A Morte

A Morte
óleo s/tela de Guilherme de Faria 1967

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Última Máscara (de Alma Welt)

                                  A Humana Condição - óleo  de Guilherme de Faria, 1959,
                                  coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

A Última Máscara (de Alma Welt)

Temos todos uma máscara perdida
Que é uma entre as tantas que dispomos.
Essa tal é de feição desconhecida,
Não a vemos no espelho quando a pomos...

É ela, essa máscara, nosso Ego
Que nos é dificilmente perceptível,
Como um camaleão de pele incrível
O nosso próprio olhar tornando cego.

Eis porquê somos espectros duvidosos
Vagando entre os outros invisíveis
Nossos falsos mistérios gloriosos...

E como é trágico o vislumbre mais preciso
De nossas belas aparências discutíveis,
Já que temos o branco e mesmo riso...

.
19/10/2016

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

À sombra do vulcão (de Alma Welt)

Imaginária vulcânica (com dupla Alma e seu cão) - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 2015

À sombra do vulcão (de Alma Welt)

À sombra do vulcão eu me encontrava
E o meu cão me seguia fielmente
E não porque fosse forte ou brava
Mas por estar ali, então, somente.

A vida nos põe onde ela quer
E cabe a nós fazer o nosso enredo
Ou tão somente expressar o que vier
Se possível disfarçando o nosso medo.

Então me vi seguindo logo atrás...
Era eu vigiando-me à distância
Para saber quem sou, se sou capaz.

Sempre eu e meu duplo nesta vida,
Já que nos impele a mesma ânsia
De ser uma pela outra merecida...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Embocaduras (de Alma Welt)


Gravura de Gustave Doré ("Me encontrei numa selva escura..." ( Dante Alighieri, Divina Comédia)

Embocaduras (de Alma Welt)

Perdida a mão do sal da tua poesia
É como ter perdido a embocadura *
De tua flauta conhecendo a partitura
Ou sabendo de cor tua sinfonia...

Nada mais podes fazer senão parar
E pausar a pena ou o teclado:
A poesia não é terra de se arar
Nem jardim, menos ouro do Eldorado.

O portal desesperado não esperes *
E o teu cicerone é um tanto rude, *
Talvez lobo e leopardo consideres. *

Podes bem encontrá-lo à revelia,
Foste parar na Terra da Agonia,
Perdida a tua louca juventude...

-----------------------------------------

Notas

* Perdida a mão do sal da tua poesia
É como ter perdido a embocadura 
De tua flauta conhecendo a partitura * - alusão à perda súbita do jeito para a culinária ou o jeito certo de assoprar o bocal ou palhetas num instrumento de sopro, fenômeno imponderável que pode acontecer com os cozinheiros e músicos. Aqui, no caso, será uma comparação com o súbito estancamento do fluxo de inspiração que pode ocorrer ocasionalmente com os poetas...

*O portal desesperado não esperes - O portal do Inferno da Divina Comédia, de Dante, em que estava escrito: "Deixai toda esperança, vós que entrais".

*E o teu cicerone é um tanto rude - na Comédia o cicerone do Poeta era o polido Virgílio, poeta romano da antiguidade. Alma adverte que agora até o guia será adverso...

*Talvez lobo e leopardo consideres... - Alma se refere às duas feras que acuaram o poeta Dante no meio da Selva até diante do portal do Inferno, onde não pode senão adentrar, para não ser devorado. Agora, Alma sugere que, a esta altura, é melhor encará-las pois já não estás na tua louca juventude que preferiu atravessar o sinistro portal...

domingo, 13 de julho de 2014

Meta-linguagem (de Alma Welt)


Procurar com afinco o meu silêncio
Há de exigir de mim outras palavras
Que construam um tal vazio imenso
Como som da semente em minhas lavras.

Mas antes devo a mim mesma esgotar
Confessando tudo e o indizível:
Aquilo que não ousei sequer pensar
Pois pertence à alma noutro nível.

Então estarei nua no universo
Explodindo em supernova o ser disperso
Como uma estrela morta em seu colapso.

E ficará de mim só a memória
Pra quem quiser pegar o fio da estória
Como da pobre língua um mero lapso...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Caverna (de Alma Welt)

 
                               A Caverna de Platão - pintura de Maria Tomaselli (200x160cm) 

A Caverna (de Alma Welt)

"Muitas coisas estão claras, afinal.
Viver não chega a ser finalidade
E por isso esse conflito universal
Entre o coletivo e a unidade... "

A quê mesmo te referes, criatura?
Então não vês que não te cabe nem julgar,
E se a obra humana pouco dura
Logo o golem vai o Oleiro criticar?

Continuas desde sempre às cegas,
Tateando pelo meio da caverna
Só para ver se a tua sombra pegas...

Sê humilde, se puderes, por enquanto.
Báh! evites o conflito e a baderna
E escolhe pra morrer, aí, um canto...

____________________________

Notas
* logo o golem vai o Oleiro criticar?- Alma faz referência à célebre lenda judaica do Golen: Um rabino querendo imitar Deus cria uma figura de barro e por artes alquímicas confere-lhe vida, criando uma criatura grotesca viva, mas de barro, um monstro...
Com este verso Alma quer dizer que nós humanos somos o golen de Deus, o Supremo Oleiro, e bonecos imperfeitos ousamos criticá-lo...

* tateando pelo meio da caverna - Alma alude ao famoso Mito da Caverna, de Platão, alegoria da condição humana predileta dos psicanalistas...
 

sábado, 21 de dezembro de 2013

O Olho (de Alma Welt)

                                           O Olho - pintura de Guilherme de Faria, 2013

 
O Olho (de Alma Welt)

Há um olho por aí que tudo vê
E vigia nosso oculto pensamento,

Não importa se nele ninguém crê
Pois não é da fé seu argumento.

Me refiro a um olho atento, agudo,
Real como num sonho de vigília
E que é só o companheiro mudo
Que teremos ao longo desta trilha.

Este olho fatal que não nos guia,
Dizem uns que é nossa consciência
Que nos julga depois, à revelia.

Mas do medo é a sua natureza
Por isso não louvamos sua ciência,
E vogamos ao sabor da correnteza...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Pequena Ode ao Tempo (de Alma Welt)

O Maestro  - desenho de Guilherme de Faria, 1965
 
 
Pequena Ode ao Tempo (de Alma Welt)
 
 
Tenhamos reverência pelo Tempo
Já que ele respeita o nosso passo
Tão desigual em meio a contratempo,
Infortúnio ou só mudança de compasso.

Ele é o Senhor, é o Maestro autoritário
Todavia mesmo às vezes paternal,
Conquanto passível de humor vário
E quase sempre inflexível no final...

Sabei, senhores: o Tempo é mesmo Deus
Que o Verbo conjugou, nos complicando,
Ao criar a Nostalgia e o Adeus.

Mas o Presente é Seu fluxo visível,
O Futuro imprevisível retardando
E tornando o Amor, mesmo, possível...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Escrever (de Alma Welt)

                                                  Poeta pobre - Carl Spitzweg 1835

Escrever (de Alma Welt)

Escrever, razão de vida suficiente
Porquanto esta emana da poesia

Já que nunca foi daquela diferente
E, pois, na ausência dela jaz vazia.

Sim, não me posso sem isto imaginar
Pois o Verbo já estava no princípio
E no final nossa vida vai fechar,
Indiferente sejamos santo ou ímpio...

Veja, Sade foi na certa perdoado
E há quem divino repute este Marquês
Difícil de engolir, pois malpassado.

No final restará sempre a Poesia
Que é como se faz, não o quê fez:
Pois nela cabe o que na vida mal cabia...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Destino (de Alma Welt)


Nossa vida faz patético percurso
Até aquela final nota de ironia, 

Das cartas sempre o último recurso
Pra velar sua vocação que é a poesia.

Tenho medo da leitura da cigana,
Conquanto muitas vezes enganosa,
Quando lendo nossa vida nos engana,
Pensa dar gato e dá poesia pela prosa.

Da resposta não temos o tal código
Como um pai não saberá antes da hora
Se pra casa volta o filho pródigo...

Tudo é mistério: estamos às escuras,
Quem mente para a gente jamais cora,
Também não aquela face que procuras...

domingo, 23 de junho de 2013

O Silêncio das Esferas (de Alma Welt)


Eu quis sempre admirar-me de mim mesma,
Isso foi meu escopo ou minha meta.
Versos por mês: ao menos uma resma...
Talvez menos poetisa que pateta.

A quem? Por quê? Pra quê? Mas quem se importa?
O mundo, sempre o mundo, no meu nome,
Tudo a que a memória se reporta,
E que é pra onde vai a nossa fome...

Mas viemos das estrelas encantadas,
Para onde voltaremos certamente,
E vejam como elas são caladas!

O silêncio surdo das esferas,
Distante do rumor da tua mente
Que indaga, perscruta, e te exasperas...

sexta-feira, 22 de março de 2013

Poiesis (de Alma Welt)

Cercada estou dos meus velhos fantasmas
Que me são gratificantes, eu confesso.
Não são eles que povoam minhas asmas
Mas a minha alma, obra em processo.

Pois com eles me ligo a uma corrente
Dos séculos e dos seus grandes segredos
Que guardo no fundo da minha mente
A fim de descobrir o fim dos medos.

Então eu os vazo nos meus versos
Através de um código discreto
Que evita os conceitos controversos.

A pura poiesis é a mensagem,
Ela é o embrião do próprio feto,
A vida está nela e não à margem...

 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Travessia (de Alma Welt)

                                   O ataque ao moinho de vento - Ilustração de Gustave Doré

                                       

A Travessia (de Alma Welt)
 "O mundo é um moinho... " (Cartola) 

Todos nós temos corda onde agarrar,

A vida nos dá sempre uma saída
Que nos evite o risco de abismar
No medo natural da própria vida.

Por certo cada um pega o que pode:
Um amor, uma paixão ou mesmo um vício;
Um poema, um soneto ou uma ode,
Um portal com a cruz no frontispício,

Ou então, o que é pior, com um convite
Para entrar mas deixando a Esperança, *
Última paz que o mundo nos permite... *

Mas pra saíres vivo do moinho,
Não como Don Quixote e Sancho Pança,
Terás que atravessar a ti sozinho...
______________________________

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sinopse (de Alma Welt)

Os poentes me devolvem a guria
Reverente e humilde finalmente,

E preciso contemplá-los todo dia
Para ter um parâmetro na mente.

Testemunho de Deus em ato puro
Para nós se agraciados pela fé,
Para outros é o sol atrás do muro
Do horizonte como onda de maré.

Mas para mim é o ciclo eterno,
Ou da vida abreviada trajetória
De sua primavera ao seu inverno:

Se morro todo dia também nasço,
Como uma sinopse da estória
Cujo tema é só o Tempo-Espaço...

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Câmara Escura (de Alma Welt)



A Câmara Escura (de Alma Welt)

Há momentos em que nos despedaçamos
Contra as arestas do nosso próprio ser,
Então a duras penas nós juntamos
Nossos cacos num mosaico de viver.

Na imagem interior restam fissuras
Como fossem cicatrizes das batalhas
Que travamos não com outras criaturas
Mas conosco mesmo e nossas falhas.

“Mas então, onde é que entra o mundo
Nessa tua síntese autofágica,
Se consideras só teu ser profundo?”

Na câmara da alma é o contrário:
O mundo é o ser na caixa mágica
Como reflexo invertido num armário...
 
 

domingo, 4 de novembro de 2012

Dualidade (de Alma Welt)


Que imensa dualidade é a Arte!
Resultado da perfeita sintonia

Com a própria alma em harmonia
Com o Cosmo e o Caos, a contraparte.

Pois tudo o que há no Universo
Tem a sua razão, mas o absurdo
Quando existe cai muito bem em verso,
Como a Nona foi feita por um surdo.

Até o Bem e o Mal se complementam
Na estrutura perfeita de uma obra
Pois que na falta de um, poucos agüentam.

Eis então porque consigo ser artista:
Porque a minha alma não me cobra
Ser boa ou ser malvada, senão mista.

domingo, 7 de outubro de 2012

Meu Trem (de Alma Welt)


Ainda espero o trem que chegará
Pontualmente embora não sei quando
Trazendo alguém do Reino de Acolá
Onde o vento faz a curva e vem cantando

 Buscar-me, ele vem, na plataforma
Que é esta minha varanda centenária
Onde estar sentada é minha norma
Sempre a tecer a minha teia solitária

E a contar em sonetos minha saga
Que é a da individualidade
Do ser cuja chama não se apaga

E resta para sempre e mais um dia
Na estação, como eu em tenra idade
A esperar o próprio trem que me trazia...

De vida, fastios e domingos (de Alma Welt)


Tenho pudor de ficar enfastiada
Ou de repente ter um certo horror
Desta vida terminar numa maçada
Que é essa de morrer, suprema dor...

Mas é isso que faz de mim humana,
Eu suponho, embora nada saiba
Da razão de ser de uma semana
E o quanto da vida nela caiba.

Mas o fato de ter sempre um domingo
Como para descansar da própria vida
Ou para conferir o nosso bingo

É mais uma evidência do nonsense
Desse viver que tão mais me põe perdida
Quanto mais profundo eu nele pense...

 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ao Poeta em mim (de Alma Welt)



Ingenuamente movido por certezas
Pensas abrir sendas neste mundo
Quando apenas seguir podes correntezas
Que levaram a tantos para o fundo.


Mas além dentro de ti, algures
Se encontra a chave do Mistério
Que talvez nem saibas que procures
Pois até uma criança brinca a sério...

Repara à tua volta, meu amigo,
A vida solene e atarefada
Que gira em torno ao teu umbigo!

E já que és o centro do universo,
Cuida da precisão do teu destino
Que é só caber inteiro num teu verso...

domingo, 2 de setembro de 2012

Viver, pensar (de Alma Welt)


Viver é duro ao se pensar a Vida,
Melhor é não pensá-la e vivê-la.
Mas se não pensada é pura lida
É preciso parar para bem vê-la.

Mas se paramos começamos a pensar
E enxergamos pois o lado escuro
Que é a face da Morte a assombrar
Quanto mais do pensar se faz apuro.

Báh! Pensar e não pensar é impossível
Viver em plenitude é doloroso
Mas não querer sofrer é desprezível.

Pois se não vivemos, só pensamos,
Um gosto fica, assim, meio travoso
De não saber pra quê na Vida estamos...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Balanço (de Alma Welt)


Entre a entrega e a rebeldia,
Balanço, como entre amor e arte.
Eis aí a minha fonte de Poesia
Que encontro em mim e em toda parte.

Tudo é tema, angústia e ironia...
O prosaico também, se o transfiguro,
Pois o ser humano em estado puro
Já nasce com um dom de nostalgia.

Termos vindo de remoto Paraíso
Nos dá esse olhar para a beleza
E essa espera pelo Dia do Juízo

E a esperança de voltarmos ao Jardim
Onde seremos um com a Natureza,
Não mais exílio, tu em ti e eu em mim...

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Labirinto (de Alma Welt)

Que a vida tem surpresas todos sabem,
Não podemos só com a lógica contar...
A seqüência dos fatos que nos cabem
Nunca nos leva para idêntico lugar...


A cada um destino próprio e inusitado,
Eis o mistério de estar vivo: não saber
Se o gato em nossa noite é todo pardo
Ou se brilhará no escuro o nosso ser.

A que viemos? Alguns temos certeza,
Quando somos poetas ou artistas,
Que isso basta para produzir clareza...

Pois se na grande noite afundaremos,
Que luminosas sejam as nossas vistas
Se o fio do labirinto não herdemos...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Daimon * (de Alma Welt

Que imensa ilusão é a vida nossa
Mormente com o que fazemos dela,
Tão distante da chama de uma vela
Quão da lua refletida numa poça

Que unos nos faziam e mais inteiros,
Como observar nossa animália
E o belo crescimento dos canteiros,
Ciclo vital que pouco ou jamais falha...

Ah! Ambição e os sonhos de grandeza
E mesmo os de amor eternizado
Em cenário duvidoso de beleza!

Riqueza e glamour, quanta inocência!
Nossos nomes nas bocas e aclamado,
Nosso daimon a serviço da demência...

_______________________________________________________________
Nota
* Daimon - Segundo o escritor Nelson Rego o daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna. É a potência para perseguir o que faz falta. Ao mesmo tempo interno e externo, ele é o indivíduo e algo além do indivíduo. Em princípio, nem bom, nem mau – mas, com certeza, forte –, o daimon pode ser a correnteza que leva para qualquer direção. O indivíduo pode ter êxito com esse algo que está além e o habita. E pode também ser esmagado pela força tremenda que ele traz.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Teatro de Sombras (de Alma Welt)


Teatro de Sombras (de Alma Welt)

Vou tentando descobrir o teu segredo,
Ó Morte, com as chaves que mal conto:
Razão e raciocínio... engano ledo;
Memória e intuição, avanço um ponto.

No coração, lá seja o que isto for,
Hei de descobrir o que é isso,
Para livrar-me a mim de tanto horror
E aceitar o Nada mesmo, se preciso...

Pois não é provável tanto escuro
Sem luz clara projetada na parede
Em que as sombras distorçam um futuro.

E se ao homem não é dado se saber,
Renego minha carne e minha sede
E já prefiro só na alma me caber...



Nota
...Pois não é provável tanto escuro
Sem luz clara projetada na parede
Em que as sombras distorçam um futuro.

Percebe-se neste terceto uma alusão ao Mito da Caverna, de Platão...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Corpo Imaginário (de Alma Welt)

Sim, nosso corpo é imaginário,
Efêmero ele passa e se dilui
No fluxo contínuo sem horário,
No espaço em que pouco denso flui.

Derretemos como vela em devoção
Sem permanência sequer de boas obras
Nem dos pensamentos a intenção
Ou de nossa astúcia as vis manobras.

Mas a alma, essa sim, tem consistência
Pelo menos duradoura, não fugaz
Do corpo que é só pura aparência.

E assim, em nossa alma confiemos
Pois nela um universo se compraz,
E cabe todo no sonho que vivemos...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Empíreo (de Alma Welt)

A morte é o Mal, eis a verdade,
O próprio Demônio sobre o Mundo;
A ele Deus deixou uma metade
Do seu reino e justo o lado imundo.

Senão, reparem, vejam: treme
A natureza diante da ameaça...
Ao menor perigo grita e geme
E todo dia e só dia de caça.

Por isso entre os gregos só havia
O Hades para todos os mortais,
Embora para poucos outra via:

O Empíreo ou Ilhas Bem-Aventuradas
A que alguns chegavam sem os ais,
Que dos heróis as almas são aladas...

domingo, 7 de agosto de 2011


O Eterno Cavaleiro- Lito de grande formato, de Guilherme de Faria, 1975, 47x69cm (versão em sangüíneo)

O Eterno Cavaleiro (Alma Welt)
(sobre uma lito do Guilherme de Faria)


Sob um certo e negro timbre da visão
Se pode ver o Eterno Cavaleiro
Sobre o campo entulhado em confusão
De corpos ceifados, sem celeiro,

Lançados sobre a face do planeta
Em terrível multidão de destroçados
Nem sequer semeados em valeta
Sem a cruz ou crescentes inclinados.

É o Triunfo daquele “miglior fabro” *
Que Deus deixou por conta do terror,
Pelo amor que tem pelo macabro

Que O fez caprichar na estrutura:
Branca ossada risonha ao seu dispor
Por mais tempo do que nossa carne dura...


Nota
* Il miglior fabro" - como Dante Alighieri se referiu ao poeta Guido Cavalcanti, preconizando o Poeta como o Melhor Fazedor ( ou fabricante, de imagens). Quem teorizou sobre isso foi o grande poeta e ensaista de poesia, Ezra Pound.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Soneto do Fim e do Medo (de Alma Welt)

Quando chegar o fim, que sei e espero,
Não me assalte o desamparo e medo,
Mas seja grande encontro com o vero
Que deixa o moribundo mudo e quedo.

Tenho medo do medo, é o que tenho.
O desespero é a grande ameaça,
Que na hora do fogo sob o lenho
Até santo bendizer faz à fumaça.

O Medo e a Dor são quase unos,
Nascidos com minutos de distância
Entre os seus partos importunos.

E esses gêmeos tristes e inquietos
Convivem com a Vida e sua ânsia
De alegria sob o céu e sob os tetos...

08/01/2007

domingo, 12 de junho de 2011

A Assombrada (de Alma Welt)

Alma viva assombrada pela morte,
Com ela tive grande intimidade
Que mudou-me o tom da realidade
E fez a minha vida bem mais forte.

Alto preço a pagar pela Poesia,
Acordar na alta noite em pleno frio
A apertar o peito em agonia
De onde brotam versos como um rio...

Ou então correr para o espelho
Para reintegrar-me em minha imagem
Que quer dissolver-se no vermelho

Do sangue desta vida, ou cabeleira
Que coroa a forma branca de miragem
Que anseia já perder-se na poeira...

domingo, 15 de maio de 2011

Para entreter as horas ( Alma Welt)

Não arrastei a vida, andei na frente
Com o cabelo e o rosto ao vento
Desbravando viva e bravamente
As horas em seu próximo momento.

Aventura maior do que estar viva
Não há, como estar ao próprio ritmo
Do primeiro e último conviva,
Nosso coração e rei legítimo.

Se me pus a rechear o entremeio
De poemas e sonetos bem rimados,
Para entreter as horas foi um meio

De nublar-me a certeza de morrer
Unindo o prazer aos meus cuidados
De em mim mesma restar, permanecer...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Testamento ( de Alma Welt)

Ao vento não lancei os meus desejos,
Mas em versos ritmados no papel
Para em rimas plasmar os meus ensejos
E os caprichos, tantos, em tropel

Formando com eles as milícias
Dos meus sonhos loucos de poeta,
Não só os dos gozos de delícias
Mas também os místicos, de asceta.

Talvez só seja ingênua aspiração
De restar ao menos no papel
Por mais de uma futura geração...

Para quê? me perguntam amiúde
Os que apostam da matéria a finitude
E descrentes acreditam só no céu...

15/01/2007

sexta-feira, 18 de março de 2011

O fantasma dos sonetos (de Alma Welt)

Permanecer viva em meu escrito...
Eis a esperança que ainda guardo,
E sendo isso o derradeiro Mito
Que me mantém acesa, com que ardo.

Um soneto mais, que insensatez!
Não posso parar, devo ir em frente.
Acabar é dar o sim ao pretendente
Que hospedado espera a sua vez.

Toda a minha vida entretecida,
Concentrada afinal em tipos pretos
A me fazer mais íntegra e assumida!

Já mal existo fora de um poema,
E sou mais e mais nestes tercetos,
Eu, fantasma vivo, que ainda teima...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sonetos como um pássaro (de Alma Welt)

Sonetos como um pássaro (de Alma Welt)

Criar sonetos como um pássaro
Que canta por cantar e abrir o bico
Ou porque tendo já descido ao tártaro
Subiste e sem culpa nem um tico.

E então ao leitor lembrar Camões
Sem poderem dizer que o imitas
Pela forma pouco lusa que compões
Ou pelos dois olhos com que fitas

A tua realidade que é só tua
Sendo outrossim de toda gente
Que persegue a palavra que flutua

Ao léu, por aí, no espelho astral
Onde o mundo então seja diferente
Mas nunca invertidos bem e mal...

(sem data)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Cosmogonia (de Alma Welt)

A força e lei maior que tudo une
É a da Gravitação Universal.
Ela é Deus e o Amor que nos reúne
E também cria o habitat natural

Onde prosseguimos procurando
O que está em nós, o mesmo Amor,
Que ao buscar fora de nós criamos dor
Que também vai se aglutinando

Num anti-universo que é o Horror
Que gera anti-matéria, que é o Mal,
Se insistirmos em juízo de valor.

Mas para entender esse imbróglio,
Caminhando sob o grande Festival,
Minhas estrelas simplesmente olho...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Titã (de Alma Welt)

Creio o homem ser maravilhoso
Em seu funcionamento tão complexo.
Nem me refiro só ao amor e o sexo
Mas ao nosso cérebro espantoso.

Não me venha então com a coisa vã
De visões negativas, derrisórias;
O homem em si mesmo é um Titã,
Só civilizações são provisórias.

Afinal somos feitos das estrelas,
A ciência o provou e é verdade,
E até nos caberá também fazê-las.

E me espanta que o Bardo já sabia
Quando o colocou na Tempestade,
Como no próprio cerne da Poesia...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Veronica’s Veil (de Alma Welt)

Plasmar-me vero ícone em poesia
Foi pra mim verdade e confissão,
Pois jamais em falsidade conseguia
Resistir ao linguajar do coração.

Não há como mentir ou falsear
Tua verdadeira face ao mundo
Se tiveres alma e palma que rimar
E chegar do coração ao poço fundo.

Pois se fores falso nem atinges
O que se denomina de poema,
O lenço que com más tinturas tinges...

Quais cabelos as raízes mostrarão
A cor de uma velhice que se tema:
As mais feias rugas de expressão...

(sem data)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço dos sonetos (de Alma Welt)

Só sei que em vão na vida não passei,
Deixando a minha alma por aí...
Que em milhares de sonetos registrei
Cada forte ou vão momento que vivi.

Pensando bem, não foram vãos momentos,
E não por serem fortes de lembrar
Mas pelo aval do olhar, não sentimentos,
Que estes mesmos só costumam enganar.

Sentimentos jamais, não, nem pensar!
Os bons versos não são sentimentos,
Mas deverei pagar a conta de rimar,

Já que esse entre os vícios de poeta
Deu aos meus versos ao menos linha reta
Antes de se dispersarem pelos ventos...

(sem data)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Jornada ( de Alma Welt)

A quem agradecer tanta beleza?
A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura,
Ou ao Tempo que a todos nos matura
Pra ceifar-nos logo, com crueza?

Acabamos de aprender alguma cousa,
E depois de tantos erros e erratas
Estamos aptos a escrever na lousa,
Que afinal será um nome e duas datas.

Mas se a vida foi bem desfrutada
E co’a sabedoria estamos quites
Pelo menos já fruímos a jornada

Que terá sido tão bela de se ver...
E a verdade é a beleza, disse Keats, *
Era tudo o que havia pra saber.

06/11/2006

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O Armário (de Alma Welt)

Tanta poesia no mundo a nos cercar!
Quem ousará dizer que tudo é mau?
Haja alma para tanto assimilar
E haja coração pra tanto sal

Da Vida, da Poesia, da Beleza
Que mesmo o próprio homem recriou
Além da que restou por gentileza
De Deus quando ralhando nos deixou

E se retirou pro firmamento
Onde permanece até o momento
De vir suspender nosso castigo

Que é da alma o armário escuro e fero
Onde eu com minha letra mal consigo
Escrever o meu poema enquanto espero...

(sem data)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Quem sou, de onde vim... ( de Alma Welt)

Quão perto estou de entender tudo!
Quem sou, de onde vim, vou para onde...
Acreditem-me, eu creio e não me iludo,
É algo que ao olhar se nos esconde

Mas que mora dentro de nós mesmos;
Algo que está conosco sob um teto,
Que a Poesia co’ele lida em outros termos
Como um culto iniciático e secreto

Em que remexe as vísceras de um bode
Como outrora os gregos e romanos
(que o ser humano procura como pode)...

Bah! Falando em vão de tudo isso,
Chego a conclusão que há muitos anos
Habito um caos secreto e insubmisso...

(sem data)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Metamor (de Alma Welt)

Não mais me importar com ser amada...
Quem me dera chegar a tal momento
E viver em plenitude e alheamento
O Ser do ser, e amar sem sentir nada!

Sim, como se Amor o corpo fosse
No gesto simples de doar e de colher
Como as flores se dão ao nosso ser,
Só muda fragrância, seca ou doce...

Nada de palavras, nem poemas
E muito menos os dúbios sentimentos
Tão cheios de equívocos, esquemas...

Sem coração que quer reter, capturar,
A aura intangível dos momentos
Inefáveis, que podemos só lembrar...

18/09/2006

sábado, 27 de novembro de 2010

Canção do Amor Louco (Alma Welt)

Também hei de cantar o louco amor,
E desde logo consultei o coração
Para saber se atingi um tal teor
Que me mereça cantar sua canção.

Que não ouse aquele que amou pouco
Ou fez do amor barganha ou possessão
Tentar ser porta voz de um amor louco
E alheio a meios tons e à concessão.

Amor move as estrelas disse Dante
Que sabia do amor em sua fonte,
Embora nem amado e nem amante,

Mas amou tanto que chegou até a luz
Que é da Divindade a própria ponte
Que leva ao louco Amor que nos conduz...

(sem data)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O interdito (de Alma Welt)

Este senso de beleza que ganhamos
De Deus, em nossa própria natureza,
É o melhor de nós, que desfrutamos
Do paraíso, não perdido, com certeza,

Se jaz em nossa alma assimilado
E posso recompô-lo a cada passo
Quando estou a vagar pelo meu prado,
Diária romaria que ainda faço...

E vejo que está completa a vida,
Não perdemos nada, isso me intriga,
A expulsão nos foi só advertida

Como falsa reprimenda, só um pito
Diante do mistério do interdito
Contra o qual Deus mesmo nos instiga...

(sem data)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O Eterno Retorno (VI) (de Alma Welt)

Às vezes ser mais simples eu quisera,
E viver sem questionar o tempo e o ser,
A razão de se viver e essa quimera
Que nos exige trabalhar para viver,

E buscar ser feliz a todo custo,
Mesmo contra a nossa própria mente
A recordar a dor, o medo e o susto
De ver tudo perdido de repente...

Mas perdido o quê, além da vida,
Que pelo que se espera lá no fim
Infelizmente já é coisa resolvida?

Talvez viver seja somente procurar
Voltar ao par que fomos no jardim,
Bem antes deste mundo começar...

(sem data)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Il Carnevale (de Alma Welt)


Il Carnevale (de Alma Welt)

A vida é sofrimento, a morte é mais.
Prazer e dor, o resto é veleidade...
Vivemos nossos sonhos mais reais
Entre um e outro sonho de verdade,

Que são os que vêem de outro plano
Que de tão vasto e ignoto me consola
Por saber que esta vida é um engano
E o Sonho é maior, e não esmola

Pelos tormentos da vida neste vale
De sombras que bailam delirantes
Já que isto é mesmo “il Carnevale”

De uma louca Veneza atemporal
De gestos estudados e arrogantes,
Sob as neutras máscaras de cal...

(sem data)

sábado, 2 de outubro de 2010

A Alma do poema (de Alma Welt)

Já tudo é só poesia para mim,
E o poema não é algo destacado
Do viver, do ser, ou algo assim,
O justo sentido experimentado...

Mal posso conceber que uns não vejam
O mundo revelado como vejo,
E as coisas veladas mesmo estejam
Para alguns olhos eivados de desejo,

Que deveria ser motivo suficiente
Assim como o amor, para a poesia
Apresentar-se assim a toda gente.

Mas percebo afinal, e meio triste,
Que a alma do poema renuncia
A preencher um vazio que resiste...

(sem data)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A linguagem das coisas (de Alma Welt)

As coisas todas falam de algum modo
A linguagem do indizível e inaudito
Dentro do silêncio com que rodo
Os olhos ao redor ou com que fito

Para encontrar o elo que as liga
Nesse imenso discurso natural
Livre da malícia e da intriga,
Do tal pecado isenta e do mal

Ausente do espaço entre os astros
Que mal podemos conceber em anos-luz
Pois que temos contados nossos passos

Com nossa pequenez esbravejante
E toda essa empáfia que a conduz
A carregar o mundo qual atlante...

O pó e a luz (de Alma Welt)

O pó tem sua essência revelada
Quando dança na luz filtrada em frestas.
Para o grego era a alma figurada
Que nos cobre o mundo e as arestas.

É um consolo saber que tudo vive,
O mistério preenche-lhe o vazio,
E o nada, pavor que sempre tive,
Seria a razão mesma do que crio...

Pois saber quão pouco conhecemos
Nos dá esperança de sentido
Nesta vida às cegas que vivemos.

Assim, é bem possível vida eterna
E até um paraíso prometido
Na pequenina luz de uma lanterna...

04/12/2005

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Lição de Hesse (de Alma Welt)

Viver no mundo, como nele não estar;
Respeitar a lei e os costumes
Conquanto bem acima se alçar
E ter só nos artistas os meus numes...

Foi isso que aprendi com Hermann Hesse,
Mas não só os escritores o ensinam.
Também, é preciso que eu confesse,
Os que uma má pintura não assinam.

Assim, criar acima do viver,
Mas não esquecendo que o humor
É a suprema criação do humano ser,

Que o artista tem quando é fecundo,
Uma concessão feita de amor,
E consiste num fingir estar no mundo...

(sem data)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O cristal do poema (de Alma Welt)

Sabemos que o poeta não tem fim
E fica vicejando eternamente,
Não porque não morra ou coisa assim,
Mas porque o que lança é a semente.

Pois o poema em si morre e se refaz
No pensamento vivo que o defronta,
Como uma alma que não tendo paz
Volta porque ainda não está pronta.

Assombrados então pelo poema
Convivemos com mundos perdidos
De palavras e seu pródigo sistema

De trazer-nos o espelho das idades
Pra que possamos ver-nos refletidos
No cristal terrível das verdades...

(sem data)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O Propósito (de Alma Welt)

Meu propósito não é senão poesia
E nada mais desejo senão isso:
Tornar-me o que cedo eu antevia,
A palavra e seu grande compromisso

Através de uma vida de labor,
Polindo em filigrana o verso fino
Para corresponder em forma e cor
A um alto modelo mais divino.

Passar a caravana enquanto latem
Ou mesmo dedicar-me às firulas
Enquanto os mil aflitos se debatem

Não é bem o que faço, com certeza.
Se assim pensas que vivo, tu me anulas,
Creio buscar, senão a luz, uma clareza...

(sem data)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A Linguagem de Deus (Alma Welt)

Estar com o poema, em sintonia,
Que existe palpitando sob tudo,
Que tudo é matéria de Poesia,
Que nada é opaco, inerte ou mudo...

Aos olhos do Poeta sob o céu
As coisas falam ainda, e o coração,
A linguagem primeva de Babel,
Aquela mesma anterior à confusão.

Eis a nossa sedução de filhos pródigos
Que buscam o pai malgrado os danos
Causados às terras e aos códigos!..

Nos recompomos na língua verdadeira,
(que Deus deixou um rabo da primeira)
Pr’ Ele mesmo entender o que falamos.

10/01/2007

sábado, 4 de setembro de 2010

A Poetisa (de Alma Welt)

Então vede como a Poetisa nasce!
Seu estro do Nada não brotou,
Mergulhada que tem a sua face
Na Alma do Mundo que espelhou.

Ela sou eu, tu és e somos nós...
Sua alma está em nós disseminada,
Tanto mais que paga o preço atroz
De ter a sua existência duvidada.

Mas ao debruçar-se sobre o verso
Nas horas de prazer ou de agonia
Descobriu seu consolo no adverso...

Pois se muito sofre quem amou,
Mais beleza planta quem a cria
E torna-se ela própria o que criou...

(sem data)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Testemunho (de Alma Welt)

Dar o testemunho meu de vida,
A mim mesma parecia pretensão
Conquanto já estivesse resolvida
A registrar cada passo neste chão.

E cada pensamento ou devaneio
Deveria fixar como sagrado
E nada me seria então alheio
E eu seria tudo o que é pensado.

Pois ser é infinito, sem limite
Se podemos o todo em tudo ver
E o inefável apresenta seu convite...

A beleza de tudo é coisa séria
Quando libertamos nosso ser
Do próprio desprezo da matéria...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Recriação de Lilith (de Alma Welt)

Consta que um mago da Judéia,
Que era um alquimista disfarçado,
Conseguiu recriar ante a platéia
O Ser Primeiro, belo e rejeitado,

A primordial mulher do pobre Adão,
Lilith, que por ter sopro divino
Entrava com o macho em colisão,
Mas já com a sedução do feminino.

E Adão que já era um bom covarde
Queixou-se ao senhor, de sua consorte,
Que afinal o acudiu um pouco tarde

Pois o homem ainda tenta recriá-la
Pois seu fascínio Eva não iguala
Mesmo que seja Vida, e ela... a Morte.



E mais este:

Confusão (de Alma Welt)

De muito longe no tempo vem minh’alma,
Assim como as mais puras dentre vós
Que recordamos a raiz do nosso trauma
Co’a confusão lingüística da voz...

Mas Deus alternativa oferecia
Além do aprendizado desses códigos:
O dom maior da Música e Poesia
E da boa acolhida aos filhos pródigos.

Desculpai-me a confusão, por minha vez,
Que muitos acham só insensatez
Eu assim misturar temas e conceitos.

Mas creio estar tudo interligado,
E o Retorno ao Paraíso, programado,
A charrua abandonando e nossos eitos.

(sem data)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ainda o Poeta (de Alma Welt)

Observo as crianças nos seus jogos,
Lindas, a correr pelo jardim,
A brincar como o poeta com o Logos,
Qual se fora correto e sábio fim.

Tudo é infantil, e o esquecemos...
Levamo-nos a sério, a ferro e fogo;
Nos esfalfamos tanto e queremos
Com esforços ou só com prece e rogo.

Mas ao poeta cabe ser só o vigia
No farol, desarmado sentinela,
Ou curioso que tão somente espia.

E se tiver que tomar parte na loucura
Que seja para pôr mel e canela
Nesse confuso caldo de amargura...

(sem data)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Eterno Retorno (IV) (de Alma Welt)

Construo a cada dia minha jornada
De sonhos e verdades para mim,
Mas como a mais urgente empreitada
De quem sabe que a vida tem um fim,

Mas também finalidade: crescimento
E construção de um berço de acalanto
Pra de mim mesma o próximo rebento
Que levará a tocha do meu canto...

Pois Alma sou, do Mundo, e já sabia
Que a mim devo sempre recordar
Que ao humano cabe ser luz e Poesia.

E assim voltar poeta neste mundo,
O mesmo, mas um pouco mais profundo,
Para, um dia, ao Lar Primeiro regressar...

(sem data)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Reflexão (de Alma Welt)

Quão dúbia é a nossa humanidade,
Mormente no que tange à alegria
Que tanto almeja a eternidade
Quanto dessa rota nos desvia!

Perdida nos meandros do nadir,
Às voltas com um rol de ninharia,
Em nome de hipotético porvir
Como se fim e morte não havia...

O passado, rico em seu resíduo,
E a memória, sua vocação eterna,
São o lastro-ouro do indivíduo,

Mas só a Poesia ainda elucida
O teatro de sombras da caverna
Cujo elenco tememos na saída...

(sem data)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alma Frankenstein (de Alma Welt)

Que posso eu, vã poeta deste Pampa
Fazer em relação ao triste Mundo,
Que é o lado sombrio que destampa
A caixa de Pandora que é, no fundo?

O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,
Num tempo que perdemos por maldade;
O abismo que cavamos, mal juízo
Que fizemos de nossa deidade...

Querer mais... da humanidade a maldição,
Fagulha a nós legada por aquele
Prometeu, de quem somos a metade.

Qual Frankenstein, somos filhos da Razão
Que nos deu a solidão, a mesma dele,
Desterrado de toda sociedade...

16/12/2006

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Nichos e fronteiras (De Alma Welt)

Escrever para um leitor imaginário,
Reverente, disponível, apaixonado,
É a ilusão do poeta em seu contrário:
O ser nele socialmente motivado...

Pois o campo do poeta é a solidão,
Espaço de angústias indizíveis,
De um vago vagar na vastidão
Eivada de sombras e desníveis,

Espectros a se esgueirar furtivos
Que fazem sinais pra que os sigamos
Aos nichos profundos do que amamos,

E a uma outra fronteira perigosa
Onde cessa sua poesia e sua prosa,
Limite da razão e dos motivos...

(sem data)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Revelando tudo (de Alma Welt)

Revelando tudo aos meus leitores
Construo o meu mistério humano,
Pois aquilo que se esconde não tem cores
Pelo menos nesta vida ou neste plano

Como os gatos na noite, todos pardos,
Que são furtivas sombras de delírios
De mente mais afeita aos duros cardos,
E à alvura avessa, como aos lírios...

Não que eu rejeite névoas, meios-tons,
E a sutil mensagem de entrelinhas
Que é prerrogativa de alguns bons...

Mas se foste firme, com inteireza,
Quem ousará cobrar mais do que tinhas
Se desnuda ofereceste tua beleza ?

15/07/2006

sábado, 8 de maio de 2010

Alef (de Alma Welt)

E me vi num espaço de alforria
Onde antes corria aquele vento
Ou rio do meu próprio pensamento,
Que há tempos a Morte perseguia.

E eis que o Tempo cessa por encanto
E me sinto de repente em plenitude
No cenário da minha juventude,
E dessa memória guardo o espanto.

Quão belo é o hiato que me acalma
E faz ver o equilíbrio delicado
A que o homem precisa dar a palma!

Essa zona de silêncio em meio ao prado
É um Alef sublime, e tudo é uno:
A alma e seu amor, o fogo e o fumo...

(sem data)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Chave (de Alma Welt)

Prenda igual às outras nunca fui,
Pois a Arte foi minha prioridade
Desde que, ao piano, em tenra idade,
Ouvi meu pai num tema que evolui

Em seqüência ou num moto perpétuo,
E vendo que aquilo era um inseto
Besouro ou abelha, tal e qual
Eu ouvia na coxilha ou no quintal.

E pareceu-me a chave do viver
Verter em melodia os sons da vida,
Que a palavra também podia ter.

Desde então eu persigo a tradução
De tudo ao meu redor com a intenção
De ver no mundo minha face refletida.

(sem data)

domingo, 18 de abril de 2010

Perto do coração da Vida (de Alma Welt)

No soneto de estro inesgotável
Persigo o próprio coração da vida.
E ele me há de revelar a impalpável
E real face do ser, quase perdida.

O significado da existência,
Estou persuadida: está oculto,
Desafiando o homem e sua ciência,
E alheio a toda fé e todo culto,

A um palmo, um dedo, um quase nada,
Misturado nos afetos e no laço
Que une um ser ao outro na jornada,

No garimpo do poema, na bateia,
Numa pedra, talvez de brilho baço,
A Verdade... sem aplauso e sem platéia.

(sem data)

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Ser e a Morte (de Alma Welt)

A Morte sempre envia seus sinais,
Mas o faz em código sutil,
Nem sempre com os signos fatais
Mas como um vocábulo entre mil

Mensagens que o dia nos transmite
E nos tiram da possível sintonia
Com aquele pavio de dinamite
Que, visto, faz da vida uma agonia.

Não podemos pensar, este é o jogo
Proposto ao Homem racional,
Propenso a questionar o seu malogro.

Pois se a pedra dura, e o diamante,
Por quê é o Ser, assim, alvo do mal
Que torna todo esforço irrelevante?

09/07/02006

quarta-feira, 24 de março de 2010

O plano da Vida (de Alma Welt)

Qualquer coisa vista em minha vida,
Incluindo a que existe só na mente,
Será no meu poema revivida
Para eu ser em mim mais claramente.

Que presunção! És louca, hás de convir...
Dirão aqueles que lançados na corrente
Crêem que basta estar para existir,
E que a vida a si mesma se contente.

Mas, vê: todos lançam sua semente
Porque uma vida é pouco e nos desmente,
Sejamos animal ou simples planta,

Se após tanto penar e tanta lida
Seja o plano de Deus, pra nossa Vida,
Morrer, dormir, sonhar... depois da janta.

(sem data)

terça-feira, 23 de março de 2010

Édipo (de Alma Welt)

Saber nosso lugar aqui na terra
Não é tão óbvio, simples e direto.
Alguns nascem no seu pé-de-serra
A maioria vem apenas sob um teto,

Inesquecível, sim, como cenário
Das visões primeiras, encantadas
Como aquela mancha no armário,
Um duende sorrindo para as fadas.

Mas depois começa o nosso exílio
E toda uma vida de procura
Para encontrar de novo o domicílio

Onde ocorreu em nós a ruptura.
E frente ao velho casarão estacionar,
Dizendo: Foi aqui. Cheguei, posso parar...


28/09/2006

terça-feira, 2 de março de 2010

Postfácio (de Alma Welt)

Saberei parar um dia e emudecer,
E conformar meu passo ao coração?
Olhar as profundezas do meu ser
E estar bem, ali, c’os pés no chão?

A dor se tornou arte, isso foi bom...
O poeta irá tornar-se o cisne negro
Num longamente acalentado som,
Seu solo patético e mais íntegro.

Cantei por não saber calar a vida
Neste coração que se entusiasma
Pelo belo, o puro, e mesmo a lida.

Quanto à dor, também a vejo assim:
Como um último e íntimo fantasma
A dizer: “Viva, viva, viva” até o fim...

15/01/2007

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Cenário (de Alma Welt)

Passamos a vida a construir
Um cenário coerente, quero crer,
Para podermos simplesmente ser,
Despojados da idéia do porvir,

Que é a maldição da consciência,
O rubro fruto amargo da Razão,
Que nos trouxe angústia e aflição,
Por nos ser da Morte a vã vivência.

Mas, pensando bem, nosso animal
Resta-nos no âmbito do instinto
E dele vem o tal terror fatal...

E sofro, hesito e me debato
Ante o Nada que será o entreato,
Ou a tela em branco que não pinto...

(sem data)

O Retorno II (de Alma Welt)

A Aurora do Homem está por vir
Quando sem o medo que o atrasa,
Andará, sem choro ou mesmo rir,
Sobre a Terra que será a sua casa.

Já o vemos: é uma luz na multidão
Que se espalha e abre uma cortina
No antigo e endurecido coração
Que treme pois ainda a raiva o mina

Contra a dura maldição do Criador
Que nos lançou também contra a mãe Gea
Numa fúria de revanche e de rancor.

E voltaremos às terras e às águas,
Como bem antes daquela má idéia
Que nos deu menos prazeres do que mágoas...

23/07/2006

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A Solidão do Poeta (de Alma Welt)

Não espero ser bem compreendida
Pelos anos em que vivo ou logo após,
Mas se a Arte é solidão atroz,
É abraço também na despedida...

É consolo, pranto em ombro quente,
Pois que tudo é matéria de poesia,
É um olhar incólume entre a gente,
Mas que tudo colhe e se apropria.

E se à vezes me sinto assim tão só,
A ponto de gritar contra as paredes
Ou sair rolando nua pelo pó,

Eu me envergonho logo da fraqueza,
Ante vós, outros poetas que me ledes,
E volto a assumir minha riqueza...

21/07/2006

O Poeta e o levante (de Alma Welt)

Através dos milênios à porfia,
Carrega o poeta a sua tocha,
E o tão sagrado fogo da Poesia
Pesado vai ficando, como rocha.

A solidão aumenta a cada século,
Que, nós, milênios dentro carregamos,
Que ser poeta é ser como um espéculo
Da espécie que o saber e dor herdamos.

Que importa se o tempo nos compreende!
A missão é passar o fogo adiante,
Um poeta com outro só se entende

Desde o nadir do ser, de trás pra diante,
Como esgarçada malha que se estende,
A esperar de nós nosso levante...

(sem data)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ode à Alegria (de Alma Welt)

A dor do mundo vem do coração,
De nossa angústia, peso e compunção;
Mas a alegria, ah! essa é profunda,
Que de água meus olhos quase inunda.

É a tal celebração na despedida,
E o abraço ardente na chegada;
É quando mais a gente fica unida
E mais se sente amar e ser amada.

Mas se só amamos quem amamos,
Perdemos o valor de sermos homens
Em meio a tantas lutas e desordens.

Alegria congrega e unifica,
Traz de volta a inocência e reivindica
O Éden que era em nós, e o deixamos...

(sem data)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Nau, ou O Mistério de Viver (de Alma Welt)

É tão fina a sintonia do real
Que podemos perdê-la por descuido.
O menor toque errado no dial
E teremos só estática, ruído,

Além dos tais fantasmas do passado,
Aqueles que geramos todo dia
Formando, paralelo, um outro fado,
Que da rota verdadeira nos desvia.

Mas, o mistério de ser e estar na vida
É que sendo tão frágil o equilíbrio
Como nau na procela enraivecida

Que quer ver capitão vencido e morto,
Singramos e empenhamos nosso brio
Qual se nos aguardasse um belo porto...

28/09/2006

Funhouse (de Alma Welt)

Quantos mundos existirão no mundo?
Infinitos, responderei com espanto.
E entre tantos, só já não confundo
O que demônio é... e o que é santo.

Vejo reflexos, ouço ressonâncias,
Fragmentos que formam um mosaico,
Fazendo do real e suas instâncias
Um jogo de montar um tanto arcaico.

Assim, nada é mesmo o que parece,
E é preciso cada fato interpretar
Para entender a teia que se tece.

Mas não pode apostar em seu juízo
Quem, por viver, como eu crê habitar
Uma casa de espelhos e de riso...

14/05/2005

O ser e o nada (de Alma Welt)

Não podemos entender o que é Morte
Tampouco sabemos o que é Vida
A cultura quer trazer algum aporte,
A coisa é o que lhe é atribuída.

Mas se nossos hábitos deixamos
E esquecemos um pouco das lições,
Nada refaz o senso que emprestamos,
Cai o mistério sobre as mínimas ações.

Vede como é fútil o dia a dia,
A passagem das horas é atroz,
Nos debatemos a falar algaravia,

Um código de sons balbuciados,
Mero jogo de crianças nos gramados
Enquanto avança a sombra sobre nós...

(sem data)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Cada homem é uma Ilha, ou Os sonhos da Razão (de Alma Welt)

Poderemos conhecer um ser humano?
Nossas mentes poderão sintonizar
E as palavras e os sentidos conformar
Sem incorrer no velho ledo engano?

Cada um de nós é só uma ilha
Perdida na imensidão do pélago,
Ou então com espaços de uma milha
Formamos infinito arquipélago.

Os continentes?... são inflados egos,
Contrariando a proposta do poeta
Que estava a escrever para uma neta

Ou para alunos jovens bem bisonhos
E tratava de mantê-los todos cegos,
Que da Razão os sonhos são medonhos...

(sem data)

Nota
Como alguns leitores já perceberam, minha irmã, a grande Poetisa Alma Welt, não tinha compromisso com pensamentos bem comportados, ou com o politicamente correto. Nada de pontificantes sentenças morais e caminhos a seguir. Ela tinha o elevado pessimismo dos verdadeiros idealistas. Seu questionamento do ser e do sentido insondável da vida, era rebelde e só não desesperado por conta de seu gosto inabalável pela beleza trágica da vida. Neste soneto ela faz uma paráfase antitética dos versos de John Donne: " Nenhum homem é uma ilha"..... "todos somos parte do continente". E uma alusão ao dístico de uma gravura de Goya : "El sueño de la Razón produces monstruos".
(Lucia Welt)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Metafísica, ou O vôo do mosquito (de Alma Welt)

Às três ou quatro conhecidas dimensões
Que podemos constatar ou só inferir,
Se juntará a mais sutil das ilações,
Que é a nossa dimensão de Existir.

Entretanto dela não sabemos nada,
Nem o sentido, quanto mais definição.
Todavia persistimos na jornada
Como se isso fosse mesmo conclusão.

Mas o simples mistério da Existência
Descortina para nós o Infinito
Que por certo disso tudo é a essência.

Mas o que é a Essência não sabemos,
Pois ainda nem sabemos do que vemos
Além do simples vôo de um mosquito.

(sem data)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A pedra e a rosa (de Alma Welt)

O ser humano tem a ânsia da fusão,
Do misturar-se ao outro docemente
Pra estar além da inata solidão
Em que o corpo é cárcere da mente.

Mas quantos vãos rodeios sedutores
A alma pra se unir deve fazer,
Tão próxima do outro, seus pendores,
E tendência a tão só permanecer

E de restar no meio do caminho
Por medo do silêncio que ali medra
Depois de todo o imenso burburinho.

Pois a procura é antiga e duvidosa
Como a filosofal e rara pedra
Que cria ouro, em vez de pura rosa...

19/01/2005

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A canção do bem-te-vi (de Alma Welt)

A canção do bem-te-vi está nos genes
E a maneira de um vestir o paletó
Assim como outras coisas mais perenes
É sempre algo que retornará do pó.

Nisto consiste da memória o tal milagre
Que morando nas pequeninas células
Faz que um gesto ou canto se consagre,
Mal-me-quer a renovar as suas pétalas...

Assim, o amor também já vem de longe
E tudo é reencontro ou só memória,
Ninguém foge da sina, nem o monge.

E se o barquinho persiste na procela
Eis nosso afinal consolo e glória:
Temos mesmo do divino uma parcela!

14//08/2007

domingo, 27 de dezembro de 2009

Os viajantes do Nada (de Alma Welt)

O que poucos viajantes nos contaram
Da Morte não merecem o neles crer,
E foram muito raros os que voltaram:
Orfeu, Hercules, Dante, e o armênio Er.

E talvez uns poucos mais discretos
Que preferiram na volta se calar
Pois os lances e ritos mais secretos
Não quiseram certamente alardear.

Cristo foi um deles: por seguro
Não deixou que o tocasse a Madalena
Alegando ainda não estar puro...

Só sei que o mal dito em forma plena
Só nos aumenta o medo desse escuro
E ao Nada novamente nos condena.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Quando cessam as palavras (de Alma Welt)

Tendo vivido pela força da palavra
Só temo o tal momento de afazia
Final, quando a mente a língua trava
Pois nada mais restou para a Poesia,

Quando não mais se tem o que dizer
E tudo se resume num suspiro
Ou numa dor tão grande de morrer
E deixar o mundo em seu respiro,

Que afinal era tão belo como era
Com as mágoas e a feiúra sem sentido
Pois nele havia infância ou houvera.

E numa espécie muda de “aqui vamos”,
Talvez como um sonho indefinido
Alcançamos a paz que não sonhamos.

(sem data)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

As horas voam (de Alma Welt)

As horas voam, é o que elas fazem,
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.

São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,

A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.

E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...

09/12/2006

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O rio ( de Alma Welt)

Atirados na corrente sempre fomos
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,

E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,

E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,

Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...


08/07/2006

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

La vida es sueño (de Alma Welt)

Penso logo existo, diz Descartes,
E eu de mim começo a duvidar.
Serei eu uma alma a me pensar
Ou o fruto final da minha arte?

Se olho para trás minha bagagem
Constato que ela é bem mais real,
Em peso, densidade e coragem,
Do que esta pele branca de areal.

Somos sonho de um deus desconhecido,
Não sabemos o seu nome para orar
E tememos mais ainda o acordar...

Pois no despertar tudo é perdido,
E dói, ah! como dói ver desfiar
Um sonho noutro sonho entretecido...

(sem data)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A Pergunta (de Alma Welt)

Saberei morrer, chegada a hora?
Eis a pergunta que nunca quer calar.
Somos para morte aqui e agora,
Nunca prontos e sempre a adiar.

Não estou muito certa de que a vida
Seja mesmo um projeto que deu certo
Uma vez que é menos bela que sofrida
E o final se passa sempre no deserto.

Ou então, triste, solitária e dolorida
É a nossa chegada àquele porto
Onde não há festa e sim um morto,

Que somos nós, esticados, macilentos,
Expostos como nunca nem em vida
Num falso carnaval de gestos lentos.


(sem data)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A vida (de Alma Welt)

A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.

Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.

Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça

Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.

(sem data)

Nota
Acabo de descobrir este notável soneto inédito na Arca da Alma, que muito me fez rir, e que vou imediatamente postar no blog específico dessa vertente da Poetisa: o dos Sonetos Humorísticos da Alma. (Lucia Welt)

Ariadne em Náxos (de Alma Welt)


Ariadne em Náxos- pintura de John William Waterhouse (escola inglesa do século XIX)


Não temos planta baixa desta vida,
Suas câmaras, alcovas, confusão.
Uma aposta errada ou indevida
Põe tudo a perder e sem perdão.

Alguma lógica a nós perceptível
É a do encadear de circunstâncias
Que vemos perscrutando o fio sensível
Que atravessa nosso dédalo de ânsias,

Como aquele da Ariane sem dedal,
Alinhavados como ela ao ser amado,
Pasmo herói confuso e... enrolado,

Pois encontrar a completude original
Numa Náxos aberta e sem volutas,
Eis o nexo, afinal, das nossas lutas.

06/04/2005

Nota
Acabo de encontrar neste domingo, na Arca da Alma, este notável soneto inédito, um tanto filosófico, e a que não falta um toque do humorismo peculiar da Poetisa, cheia de referências, ilações e até trocadilhos. (Lucia Welt)

Por curiosidade republico aqui um outro soneto de mesmo título pertencente ao ciclo Sonetos Mitológicos da Alma, em que a Poetisa aborda o tema de maneira bem diferente, mas igualmente humorística:


Ariadne em Náxos (de Alma Welt)

( Dionisos )

3
Nesta Náxos, perdida, abandonada
Fui por Teseu logo esquecida,
Ou então foi a vela, assim, quadrada,
Que não pode interromper sua partida.

Por isso, ou razões da deusa Ananke
Fiquei a Zeus dará, meio perdida,
Com o fluir do meu destino assim estanque,
A ver crescer meu ventre, embevecida.

Até que o deus alegre, brincalhão,
Aportou nesta Náxos sem nexo
Trazendo um grande falo, como sexo

De madeira, polido, ornamentado,
Com correias preso, pendurado,
E pediu-me que o servisse... esse bufão!

Mariposas (de Alma Welt)

Eu costumava olhar as mariposas
Efeméridas* fugazes no seu cio,
Dançando a doce dança das esposas
Enquanto eu meditava no que crio,

Se vale mesmo a pena de criar
Tanto verso e tanto sonho em vão,
Já que a vida é um breve despertar
No meio da infinita escuridão.

Ou, se poeta, estou fora do mundo
Pois os seres vêm só para amar
E dar à luz um outro mais fecundo.

E se na festa dessa roda de Sansara,
O artista é só o flash que dispara,
Capturando sem jamais participar...

16/08/2005

Nota
Efeméridas- uma espécie de mariposas cujo ciclo completo de vida: nascimento, crescimento, vôo nupcial, procriação e morte, dura apenas um dia.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O canal (de Alma Welt)

Trago a suspeita em que me encano,
De que a vida sempre foi desconfortável
Para o desamparado ser humano
Pois a morte permanece indecifrável.

Ser feliz só é possível ao bobo-alegre
E também ao de baixa consciência
Ou que de além-mundos tenha a febre
Para mascarar tanta impotência.

Pois tal fobia é visível na Natura
Desde que o animal exibe o medo
Na vã corrida, queda, e captura.

E ninguém quer morrer, nem no final,
Com um pé sobre o outro no penedo
Enquanto sobe a maré deste canal...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ritual (de Alma Welt)

Para a minha Musa eu merecer
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.

O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.

Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.

Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...

(sem data)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Labirinto de Dioniso (de Alma Welt)

É possível um ser o outro conhecer?
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?

Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...

E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,

Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano, suficiente...

(21/08/2005)

sábado, 24 de outubro de 2009

O Ser e a Poesia (de Alma Welt)

Pensar o Ser, tarefa inconclusiva
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.

"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.

Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.

Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...

29/12/2005

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Meta-física (de Alma Welt)

Concentro meu olhar numa cadeira,
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.

O pó, a relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.

No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.

E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...

(sem data)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)

Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida

Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,

Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade

Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...

08/01/2007

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Após a queda (de Alma Welt)

Após a queda, retorno ao casarão,
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.

De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
De Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...

A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,

Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Frota de Naufrágios (de Alma Welt)

Reconstruo a cada dia o arcabouço
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados

Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho

Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...

Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!

21/11/2005

O poeta (de Alma Welt)

O poeta não nasce em qualquer um
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.

Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos

Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua

Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...

(sem data)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Amor e Arte (de Alma Welt)

Muitos são os nomes do divino
Mas por certo o Amor é o primeiro,
Com a Arte, sua face e violino,
O poético real e verdadeiro.

Passar por esta vida como um canto,
Um poema, um quadro ou um desenho
Que tenham do amor o mesmo encanto
E se queira buscar com mesmo empenho

É milenar nota do artista, distintiva,
Que há de pagar por ela um alto preço,
É dom que traz de Deus a marca viva.

Então a alma canta, os traços vibram
A palavra recobra o seu apreço,
E pronto: vida e morte se equilibram.

(sem data)

Antípodas (de Alma Welt)

Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.

Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.

Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.

E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.

domingo, 11 de outubro de 2009

A Verdade (de Alma Welt)

A Verdade a todos nos liberta,
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?

Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.

A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.

A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...

(sem data)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Revelações (de Alma Welt)

O poeta em mim fixa no olhar
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.

A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.

Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino

Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.

(sem data)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Cabra-Cega (de Alma Welt)

A poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira

Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Do tatear e o reencontro, comovida.

Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,

Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto... e o reconheço.

(sem data)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Big Bang, ou a Fúria do Logos (de Alma Welt)

Medito sobre a verve do poeta
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras

Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme

Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)

Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...

(sem data)

Ulisses (de Alma Welt)

Viver o mundo, esperança e agonia
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência

De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,

Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.

Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...

05/01/2007

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Vida em verso (de Alma Welt)

Constato que possuo dupla vida
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.

E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado

E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.

Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...

(sem data)


Nota
Mais um um notável soneto recém-encontrado na Arca da poetisa. Alma reafirma mais uma vez, com a bela metáfora do mito de Narciso e da ninfa Eco, a sua fé na realidade da Poesia, na consistência de uma vivência em dimensão poética, como propunha Novalis.(Lucia Welt)

domingo, 23 de agosto de 2009

As perguntas... (de Alma Welt)

Longas vigílias, sofridas, da razão,
Em que a mente luta contra o fado,
O triste destino em comunhão
Do homem como ser desamparado.

Somos para a morte e por certo
É esse o grande laço que nos une
E talvez o segredo do deserto
Com que às vezes o coração nos pune.

No fatal desenlace somos unos
Ou, ao contrário, é a suprema solidão?
Quais os signos e momentos oportunos

Onde a revelação está, se nos escapa?
A resposta é uma cruz, uma canção,
Ou se encontra em nós sob uma capa?

(sem data)

domingo, 16 de agosto de 2009

Reminicências (de Alma Welt)

Outrora eu ia nua até a fonte
Buscar água e ervas milagrosas
Que aprendia com mestre Quironte
O mago das quatro patas grossas.

Nos sagrados bosques de Elêusis
Fui discípula daquele sábio nume,
E por colegas tive semideuses
Cultuando do mestre o claro lume.

E ninfa eu mesma fui ou me tornei,
Perdoem-me vocês a bizarria
Aparente do que agora me lembrei,

Pois o que fluente a mente aborda,
Reparem, não é nenhuma algaravia
Mas aquilo que a alma ainda recorda...

(sem data)

Zen (de Alma Welt)

Para poder conhecer e revelar
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar

O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.

O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso

Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...

(sem data

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Para chegar à casa (de Alma Welt)

Para chegar à casa de meu pai
Também tive fortes descaminhos
Daqueles que erraram no Sinai
E outros talvez mais comezinhos.

O bezerro de ouro não havia
Entretanto fui tentada no deserto,
Melhor dizendo: em plena pradaria*,
Por quem não contava tão por perto.

E agora sob a noite enluarada
E o imenso dossel do meu destino
Eu agradeço estar na minha morada

Pertencente e por fim apaziguada,
Sendo parte integrante “del camino”
E a traduzir em versos a jornada...

(sem data)


*Nota

"Entretanto fui tentada no deserto,
Melhor dizendo: em plena pradaria"

- Por curiosidade, republico aqui o soneto que se refere à tentação que a Alma sofreu na pradaria, por parte de Mefistófeles, uma das configurações de Lúcifer, que já havia tentado Fausto. Tenho motivos para crer que se trata de epísódio real da vida da Poetisa do Pampa:


A Tentação da Alma (de Alma Welt)

(152)

Uma vez estando eu a passear
Pela minha dourada pradaria,
Como de hábito imersa num cismar
Que me levava além da alegoria,

Onde coisas, numes, deuses, tudo junto
Cercava-me e querendo-me com eles,
Eu encontrei um tal Mefistofeles
Que não fazia parte do conjunto,

E este rogou-me desnudar-me
Que queria que queria admirar-me
Prometendo-me tesouro todo à parte.

E eu que não me faço de rogada
Fiquei nuínha, e sim, sem querer nada,
Disse: "Eu mesma sou o Ouro e a Arte!

03/12/2006

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Bugigangas (de Alma Welt)

Quando chego de viagem ao casarão
Trazendo na bagagem novo texto,
Que das bugigangas, só pretexto,
Trago poucas, pois lhes tenho aversão,

Sou mal compreendida por Matilde
E mais pela Solange e meu cunhado
Que vêem logo em mim algo de errado,
Qual seja: alienada ou falsa humilde.

Mas não é o que penso que lhes devo,
Frutos estéreis do vão mercantilismo,
Pois que herdei do meu Vati o idealismo...

É que a mim só interessam sentimentos
E as lembranças gratas dos momentos
De pura emoção, memória e enlevo.


15/12/1999

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O dia e a noite (de Alma Welt)

Os últimos albores na planície
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.

Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.

E assim o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.

Agora, em suas sombras e estigmas,
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...


(sem data)

domingo, 3 de maio de 2009

Vida e Integração (de Alma Welt)

Ao olhar a natureza circundante
Eu vejo que sou fruto e parte dela.
Nada do que há me é distante,
A flor, o inseto e minha cadela.

Tudo, o prado, o vinho e o vinhedo,
As peonas que as uvas vão colhendo,
Seus piás e mesmo seu brinquedo,
E no alto aquela nuvem se movendo.

Mas afirmo que tudo isso me forma,
Devo-lhes corpo e mente, é o que digo,
Ao Universo estou ligada pelo umbigo.

Por isso ao despertar sou nascitura,
E de noite a filha pródiga retorna
Ao velho ventre da grande mãe Natura.

(sem data)

segunda-feira, 30 de março de 2009

O que é a Verdade? (de Alma Welt)

“...a Verdade é a Beleza, a Beleza é a Verdade,
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)


Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro

De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade

Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação

Pois o Mestre calou-se sabiamente
E legou aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente...

(sem data)

Nota
Vale lembrar aqui a confirmação desse conceito metafísico da Verdade, que Alma adotava, nas palavras célebres de outro grande poeta-filósofo, mas do Romantismo Alemão, Novalis:

"A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro".

sábado, 14 de março de 2009

Soneto e ruptura (Alma Welt)

Lançar um soneto no papel
É como “deitar sortes à ventura”*
Na expressão antiga do cordel
Que incorre numa certa ruptura.

Sim, pois que há o antes e o após
Do soneto último e durável
Por fração do gozo e do inefável
Desfrute produzido assim a sós.

Serei eu o que fui antes do verso
Que me transfigurou o pensamento
Fechando ciclo agora controverso?

Lançada em novo impulso para o mundo
Sou doravante o fruto do momento
Que ofertou não sua face, mas o fundo...

(sem data)


Nota

Neste soneto (recém-encontrado na arca da Alma) de implicação metafísica, Alma expressa a modificação (ou renovação) que o poeta sente durante e mesmo após a criação de um novo poema. Ela quer dizer que o momento da criação não pode ser avaliado em sua superfíicie, e que a Poesia revela esse "momento" (a instantaneidade do presente) em sua profundidade iniciática que só os poetas inspirados costumam perceber.

"...deitam sortes à ventura"- Essa expressão lusa arcaica, que pode ser entendida como um jogo qualquer de tirar a sorte para escolher alguém, é citada do poema narrativo português, precursor do cordel brasileiro, "Romance da Nau Catarineta", que no Sul ganhou melodia e era cantado no "fandango" até o final do século XIX.
(Lucia Welt)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Leda e o Cisne (de Alma Welt )




Leda e o Cisne, de Paul Prosper Tillier, 1860


Decidi experimentar volúpia nova
E encarnar princesas mitológicas
Acolhendo as entidades pouco lógicas
Em que Zeus transfigurado punha à prova

A doce e embevecida prontidão
Em tê-lo entre as coxas bem no meio
Ou como chuva de ouro no meu seio
Mesmo que ensopasse meu colchão.

Assim comecei pelo meu cisne
Que ganhara de meu pai, enternecida
Por sua beleza branca enaltecida

Em que senti das plumas como seda
Emergir rubro arpão sem que me tisne
As pétalas e encantos, como Leda...


(sem data)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Das tentações (de Alma Welt)

"Deitam sortes à ventura qual se havia de matar.
Logo foi cair a sorte no capitão general."
(Romance da Nau Catarineta)



A superfície do papel em branco
Sempre me convida à aventura
Não numa espécie de colóquio franco
Já que nela “deito sortes à ventura”

Como diziam os antigos navegantes,
Aqueles da Nau Catarineta,
Que viram a tentação um pouco antes
Do capitão saltar essa mureta.

Pois entre o espírito e o papel
Há todo um oceano de tensões
Antes das palavras em tropel.

No perigoso mar desta brancura
Assim também sofro as tentações,
Quando a mente namora sua loucura...

11/08/2006

Nota

Acabo de encontrar este notável soneto na arca da Alma, a meu ver digno de figurar nas melhores antologias do soneto universal, principalmente entre os de teor metafísico, ou os que abordam a própria arte de escrever poesia. (Lucia Welt)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Cassandra (de Alma Welt)

Meu sonho de guria era real:
Eis-me aqui, poeta em plenitude.
Mas ao vivê-lo, eu vejo quão fatal
É ter um sonho chegado à completude!

Posso enxergar em mim, o dom das Parcas,
Meu Presente, Passado, e meu Futuro,
E neste, pouco além, meu próprio Muro,
Que dos três na palma tenho as marcas.

Mas, bah! por justamente tudo ver,
Muito embora por todos sendo amada,
É que é maior a dor de se viver...

Pois meu dom é ironia do Destino:
No cerne do meu ser (que desatino!)
Cassandra de mim mesma... ignorada.

08/12/2006

domingo, 18 de janeiro de 2009

Abadia na floresta de carvalhos, de Caspar David Friedrich ( de Alma Welt)


Abadia na floresta de carvalhos, de Caspar David Friedrich 1774-1840



Aqui estive eu, nesta abadia
Em ruínas em meio aos desgalhados
E retorcidos carvalhos de agonia
Entre túmulos esparsos, semeados.

Andei com estes monges no seu frio,
E conheço a solidão destas paragens,
Tão longe dos sonhos que ainda crio,
Tão próxima da Morte em sua imagem.

De nós mesmos, da terra e do ar
(não há o que dizer, o que cantar),
Aqui o silêncio vem de dentro.

Eu vi o portal que ainda me espera
E por onde passarei à outra esfera
Para atingir do Mistério o pleno centro...

Alma Welt

(sem data)

A Ilha dos Mortos de Boecklin (de Alma Welt)


A Ilha dos Mortos- pintura célebre de Arnold Boecklin 1827-1901, uma das cinco versões que o pintor fez desse tema.




A Ilha dos Mortos de Boecklin (de Alma Welt)

Não pare de remar, ó meu barqueiro!
Faça jus à soma que lhe pago,
Não hesite perante o nevoeiro
Que já desce saudando o que aqui trago.

Ajude-me também co’este caixão
Pois sozinha não poderei plantá-lo
Num nicho desta ilha em solidão
Com somente minha dor a acompanhá-lo.

Ilha Fatal, eis que sou tripla refém,
De pé na proa, como tu a me alçar
Das águas que ousei atravessar

Desse Letes obscuro em que vogamos,
Com meu próprio caixão que me contém,
Nós três: um só, no barco que remamos...


18/01/2007

Nota
Acabo de descobrir este soneto na arca da Alma e que pela data foi escrito na antevéspera da morte da Poetisa. De profundo teor alegórico-metafísico, Alma parece ter interpretado o famoso quadro do Boecklin, que lhe inspirou o soneto, com o barqueiro, a figura de pé na proa e mais o morto dentro do caixão como sendo três faces do mesmo ser: o morto que chega por seus próprios meios à Ilha da Solidão. (Lucia Welt)