baio magro da razão
Alçar-se bem acima dessa cama!
08/03/2002
segunda-feira, 16 de junho de 2008
O fio da navalha (de Alma Welt)
Quando penso nos lances que vivi,
Vejo que já estavam em meu destino
E ao passar por eles revivi
Um trajeto antigo e muito fino:
Uma espécie de fio de uma navalha
Em que caminhamos entre abismos
Para subir ao Olimpo ou ao Walhalla
Ou alguns que tais paroxismos.
E depois do caminho percorrido
Quase divididos pelo fio
Chegamos ao plano prometido
Um enorme e belo prado ondulado
Pelo Letes cortado, aquele rio,
E teremos a nós mesmos alcançado.
09/06/2006
Vejo que já estavam em meu destino
E ao passar por eles revivi
Um trajeto antigo e muito fino:
Uma espécie de fio de uma navalha
Em que caminhamos entre abismos
Para subir ao Olimpo ou ao Walhalla
Ou alguns que tais paroxismos.
E depois do caminho percorrido
Quase divididos pelo fio
Chegamos ao plano prometido
Um enorme e belo prado ondulado
Pelo Letes cortado, aquele rio,
E teremos a nós mesmos alcançado.
09/06/2006
segunda-feira, 10 de março de 2008
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Paradoxo (de Alma Welt)
Meus sonhos, eu sei, persistirão
Bastando que eu os ponha no soneto:
Pensamento e palavra em comunhão
A partir de um impulso ou um moteto.
Ficarão eternizados se eu quiser
Meus minutos sagrados de existência,
Mas isso ocorrerá só se eu tiver
Capturado o tom e a essência
De cada aparente vão momento
Que a tantos escorrem pelos dedos
Ou caem pelos vãos do pensamento.
Registrar cabe ao poeta, na verdade,
No poema até mesmo enganos ledos
Como a própria ilusão de eternidade...
05/12/2006
Este hábil e curioso soneto que por sabedoria sugere o paradoxo da função do artista, foi encontrado inédito recentemente na arca da Alma, e não compreendo como ela não o publicou no LL ou no RL, pois é exemplar de seu pensamento idealista e profundo. (Lucia Welt)
Bastando que eu os ponha no soneto:
Pensamento e palavra em comunhão
A partir de um impulso ou um moteto.
Ficarão eternizados se eu quiser
Meus minutos sagrados de existência,
Mas isso ocorrerá só se eu tiver
Capturado o tom e a essência
De cada aparente vão momento
Que a tantos escorrem pelos dedos
Ou caem pelos vãos do pensamento.
Registrar cabe ao poeta, na verdade,
No poema até mesmo enganos ledos
Como a própria ilusão de eternidade...
05/12/2006
Este hábil e curioso soneto que por sabedoria sugere o paradoxo da função do artista, foi encontrado inédito recentemente na arca da Alma, e não compreendo como ela não o publicou no LL ou no RL, pois é exemplar de seu pensamento idealista e profundo. (Lucia Welt)
sábado, 19 de janeiro de 2008
Profissão de fé (de Alma Welt)
Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada;
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva,
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada;
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva,
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Da verdade irredutível do ser (de Alma Welt)
Às vezes penso que fui longe demais
Em contar tudo, tudo o que me vem
Na mente, na vida, e muito mais,
Porque sempre se pode ir além...
Pois tudo o que dizemos nos pertence
E sai dentro de nós e é verdade,
Não há como dizer “isto me vence”,
É tudo parte da nossa liberdade
De optar, apreender, reter, assimilar,
Que de nossa escolha nasce e raia
O ser que, construído, vamos dar
Ao mundo, ao outro, a quem se importe,
Àqueles a quem formos dar à praia
Como náufragos que somos para a Morte!
13/01/2007
Em contar tudo, tudo o que me vem
Na mente, na vida, e muito mais,
Porque sempre se pode ir além...
Pois tudo o que dizemos nos pertence
E sai dentro de nós e é verdade,
Não há como dizer “isto me vence”,
É tudo parte da nossa liberdade
De optar, apreender, reter, assimilar,
Que de nossa escolha nasce e raia
O ser que, construído, vamos dar
Ao mundo, ao outro, a quem se importe,
Àqueles a quem formos dar à praia
Como náufragos que somos para a Morte!
13/01/2007
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Metempsicoses (de Alma Welt)
___________________________________
Nota da editora:
Os números nos versos correspondem a notas explicativas talvez necessárias devido ao caráter pessoal, obscuro ou demasiado erudito a que se referem.
Tive de convencer, com certa dificuldade, a nossa poetisa a aceitar que eu agregasse estas notas explicativas sobre alguns versos deste novo ciclo de sonetos. Alma argumentou que eles eram mesmo para os “iniciados”, e que seu caráter íntimo e até mesmo esotérico, praticamente exigia que se mantivessem restritos a um público mais culto, ou mesmo erudito, como parece ter sido a intenção, por exemplo, de Dante ao escrever a sua “Divina Comédia’. Não havia a intenção de facilitar o entendimento, mas, ao contrário, de ocultar, despistar, nublar, e alimentar o mistério.
Finalmente, Alma concordou que eu juntasse estas notas, talvez supérfluas, para que um público mais amplo possa desfrutar de suas pérolas, e também de seus devaneios. A poetisa tende a acreditar que exegetas do futuro se debruçarão sobre sua obra. Eu também acredito. Mas como editora quero, desde já, que um maior número de seus leitores e fãs aproveitem o seu rico pensamento, que parece transitar entre tantos séculos, como ela insinua nestes sonetos.
METEMPSICOSES
Prólogo
1
Alma sou, em minha viagem tão antiga 1
Pelos corpos de pintoras e pintores,
Poetisas também, ó minha amiga,
Que em Safo conheci os meus amores! 2
Neste ciclo contarei como fui bela 3
E os motivos que tenho pra cantar;
Direi como vim até Florbela 4
E a nossa obsessão de tanto amar.
Depois, como cheguei neste meu Pampa 5
Para, em plenitude, ser só Alma,
“La Welt”, sim, subindo a rampa,
Que nesta “Paulicéia” encontro calma
Para compor meus quadros e meus versos,
Nestes Jardins, afinal tão controversos.
*Notas da editora:
(1) Alma, como muitos artistas, crê na Metempsicose, isto é, a transmigração das almas, no sentido platônico. A necessidade ( Ananke) das almas viverem sucessivas encarnações (dez ciclos de mil anos, segundo Platão e o Orfismo), afim de recuperarem as asas e voltarem ao Empíreo (a morada dos deuses e das almas purificadas).
(2) Alma se inspira em Safo, a grande poetisa lírica da ilha de Lesbos. Tem motivos para crer ser ela uma de suas encarnações.
(3) Alma mantém neste ciclo de sonetos o seu achado único de contar estórias através de de sua seqüência.
(4) Alma crê ter sido também Florbela Espanca, no início do século XX, a grande lírica e amorosa portuguesa, grande mestra do soneto.
(5) “La Welt” - expressão usada por um seu amigo que vê nela, desde já, uma futura celebridade, com sua vocação indisfarçável para diva. “Subindo a rampa” : subindo para o planalto de São Paulo, ou para um estágio superior em sua carreira de artista.
Transmigrações I
2
Com Renina exercitei-me no anagrama
Para enfim encontrar o De Faria, 6
O pintor que mostrou quanto me ama
Retirando meu navio da calmaria.
E agora, calma, plena, amando Buda,
Posso passar a limpo o meu destino
Contado a partir da monja Guda 7
(mulher de pincelzinho muito fino),
Como transmigrei por belas vidas
Escolhendo primeiro as artesãs
Que transcenderam, para além dos seus afãs
E muito amaram sem deixar as suas lidas
De poetas e pintoras aguerridas,
Que agora colhem louros, novos fãs.8
Notas:
(6) De Faria (Guilherme de Faria), o artista plástico e poeta de cordel que descobriu Alma, lançou-a e que a prefacia, sendo também seu maior amigo em São Paulo. “... retirando meu navio da calmaria”- Guilherme descobriu Alma muito quieta em seu ateliê paulista, e atirou-a numa roda-viva ao descobrir sua obra literária inédita.
(7) A poetisa cita aqui a sua encarnação do ano 950, Guda, Monja que assina (em latim), pela primeira vez, um códice, obra prima de iluminuras pintadas por ela.
(8) Tendo sido relacionadas, finalmente, por pesquisadoras feministas, no séculoXX , um rol de grandes mulheres artistas renasce para a fama, conquistando fãs, a partir de data recente. Algumas já se tornam “cults”, como Florbela Espanca (séc. XX), e Artemísia Gentileschi (séc. XVII).
Transmigrações II
3
No “Claris mulieribus” já constava 9
E Boccacio revelou minha passagem;
No quatorze, portanto, já pintava,
E o poeta poupou-me sacanagem.
Sofonisba fui no dezesseis 10
E a angústia da Anguissola experimentei
Mas no “Jogo de xadrez” realizei
A obra que afinal reconheceis.
Como Artemísia, Agostino me estuprou 11
E sua calúnia em parte procedia,
Todavia fui eu quem prosperou.
A Sirani, minha serva a envenenou, 12
Não antes que pintasse imensa obra,
Aos vinte e sete, que em Alma ainda cobra.
Notas:
(9) “Claris mulieribus”, obra de Giovanni Boccacio, que recolhe 104 biografias de mulheres e que destaca um grupo de pintoras.“... o poeta poupou-me sacanagem) – Alma parece querer dizer que uma encarnação sua está entre estas biografias, que se distanciam do caráter malicioso da abordagem das mulher na obra mais famosa de Boccacio, o “Decameron”, recheada de divertidas passagens pornográficas.
(10) Sofonisba Anguissola (1528 –1628), grande pintora do Renascimento, que ficou cega aos sessenta anos, e que foi mestra de Van Eyk ( segundo depoimento deste). Sua obra “Jogo de Xadrez”, que representa um grupo de mulheres jogando, foi considerada uma obra-prima do gênero, naquela época.
(11) Artemísia Gentileschi ( 1593-1652), revela um “pathos”em sua obra,toda ela tematicamente comprometida com temas sanguinários, de personagens masculinos sendo mortos por mulheres heroínas (Judith e Holofernes) depois de terem sido estupradas, ou mulheres acuadas por homens (Susana e os velhos). Tais temas parecem exercer uma função catártica na vida de Artemísia, que foi ela própria violentada aos dezessete anos por um condiscípulo (Agostino Tassi) de seu pai Orazio Gentileschi, e que ainda caluniou a estes, em juizo, atribuindo-lhes uma relação incestuosa entre pai e filha. Artemísia foi torturada na inquirição do processo.
(12) Elisabetta Sirani (1638-1665), grande pintora e gravadora do século XVII , que fundou uma escola para pintoras, em Bolonha, e que parece ter sido envenenada por uma criada, morrendo aos vinte e sete anos, mas deixando imensa obra. Alma sugere que esta encarnação cobra a ela que pinte muito, igualmente.
Transmigrações III
4
Antes da Anguissola, Bianca fui, 13
Capello, com a fama de fatal,
Que minha inocência não polui,
Mas ainda me confunde como tal.
Mas foi no dezenove que revi
Essa minha natureza em plenitude,
Transformando essa pecha em virtude,
Talento e beleza da D’Affry 14
Que me foi revelada no Foyer
Quando defrontei-me com a “Pythie”
Como algo que afinal reconheci.
E pude então amar o Jean-Baptiste 16
Como já o fizera no ateliê,
Tornando-o feliz... e logo triste.
Notas:
(13) Bianca Capello, “femme-fatale” veneziana, do século XVI, casou-se com Francesco de Médici, mas tinha sido suspeita de envenenar o primeiro marido.
(14) Adèle D’Affry, duquesa Castiglione-Colonna (1836-1879), a maior escultora do século XIX, além de pintora e desenhista. Considerava-se uma encarnação de Bianca Capello. Assinava “Marcello”, pseudônimo masculino para não ser discriminada no Salon de Paris. Sua “Pithie” (em francês pronuncia-se Pissí, daí a rima no soneto da Alma) é sua obra-prima, uma espécie de auto-retrato mítico, que ostenta serpentes nos cabelos, como a Medusa, e que tem significado obscuro, mas decifrado pela própria Alma na sua novela “Perséfone”, onde ela revela como descobriu esta sua encarnação passada. Novela notável, e misteriosa, ainda inédita.
(15) A obra “Pithie”, assinada “Marcello”, encontra-se num nicho do Grand Foyer do Opéra de Paris, adquirida por Jules Garnier (arquiteto do Opéra), no Salon de 1870, para ser colocada ali. Alma conta em sua novela “Perséfone” como defrontou-se pela primeira vez com a escultura neste saguão por ocasião da estréia de uma montagem da ópera Carmen, descobrindo a sua relação com a a grande escultora da belle-époque.
(16) Jean-Baptiste - Aqui Alma se refere ao personagem de sua novela Perséfone, que seria, por sua vez, uma reencarnação de Jean-Baptiste Carpeaux, (1827-1875) o grande escultor francês, que foi amigo de Adèle, e que presumivelmente a amou.
Musas
5
Aline, alma minha, outras urdem 17
Teu destino atual, aquelas musas:
Hébuterne, Siddal, Jane Burden,
Devo em ti encontrá-las, pois, difusas.
Amadas dos pintores, sois maiores,
Eternisadas em beleza pelas tintas
Que não morrem, como morrem os amores
E as belas carnes que a natureza pinta.
Pintei-te, bela e nua, ao meu lado, 18
Assim eternizando a juventude,
Duplo retrato nosso foi plasmado!
E ainda confundi nossos metiês, 19
A paleta no meio, como vês,
Para enfatizar a completude...
Notas:
(17) Alma insinua com este verso, que Aline também é reencarnação de várias musas de pintores, como as citadas Jeanne Hébuterne (mulher de Modigliani), Elisabeth Siddal modelo e esposa do pintor e poeta “pré-rafaelita” (escola pictórica inglesa do séc. XIX) Dante Gabriel Rossetti, que continuou a cantá-la em verso e pintura depois de sua morte prematura, por toda a sua vida; e finalmente Jane Burden, nome de solteira de Jane Morris, que, modelo do pintor também pré-rafaelita inglês William Morris, continuou seu modelo depois de casada com ele, e cujo rosto é o de todos os personagens femininos de sua pintura.
(18) Neste verso, Alma se refere à pintura por ela feita, um duplo retrato dela e Aline nuas ladeando um cavalete com uma tela que reproduz a mesma cena, com insinuação do espelhamento infinito. O quadro original não existe mais, pois foi destruído, num acesso de ciúme por Pedro, ex-namorado de Aline. No entanto, pela descrição da obra feita por Alma ao pintor Guilherme de Faria, este reproduziu-a conforme sua imaginação, produzindo uma tela de 100x100cm que foi premiada numa exposição no MUBE, em São Paulo em 2003. A obra de Guilherme e Welt está reproduzida na capa do CD “Sonetos da Alma”, gravado pelo pintor co acompanhamentos de piano e orquestra, dos grandes românticos como Chopin, Liszt, Shumann, Shubert, etc.
(19) Na pintura mencionada, o duplo retrato de Alma e Aline descrito no soneto 12 do ciclo “Sonetos da Alma”, gravado em CD com leitura de Guilherme de Faria, a paleta colorida de Alma está no chão , no centro, aos pés do cavalete,ladeado pelas duas moças em nu frontal, produzindo uma ambigüidade e a pergunta:‘‘...qual a pintora?”
Saga
6
Voltei, reconciliei-me com a estância 20
Onde sei que enfim renascerei,
Aqui, onde amei Rodo em minha infância
Sob a égide do Vati, que era o rei.
Para aqui trouxe Aline, minha amada,
Encontrando afinal a perfeição
Depois das agruras da jornada
Que encerrou-me, uma noite, na prisão 21
Tinha encontrado a safra inesperada, 22
Perdi-a, encontrei novo tesouro,
Salvei a terra, o jardim e a morada.
Que mais viver, o que esperar, ó minha vida?
A cada dia, a passagem enriquecida...
Como mais amar, ó coração?
Notas:
(20) Essa volta é o começo do romance autobiográfico A Herança, de Alma Welt.
(21) Na segunda parte do romance A Herança, denominada “A Ara dos Pampas”, consta uma cena onde Alma, indiciada, passa uma noite na cadeia, antes de começar o processo.
(22) No romance, Alma conta como encontrou uma safra de dez mil garrafas de um vinho de quarenta anos, deixada pelo seus avós como a herança material que salvará a estância de suas dívidas acumuladas.
Doação
7
Dou a luz poemas e pinturas,
Aline, perdoa-me, queres mais:
Um filho, eu sei ( ó criaturas,
eu as vejo e sei o quanto amais!) 23
Vejo o teu, o nosso filho, como é lindo!
Por isso resolvi estar dormindo 24
Enquanto colhas a semente noutra parte,
Para, com o nosso amor, engravidar-te.
E então ver o teu ventre assim crescendo,
Com a minha ternura e o meu desvelo,
A trama do Destino entretecendo
De uma nova guirlanda, “more and more”
Esperando, ansiando já, por vê-lo,
Sabendo o coração ainda maior.
Notas:
(23) Alma, como artista, parece ter um certo afastamento contemplativo, mas reconhece e até compartilha a necessidade que vê em Aline de ter um filho, e antecipa esse olhar sobre a cena maternal, nesse curioso verso.
(24) A artista sugere aqui algo espantoso: Aline teria se deitado com Rôdo, irmão de Alma, com ela presente no mesmo quarto (no mesmo leito?), enquanto Alma fingia dormir, para que Aline pudesse conceber uma criança, que elas criarão juntas.
Celta
8
E eis que narrei a minha saga
Nesta passagem pelo vinte e vinte e um 25
Nada fiquei devendo àquela maga
Que fui, chamada Deirdre, não Gudrun, 26
E que, druidisa, já queimava
As ervas ainda úmidas de orvalhos,
E que colher o visgo dos carvalhos
A plena permissão muito me honrava. 27
Nesta minha atual vivência em corpo
O tive invadido, torturado
Por duas vezes, entre amores, violado. 28
E ainda sou vestal da minha alma
Pura, em meu desejo desfrutado,
Nutrindo o coração, que não se acalma.
Notas:
25)Alma vê a sua vida, com razão, como uma saga nesta sua “passagem” pelo final do século XX e começo do XXI. Mas suas reminicências de outras vidas remetem-na, nestes versos, a uma misteriosa druidisa, Deirdre.
(26) Deirdre, quer dizer “filha da Irlanda”, em língua gaélica. Não pudemos conferir a existência real de tal personagem, mas as palavras “...e não Gudrun”, parecem confirmar a surpresa da própria Alma em não se tratar de uma donzela germânica, mas celta.
(27) Este verso sugere que as druidisas eram raras, talvez excepcionais, e que necessitavam de permissão especial do Conselho dos Druidas (quase sempre anciãos), para colher o visgo, “com a foice de ouro”.
(28) Este “salto” no tempo, que Alma realiza nestes versos, mencionando dois momentos de violência que sofreu nesta sua atual encarnação, querem reforçar a convicção de sua pureza anímica, que a confirma nessa persistente natureza de sacerdotisa (vestal), pítia ou pitonisa em outros momentos.
Profissão de fé
9
Amores meus, mananciais da minha vida,
Afluentes de um rio imponderável,
Vinde todos a mim, deixai a lida
Por momentos, e tomai-me, insaciável.
Como é belo viver assim tomada,
Possuída, cantando Arte e Amor!
Não me venham, pois, com a maçada
Dos trabalhos e os dias, e o rancor. 29
Não me falem de metas e carreiras,
Dos vulgares conceitos deste século,
Da social questão, e das barreiras!
Que tenho eu, Alma, com esse mundo
Que vejo tão somente pelo espéculo 30
De um olhar de artista, mais profundo?
Notas:
(29) “... Os trabalhos e os dias”, esta expressão nos remete ao título da famosa obra poética de Hesíodo, mas a palavra “maçada” (aborrecimento) anterior, e “rancor” (em seguida), muda-lhe o sentido, sugerindo a idéia de tédio, do cotidiano.
(30) A palavra “espéculo”, aqui (além de rimar com “século”), pela primeira vez no vocabulário da Alma, é particularmente interessante por derivar de um aparelho médico de exame das partes íntimas, que o seu pai , o cirurgião Dr. Werner, tinha em casa, e que causava impressão na menina Alma, ao mesmo tempo que de grande riqueza etimológica, nos remete a “speculum” ( espelho) e também à sua derivada “especulação”.
Epílogo
10
Fechem-se as cortinas, por enquanto, 31
Caia o pano, pelo menos neste ato
Saio de cena, o rosto sob um manto,
Na coxia aguardando o entreato.
É quando percebo o improviso 32
De minha vida, sem roteiro, sem destino:
Vou construindo a peça em meio ao riso
E os aplausos de um público ladino 33
Que comovido, vislumbra nesta atriz
A marca da Bernhardt, ou Plissetskaya, 34
Pela ardência da paixão, e pede bis,
E volto, então, ao palco, deslumbrada
Pelas palmas, malgrado a pateada
Dos tolos... que preferem tola vaia. 35
FIM
Notas:
(31) Alma quer interromper o fluxo constante de suas experiências espirituais, como para um balanço, que ela compara a um entreato ou intermezzo musical.
(32) Alma pondera que o “destino” é construído constantemente numa espécie de perpétuo improviso, não estando portanto pré-escrito, o que coincide com o conceito do “livre arbítrio” , que confere valor individual às vidas.
(33) Alma , com ingênua astúcia, bem feminina lisongeia o publico que a aplaude, chamando-o de “ladino” (esperto), por saber apreciá-la...
(34) Alma sonha com um público culto, que a compara à célebre atriz Sarah Bernhardt (1844-1923), e com a grande bailarina russa Maya Plissetskaya, que, ela própria bailarina (vide o conto Pas-de deux,, dos “Contos da Alma”), considera uma deusa .
(35)Alma, como boa artista, descarta os possíveis opositores de sua arte, como tolos. Mas faz isso com candura e humor, como é de sua índole.
_____________________________________
Nota da editora:
Os números nos versos correspondem a notas explicativas talvez necessárias devido ao caráter pessoal, obscuro ou demasiado erudito a que se referem.
Tive de convencer, com certa dificuldade, a nossa poetisa a aceitar que eu agregasse estas notas explicativas sobre alguns versos deste novo ciclo de sonetos. Alma argumentou que eles eram mesmo para os “iniciados”, e que seu caráter íntimo e até mesmo esotérico, praticamente exigia que se mantivessem restritos a um público mais culto, ou mesmo erudito, como parece ter sido a intenção, por exemplo, de Dante ao escrever a sua “Divina Comédia’. Não havia a intenção de facilitar o entendimento, mas, ao contrário, de ocultar, despistar, nublar, e alimentar o mistério.
Finalmente, Alma concordou que eu juntasse estas notas, talvez supérfluas, para que um público mais amplo possa desfrutar de suas pérolas, e também de seus devaneios. A poetisa tende a acreditar que exegetas do futuro se debruçarão sobre sua obra. Eu também acredito. Mas como editora quero, desde já, que um maior número de seus leitores e fãs aproveitem o seu rico pensamento, que parece transitar entre tantos séculos, como ela insinua nestes sonetos.
METEMPSICOSES
Prólogo
1
Alma sou, em minha viagem tão antiga 1
Pelos corpos de pintoras e pintores,
Poetisas também, ó minha amiga,
Que em Safo conheci os meus amores! 2
Neste ciclo contarei como fui bela 3
E os motivos que tenho pra cantar;
Direi como vim até Florbela 4
E a nossa obsessão de tanto amar.
Depois, como cheguei neste meu Pampa 5
Para, em plenitude, ser só Alma,
“La Welt”, sim, subindo a rampa,
Que nesta “Paulicéia” encontro calma
Para compor meus quadros e meus versos,
Nestes Jardins, afinal tão controversos.
*Notas da editora:
(1) Alma, como muitos artistas, crê na Metempsicose, isto é, a transmigração das almas, no sentido platônico. A necessidade ( Ananke) das almas viverem sucessivas encarnações (dez ciclos de mil anos, segundo Platão e o Orfismo), afim de recuperarem as asas e voltarem ao Empíreo (a morada dos deuses e das almas purificadas).
(2) Alma se inspira em Safo, a grande poetisa lírica da ilha de Lesbos. Tem motivos para crer ser ela uma de suas encarnações.
(3) Alma mantém neste ciclo de sonetos o seu achado único de contar estórias através de de sua seqüência.
(4) Alma crê ter sido também Florbela Espanca, no início do século XX, a grande lírica e amorosa portuguesa, grande mestra do soneto.
(5) “La Welt” - expressão usada por um seu amigo que vê nela, desde já, uma futura celebridade, com sua vocação indisfarçável para diva. “Subindo a rampa” : subindo para o planalto de São Paulo, ou para um estágio superior em sua carreira de artista.
Transmigrações I
2
Com Renina exercitei-me no anagrama
Para enfim encontrar o De Faria, 6
O pintor que mostrou quanto me ama
Retirando meu navio da calmaria.
E agora, calma, plena, amando Buda,
Posso passar a limpo o meu destino
Contado a partir da monja Guda 7
(mulher de pincelzinho muito fino),
Como transmigrei por belas vidas
Escolhendo primeiro as artesãs
Que transcenderam, para além dos seus afãs
E muito amaram sem deixar as suas lidas
De poetas e pintoras aguerridas,
Que agora colhem louros, novos fãs.8
Notas:
(6) De Faria (Guilherme de Faria), o artista plástico e poeta de cordel que descobriu Alma, lançou-a e que a prefacia, sendo também seu maior amigo em São Paulo. “... retirando meu navio da calmaria”- Guilherme descobriu Alma muito quieta em seu ateliê paulista, e atirou-a numa roda-viva ao descobrir sua obra literária inédita.
(7) A poetisa cita aqui a sua encarnação do ano 950, Guda, Monja que assina (em latim), pela primeira vez, um códice, obra prima de iluminuras pintadas por ela.
(8) Tendo sido relacionadas, finalmente, por pesquisadoras feministas, no séculoXX , um rol de grandes mulheres artistas renasce para a fama, conquistando fãs, a partir de data recente. Algumas já se tornam “cults”, como Florbela Espanca (séc. XX), e Artemísia Gentileschi (séc. XVII).
Transmigrações II
3
No “Claris mulieribus” já constava 9
E Boccacio revelou minha passagem;
No quatorze, portanto, já pintava,
E o poeta poupou-me sacanagem.
Sofonisba fui no dezesseis 10
E a angústia da Anguissola experimentei
Mas no “Jogo de xadrez” realizei
A obra que afinal reconheceis.
Como Artemísia, Agostino me estuprou 11
E sua calúnia em parte procedia,
Todavia fui eu quem prosperou.
A Sirani, minha serva a envenenou, 12
Não antes que pintasse imensa obra,
Aos vinte e sete, que em Alma ainda cobra.
Notas:
(9) “Claris mulieribus”, obra de Giovanni Boccacio, que recolhe 104 biografias de mulheres e que destaca um grupo de pintoras.“... o poeta poupou-me sacanagem) – Alma parece querer dizer que uma encarnação sua está entre estas biografias, que se distanciam do caráter malicioso da abordagem das mulher na obra mais famosa de Boccacio, o “Decameron”, recheada de divertidas passagens pornográficas.
(10) Sofonisba Anguissola (1528 –1628), grande pintora do Renascimento, que ficou cega aos sessenta anos, e que foi mestra de Van Eyk ( segundo depoimento deste). Sua obra “Jogo de Xadrez”, que representa um grupo de mulheres jogando, foi considerada uma obra-prima do gênero, naquela época.
(11) Artemísia Gentileschi ( 1593-1652), revela um “pathos”em sua obra,toda ela tematicamente comprometida com temas sanguinários, de personagens masculinos sendo mortos por mulheres heroínas (Judith e Holofernes) depois de terem sido estupradas, ou mulheres acuadas por homens (Susana e os velhos). Tais temas parecem exercer uma função catártica na vida de Artemísia, que foi ela própria violentada aos dezessete anos por um condiscípulo (Agostino Tassi) de seu pai Orazio Gentileschi, e que ainda caluniou a estes, em juizo, atribuindo-lhes uma relação incestuosa entre pai e filha. Artemísia foi torturada na inquirição do processo.
(12) Elisabetta Sirani (1638-1665), grande pintora e gravadora do século XVII , que fundou uma escola para pintoras, em Bolonha, e que parece ter sido envenenada por uma criada, morrendo aos vinte e sete anos, mas deixando imensa obra. Alma sugere que esta encarnação cobra a ela que pinte muito, igualmente.
Transmigrações III
4
Antes da Anguissola, Bianca fui, 13
Capello, com a fama de fatal,
Que minha inocência não polui,
Mas ainda me confunde como tal.
Mas foi no dezenove que revi
Essa minha natureza em plenitude,
Transformando essa pecha em virtude,
Talento e beleza da D’Affry 14
Que me foi revelada no Foyer
Quando defrontei-me com a “Pythie”
Como algo que afinal reconheci.
E pude então amar o Jean-Baptiste 16
Como já o fizera no ateliê,
Tornando-o feliz... e logo triste.
Notas:
(13) Bianca Capello, “femme-fatale” veneziana, do século XVI, casou-se com Francesco de Médici, mas tinha sido suspeita de envenenar o primeiro marido.
(14) Adèle D’Affry, duquesa Castiglione-Colonna (1836-1879), a maior escultora do século XIX, além de pintora e desenhista. Considerava-se uma encarnação de Bianca Capello. Assinava “Marcello”, pseudônimo masculino para não ser discriminada no Salon de Paris. Sua “Pithie” (em francês pronuncia-se Pissí, daí a rima no soneto da Alma) é sua obra-prima, uma espécie de auto-retrato mítico, que ostenta serpentes nos cabelos, como a Medusa, e que tem significado obscuro, mas decifrado pela própria Alma na sua novela “Perséfone”, onde ela revela como descobriu esta sua encarnação passada. Novela notável, e misteriosa, ainda inédita.
(15) A obra “Pithie”, assinada “Marcello”, encontra-se num nicho do Grand Foyer do Opéra de Paris, adquirida por Jules Garnier (arquiteto do Opéra), no Salon de 1870, para ser colocada ali. Alma conta em sua novela “Perséfone” como defrontou-se pela primeira vez com a escultura neste saguão por ocasião da estréia de uma montagem da ópera Carmen, descobrindo a sua relação com a a grande escultora da belle-époque.
(16) Jean-Baptiste - Aqui Alma se refere ao personagem de sua novela Perséfone, que seria, por sua vez, uma reencarnação de Jean-Baptiste Carpeaux, (1827-1875) o grande escultor francês, que foi amigo de Adèle, e que presumivelmente a amou.
Musas
5
Aline, alma minha, outras urdem 17
Teu destino atual, aquelas musas:
Hébuterne, Siddal, Jane Burden,
Devo em ti encontrá-las, pois, difusas.
Amadas dos pintores, sois maiores,
Eternisadas em beleza pelas tintas
Que não morrem, como morrem os amores
E as belas carnes que a natureza pinta.
Pintei-te, bela e nua, ao meu lado, 18
Assim eternizando a juventude,
Duplo retrato nosso foi plasmado!
E ainda confundi nossos metiês, 19
A paleta no meio, como vês,
Para enfatizar a completude...
Notas:
(17) Alma insinua com este verso, que Aline também é reencarnação de várias musas de pintores, como as citadas Jeanne Hébuterne (mulher de Modigliani), Elisabeth Siddal modelo e esposa do pintor e poeta “pré-rafaelita” (escola pictórica inglesa do séc. XIX) Dante Gabriel Rossetti, que continuou a cantá-la em verso e pintura depois de sua morte prematura, por toda a sua vida; e finalmente Jane Burden, nome de solteira de Jane Morris, que, modelo do pintor também pré-rafaelita inglês William Morris, continuou seu modelo depois de casada com ele, e cujo rosto é o de todos os personagens femininos de sua pintura.
(18) Neste verso, Alma se refere à pintura por ela feita, um duplo retrato dela e Aline nuas ladeando um cavalete com uma tela que reproduz a mesma cena, com insinuação do espelhamento infinito. O quadro original não existe mais, pois foi destruído, num acesso de ciúme por Pedro, ex-namorado de Aline. No entanto, pela descrição da obra feita por Alma ao pintor Guilherme de Faria, este reproduziu-a conforme sua imaginação, produzindo uma tela de 100x100cm que foi premiada numa exposição no MUBE, em São Paulo em 2003. A obra de Guilherme e Welt está reproduzida na capa do CD “Sonetos da Alma”, gravado pelo pintor co acompanhamentos de piano e orquestra, dos grandes românticos como Chopin, Liszt, Shumann, Shubert, etc.
(19) Na pintura mencionada, o duplo retrato de Alma e Aline descrito no soneto 12 do ciclo “Sonetos da Alma”, gravado em CD com leitura de Guilherme de Faria, a paleta colorida de Alma está no chão , no centro, aos pés do cavalete,ladeado pelas duas moças em nu frontal, produzindo uma ambigüidade e a pergunta:‘‘...qual a pintora?”
Saga
6
Voltei, reconciliei-me com a estância 20
Onde sei que enfim renascerei,
Aqui, onde amei Rodo em minha infância
Sob a égide do Vati, que era o rei.
Para aqui trouxe Aline, minha amada,
Encontrando afinal a perfeição
Depois das agruras da jornada
Que encerrou-me, uma noite, na prisão 21
Tinha encontrado a safra inesperada, 22
Perdi-a, encontrei novo tesouro,
Salvei a terra, o jardim e a morada.
Que mais viver, o que esperar, ó minha vida?
A cada dia, a passagem enriquecida...
Como mais amar, ó coração?
Notas:
(20) Essa volta é o começo do romance autobiográfico A Herança, de Alma Welt.
(21) Na segunda parte do romance A Herança, denominada “A Ara dos Pampas”, consta uma cena onde Alma, indiciada, passa uma noite na cadeia, antes de começar o processo.
(22) No romance, Alma conta como encontrou uma safra de dez mil garrafas de um vinho de quarenta anos, deixada pelo seus avós como a herança material que salvará a estância de suas dívidas acumuladas.
Doação
7
Dou a luz poemas e pinturas,
Aline, perdoa-me, queres mais:
Um filho, eu sei ( ó criaturas,
eu as vejo e sei o quanto amais!) 23
Vejo o teu, o nosso filho, como é lindo!
Por isso resolvi estar dormindo 24
Enquanto colhas a semente noutra parte,
Para, com o nosso amor, engravidar-te.
E então ver o teu ventre assim crescendo,
Com a minha ternura e o meu desvelo,
A trama do Destino entretecendo
De uma nova guirlanda, “more and more”
Esperando, ansiando já, por vê-lo,
Sabendo o coração ainda maior.
Notas:
(23) Alma, como artista, parece ter um certo afastamento contemplativo, mas reconhece e até compartilha a necessidade que vê em Aline de ter um filho, e antecipa esse olhar sobre a cena maternal, nesse curioso verso.
(24) A artista sugere aqui algo espantoso: Aline teria se deitado com Rôdo, irmão de Alma, com ela presente no mesmo quarto (no mesmo leito?), enquanto Alma fingia dormir, para que Aline pudesse conceber uma criança, que elas criarão juntas.
Celta
8
E eis que narrei a minha saga
Nesta passagem pelo vinte e vinte e um 25
Nada fiquei devendo àquela maga
Que fui, chamada Deirdre, não Gudrun, 26
E que, druidisa, já queimava
As ervas ainda úmidas de orvalhos,
E que colher o visgo dos carvalhos
A plena permissão muito me honrava. 27
Nesta minha atual vivência em corpo
O tive invadido, torturado
Por duas vezes, entre amores, violado. 28
E ainda sou vestal da minha alma
Pura, em meu desejo desfrutado,
Nutrindo o coração, que não se acalma.
Notas:
25)Alma vê a sua vida, com razão, como uma saga nesta sua “passagem” pelo final do século XX e começo do XXI. Mas suas reminicências de outras vidas remetem-na, nestes versos, a uma misteriosa druidisa, Deirdre.
(26) Deirdre, quer dizer “filha da Irlanda”, em língua gaélica. Não pudemos conferir a existência real de tal personagem, mas as palavras “...e não Gudrun”, parecem confirmar a surpresa da própria Alma em não se tratar de uma donzela germânica, mas celta.
(27) Este verso sugere que as druidisas eram raras, talvez excepcionais, e que necessitavam de permissão especial do Conselho dos Druidas (quase sempre anciãos), para colher o visgo, “com a foice de ouro”.
(28) Este “salto” no tempo, que Alma realiza nestes versos, mencionando dois momentos de violência que sofreu nesta sua atual encarnação, querem reforçar a convicção de sua pureza anímica, que a confirma nessa persistente natureza de sacerdotisa (vestal), pítia ou pitonisa em outros momentos.
Profissão de fé
9
Amores meus, mananciais da minha vida,
Afluentes de um rio imponderável,
Vinde todos a mim, deixai a lida
Por momentos, e tomai-me, insaciável.
Como é belo viver assim tomada,
Possuída, cantando Arte e Amor!
Não me venham, pois, com a maçada
Dos trabalhos e os dias, e o rancor. 29
Não me falem de metas e carreiras,
Dos vulgares conceitos deste século,
Da social questão, e das barreiras!
Que tenho eu, Alma, com esse mundo
Que vejo tão somente pelo espéculo 30
De um olhar de artista, mais profundo?
Notas:
(29) “... Os trabalhos e os dias”, esta expressão nos remete ao título da famosa obra poética de Hesíodo, mas a palavra “maçada” (aborrecimento) anterior, e “rancor” (em seguida), muda-lhe o sentido, sugerindo a idéia de tédio, do cotidiano.
(30) A palavra “espéculo”, aqui (além de rimar com “século”), pela primeira vez no vocabulário da Alma, é particularmente interessante por derivar de um aparelho médico de exame das partes íntimas, que o seu pai , o cirurgião Dr. Werner, tinha em casa, e que causava impressão na menina Alma, ao mesmo tempo que de grande riqueza etimológica, nos remete a “speculum” ( espelho) e também à sua derivada “especulação”.
Epílogo
10
Fechem-se as cortinas, por enquanto, 31
Caia o pano, pelo menos neste ato
Saio de cena, o rosto sob um manto,
Na coxia aguardando o entreato.
É quando percebo o improviso 32
De minha vida, sem roteiro, sem destino:
Vou construindo a peça em meio ao riso
E os aplausos de um público ladino 33
Que comovido, vislumbra nesta atriz
A marca da Bernhardt, ou Plissetskaya, 34
Pela ardência da paixão, e pede bis,
E volto, então, ao palco, deslumbrada
Pelas palmas, malgrado a pateada
Dos tolos... que preferem tola vaia. 35
FIM
Notas:
(31) Alma quer interromper o fluxo constante de suas experiências espirituais, como para um balanço, que ela compara a um entreato ou intermezzo musical.
(32) Alma pondera que o “destino” é construído constantemente numa espécie de perpétuo improviso, não estando portanto pré-escrito, o que coincide com o conceito do “livre arbítrio” , que confere valor individual às vidas.
(33) Alma , com ingênua astúcia, bem feminina lisongeia o publico que a aplaude, chamando-o de “ladino” (esperto), por saber apreciá-la...
(34) Alma sonha com um público culto, que a compara à célebre atriz Sarah Bernhardt (1844-1923), e com a grande bailarina russa Maya Plissetskaya, que, ela própria bailarina (vide o conto Pas-de deux,, dos “Contos da Alma”), considera uma deusa .
(35)Alma, como boa artista, descarta os possíveis opositores de sua arte, como tolos. Mas faz isso com candura e humor, como é de sua índole.
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quarta-feira, 31 de outubro de 2007
SONETOS ALEGÓRICOS DA ALMA (de Alma Welt)
Alma Welt
Sonetos Alegóricos da Alma
Índice
1. Amor vinha montado...
2. Num bosque encantado...
3. Vinha descendo o rio...
4. A Vida, meu amor...
5. Hoje acordei de um sonho...
6. Longe ouço o pássaro...
7. Numa floresta gótica...
8. Escutando Chopin...
9. Sonhei que voava...
10. A torre de aço...
Amor vinha montado
1
Amor vinha montado, em disparada
Como um rei ou cavaleiro muito antigo,
Daqueles velhos cantares de amigo
E sua trompa de caça era dourada.
Sete galgos latiam e acompanhavam
Sete pagens também sete escudeiros
Traziam estandartes e cantavam
Baladas de caça e de guerreiros.
Assim vi dentro de mim Amor chegando,
Tendas, cortesãos e saltimbancos
Em minh’alma amor transfigurando
Sua corte,seus exércitos em meus flancos,
Rendida, enfim aprisionada,
Em torre de marfim seria amada...
Num bosque encantado
2
Num bosque encantado me encontrei
Cujo ar carregado de corpúsculos
De pólen coruscante, reparei
À contra-luz em seus belos crepúsculos.
Grandes sombras de carvalho, alcatifadas
De musgos e de líquens como rendas
Semeadas de fungos, assombradas
Por pequenos seres de outras lendas.
E percebo-me, então, naquele mundo
Da alma, de imagens delirantes,
Feéricas, do sonho mais profundo
Reservado a nós, que preservados
Sabemos manter-nos antenados
Na beleza, da qual somos amantes.
Vinha descendo o rio...
3
Vinha descendo o rio lentamente
O barco festivo embandeirado,
Na proa uma sereia iridescente,
O seio nu e o olhar esgazeado.
Como estandarte a vela, e enfunado
Ostentava o signo do Amor,
Mas não aquele coração varado
Pela flecha, o balão de rubra cor.
Galgo-fêmea e raposa, mas eretas
Comandavam na proa esse batel:
O galgo, de casaca em linhas retas
E dei-me conta do delírio do soneto
(não sendo o primeiro que cometo)
Eu, que assim sonhava no papel...
A vida, meu amor
4
A vida, meu amor, me quer assim:
Amando, desejando, apaixonada.
Quanto mais intensa a minha estada
Mais louros e repouso no meu fim.
Renina, eu sei, já me alertou
Para esse furor que viu em mim.
Uterino, ela disse, e me chocou...
Eu que para o amor à Terra vim!
Sou Alma, o meu nome já diz tudo
E pertenço à estirpe de Florbela.
Amando o amor e crendo a vida bela
Refaço em meu destino, que assim mudo,
O percurso das grandes amorosas,
Rubras nos seus leitos, como rosas.
Hoje acordei de um sonho...
5
Hoje acordei de um sonho lindo
Chorando de saudade desse sonho
Que me levara ao lugar risonho
De onde lentamente venho vindo:
Um pomar, a terra alcatifada
De flores, margaridas e jasmim,
A macieira minha, já gravada,
Anotada de todos os meus “sim”
Em torno ao casarão avarandado
Eu revi o pampa sem fronteira
Onde tive o sonho começado
E me votei um dia consciente,
À Arte, como ao Cristo faz a freira,
E ao Amor, em seu leito muito quente.
Longe ouço o pássaro...
6
Longe ouço o pássaro cantor
Que parece ser um sabiá
E eu me pergunto o que faz o amor
Deslocado aqui na terra má?
Barulho e correria comezinha
Tão distante daquela terra minha
Onde ouço do mate suas canções
Enquanto vinho dorme nos porões.
Mas toca o interfone no momento
E mando subir o comprador
De quadros, hesitante, muito lento,
Que percebo deseja alongar
Sua estada aqui neste lugar
Onde parece farejar o amor.
Numa floresta gótica...
7
Numa floresta gótica me vi
Perdida caminhando sob os arcos
Formados pelos ramos arqueados
Onde não cantava o bem-te-vi
Mas sim o cuco enervante, renitente
Ressaltando pelo oposto o silencioso
E pesado imobilismo penumbroso
Que faria este cenário comovente.
E então me perguntei quase nervosa
A razão da interferência de um barulho
Nessa imagem solene, majestosa.
E a alma em mim, de que me orgulho,
Pôs o dedo no meu lábio, carinhosa
Fazendo rrrrr....rrrr... como um arrulho.
Escutando Chopin..
8
Escutando Chopin vindo do lado
Reclino-me dolente no meu leito
E ponho-me num sonho acalentado
O piano ressoando no meu peito.
E vejo-me, a mim, vestido longo,
De pé ao lado do Steinway
Negro, negro como um rei do Congo
Ou como o rolls-royce desse rei.
E me pergunto então porquê a imagem
De negritude assim associada
Ao claro Chopin e sua balada?
E a alma respondeu: “o ser romântico
À noite pertence e à passagem
Da lua no céu, seu triste cântico.”
Sonhei que voava...
9
Sonhei que voava para a lua
Meus longos cabelos pelos ares...
Olhei-me em seu espelho e estava nua
Quis voltar e encontrei seus patamares.
Degraus da lua, sim, eu bem sabia
Que essa escada secreta existia
Para aqueles impedidos de voar
Ou quem se vendo nu, tem de voltar.
E então recomecei a escalada,
Agora tímida, talvez envergonhada,
Meus cabelos a cobrir-me qual Godiva
No passeio sob a lua, preservada,
Sem cavalo e sem nenhuma comitiva,
Minha noturna nudez iluminada.
A torre de aço
10
A torre de aço e vidro pós-moderna
Pairando sobre nuvens seu mirante
Aparece no meu sonho delirante
Como torre de Babel que fosse eterna,
Pois no alto da antena ou pára-raio
Eu vejo o estandarte da soberba
Tremulando sobre a alma num desmaio
De vertigem, na subida tão acerba.
E então eu questiono isto ser
Da humana condição tão orgulhosa
Da qual eu participo sem querer.
Sou Alma, eu vim de Psiquê
Sou antiga como o mundo e tão vaidosa,
E ingênua também, como se vê...
FIM
Sonetos Alegóricos da Alma
Índice
1. Amor vinha montado...
2. Num bosque encantado...
3. Vinha descendo o rio...
4. A Vida, meu amor...
5. Hoje acordei de um sonho...
6. Longe ouço o pássaro...
7. Numa floresta gótica...
8. Escutando Chopin...
9. Sonhei que voava...
10. A torre de aço...
Amor vinha montado
1
Amor vinha montado, em disparada
Como um rei ou cavaleiro muito antigo,
Daqueles velhos cantares de amigo
E sua trompa de caça era dourada.
Sete galgos latiam e acompanhavam
Sete pagens também sete escudeiros
Traziam estandartes e cantavam
Baladas de caça e de guerreiros.
Assim vi dentro de mim Amor chegando,
Tendas, cortesãos e saltimbancos
Em minh’alma amor transfigurando
Sua corte,seus exércitos em meus flancos,
Rendida, enfim aprisionada,
Em torre de marfim seria amada...
Num bosque encantado
2
Num bosque encantado me encontrei
Cujo ar carregado de corpúsculos
De pólen coruscante, reparei
À contra-luz em seus belos crepúsculos.
Grandes sombras de carvalho, alcatifadas
De musgos e de líquens como rendas
Semeadas de fungos, assombradas
Por pequenos seres de outras lendas.
E percebo-me, então, naquele mundo
Da alma, de imagens delirantes,
Feéricas, do sonho mais profundo
Reservado a nós, que preservados
Sabemos manter-nos antenados
Na beleza, da qual somos amantes.
Vinha descendo o rio...
3
Vinha descendo o rio lentamente
O barco festivo embandeirado,
Na proa uma sereia iridescente,
O seio nu e o olhar esgazeado.
Como estandarte a vela, e enfunado
Ostentava o signo do Amor,
Mas não aquele coração varado
Pela flecha, o balão de rubra cor.
Galgo-fêmea e raposa, mas eretas
Comandavam na proa esse batel:
O galgo, de casaca em linhas retas
E dei-me conta do delírio do soneto
(não sendo o primeiro que cometo)
Eu, que assim sonhava no papel...
A vida, meu amor
4
A vida, meu amor, me quer assim:
Amando, desejando, apaixonada.
Quanto mais intensa a minha estada
Mais louros e repouso no meu fim.
Renina, eu sei, já me alertou
Para esse furor que viu em mim.
Uterino, ela disse, e me chocou...
Eu que para o amor à Terra vim!
Sou Alma, o meu nome já diz tudo
E pertenço à estirpe de Florbela.
Amando o amor e crendo a vida bela
Refaço em meu destino, que assim mudo,
O percurso das grandes amorosas,
Rubras nos seus leitos, como rosas.
Hoje acordei de um sonho...
5
Hoje acordei de um sonho lindo
Chorando de saudade desse sonho
Que me levara ao lugar risonho
De onde lentamente venho vindo:
Um pomar, a terra alcatifada
De flores, margaridas e jasmim,
A macieira minha, já gravada,
Anotada de todos os meus “sim”
Em torno ao casarão avarandado
Eu revi o pampa sem fronteira
Onde tive o sonho começado
E me votei um dia consciente,
À Arte, como ao Cristo faz a freira,
E ao Amor, em seu leito muito quente.
Longe ouço o pássaro...
6
Longe ouço o pássaro cantor
Que parece ser um sabiá
E eu me pergunto o que faz o amor
Deslocado aqui na terra má?
Barulho e correria comezinha
Tão distante daquela terra minha
Onde ouço do mate suas canções
Enquanto vinho dorme nos porões.
Mas toca o interfone no momento
E mando subir o comprador
De quadros, hesitante, muito lento,
Que percebo deseja alongar
Sua estada aqui neste lugar
Onde parece farejar o amor.
Numa floresta gótica...
7
Numa floresta gótica me vi
Perdida caminhando sob os arcos
Formados pelos ramos arqueados
Onde não cantava o bem-te-vi
Mas sim o cuco enervante, renitente
Ressaltando pelo oposto o silencioso
E pesado imobilismo penumbroso
Que faria este cenário comovente.
E então me perguntei quase nervosa
A razão da interferência de um barulho
Nessa imagem solene, majestosa.
E a alma em mim, de que me orgulho,
Pôs o dedo no meu lábio, carinhosa
Fazendo rrrrr....rrrr... como um arrulho.
Escutando Chopin..
8
Escutando Chopin vindo do lado
Reclino-me dolente no meu leito
E ponho-me num sonho acalentado
O piano ressoando no meu peito.
E vejo-me, a mim, vestido longo,
De pé ao lado do Steinway
Negro, negro como um rei do Congo
Ou como o rolls-royce desse rei.
E me pergunto então porquê a imagem
De negritude assim associada
Ao claro Chopin e sua balada?
E a alma respondeu: “o ser romântico
À noite pertence e à passagem
Da lua no céu, seu triste cântico.”
Sonhei que voava...
9
Sonhei que voava para a lua
Meus longos cabelos pelos ares...
Olhei-me em seu espelho e estava nua
Quis voltar e encontrei seus patamares.
Degraus da lua, sim, eu bem sabia
Que essa escada secreta existia
Para aqueles impedidos de voar
Ou quem se vendo nu, tem de voltar.
E então recomecei a escalada,
Agora tímida, talvez envergonhada,
Meus cabelos a cobrir-me qual Godiva
No passeio sob a lua, preservada,
Sem cavalo e sem nenhuma comitiva,
Minha noturna nudez iluminada.
A torre de aço
10
A torre de aço e vidro pós-moderna
Pairando sobre nuvens seu mirante
Aparece no meu sonho delirante
Como torre de Babel que fosse eterna,
Pois no alto da antena ou pára-raio
Eu vejo o estandarte da soberba
Tremulando sobre a alma num desmaio
De vertigem, na subida tão acerba.
E então eu questiono isto ser
Da humana condição tão orgulhosa
Da qual eu participo sem querer.
Sou Alma, eu vim de Psiquê
Sou antiga como o mundo e tão vaidosa,
E ingênua também, como se vê...
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